Tropecei na ”Miranda!” (e até que foi bom…)

A banda ”Miranda!” em apresentação ”ao vivo” em Santiago (Chile): coloridos, debochados e românticos. Foto: Ignacio Osses

Quem ouve a banda ”Miranda!” pela primeira vez pode sentir uma leve familiaridade com o pop-rock brasileiro dos anos 1980 – algo, sei lá, próximo dos versos grudentos daquela canção da banda ”Sempre Livre”, ”Eu sou free (eu sou free!)/sempre free (sempre free!)/Sou free demais”. Mas não, trata-se de uma banda argentina, nascida em Buenos Aires, em atividade desde 2001, cujo som é definido por eles mesmos como ”electropop melodramático”. Faz sentido até.

O grupo consiste em um dueto liderado por Alejandro Sergi e Juliana Gattas mais uma banda que já teve lá a sua ”dança das cadeiras” (algo até natural pelo tempo de estrada). Eles já lançaram, até aqui, dez álbuns, sendo o mais recente lançado em abril deste ano, chamado ”Fuerte”, que conta com 12 faixas.

Ou seja, uma discografia considerável o suficiente para manter um público fiel na América Latina, exceto no Brasil, onde a banda segue praticamente desconhecida, vide a falta de informações em língua portuguesa a respeito deles (nada de novo no front, os nossos vizinhos são completamente inteirados na música brasileira, enquanto nós costumamos ficar por fora do que é produzido perto de nossas fronteiras – quem sabe após o fenômeno ”Despacito” isso comece a mudar…).

Capa de ”Fuerte”, álbum mais recente da ”Miranda!”

Os descobri quase que ”acidentalmente” em meus mergulhos nas músicas latino-americanas, e achei curioso a existência de uma banda pop eletrônica argentina (ou você conhece outras?). Visualmente, os integrantes da ”Miranda!” são descolados, coloridos, debochados até, o que já é até esperado de uma banda pop. Musicalmente, se diferenciam do ”reggaeton” (gênero muito mais popular nos países vizinhos) pelos flertes com o rock e as batidas mais lentas.

Mas a diferença para por aí. Na temática, estão lá os velhos dissabores amorosos e as juras de amor em forma de canção. Como exemplo, em ”Quiero Vivir a Tu Lado”, single do álbum mais recente, ”Fuerte”, eles cantam: ”Mírame a los ojos otra vez (como a nadie miré)/ Tuve que limpiarte lentamente (de mi piel)/ Ven aqui, sígueme/Solo quiero vivir a tu lado ya ves/Tómalo y si no, déjame”. Ouvindo a gente até sente uma certa nostalgia estranha (oitentista, quem sabe).

Em outra faixa do mesmo álbum, ”Cálido y Rojo”, ouvimos, ‘‘Soy para ti/Que no lo ves?/Abre tus ojos/Estoy aquí/Sé que es amor/Cálido y rojo”. Aqui temos a velha hipérbole passional latina em batidas eletrônicas lentas. Nada mal.

Pra quem gosta de explorar músicas latinas, ”Miranda!” não chega a arrancar suspiros profundos, mas soam agradáveis a ouvidos pouco acostumados com um gênero tão desassociado da primeira impressão que costumamos ter da cultura argentina, no caso, o pop eletrônico.

Deixo cá um dos singles deles:

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Vamos de ”Everything Now”

Começo essa segunda metade do ano ouvindo várias vezes as faixas de ”Everything Now”, novo álbum da banda canadense Arcade Fire, e encantado pela disco music carregada de melancolia crítica de William Butler e cia.

Além da faixa-título, ”Everything Now” (que por sinal tem um clipe ótimo), as faixas ”Put Your Money on Me” e ”We Don’t Deserve Love” me conquistaram logo de cara. Amor à primeira ouvida.

É de ”We Don’t Deserve Love” um dos versos mais fortes e tristes da discografia da Arcade Fire: ”The men you love always leave you alone” (nas últimas estrofes, o lamento vocal de Régine Chassagne ao fundo é, sei lá, de cortar o coração em pedacinhos).

Como aconteceu com os álbuns anteriores da Arcade Fire, precisei ouvir ”Everything Now” inteiro mais de uma vez pra começar a apreciar. A cada sessão, uma descoberta. Até porque não é uma banda de fácil digestão. Soa estranha a ouvidos novos, mas quem se propõe a conhecer de perto acaba descobrindo porque esses canadenses são um dos melhores grupos da atualidade.

Enfim, fica a dica pra quem anda buscando dar uma arejada na playlist.

Em ”Everything Now” (2017, Columbia), quinto registro de inéditas da banda comandada por Win Butler e Régine Chassagne, os integrantes do Arcade Fire continuam explorando a sonoridade de décadas passadas (foto: divulgação)

Luiz

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Roda viva dos medalhões

Tudo começou com o Gilberto, o pai-de-todos, que criou o Amazonino, o-que-já-foi-tudo, que criou o Eduardo, que se voltou contra o seu criador em dado momento, e se juntou ao Serafim, que havia perdido a prefeitura para o Alfredo, outra cria do Amazonino, que na eleição seguinte também derrotou o Eduardo, que voltou aos braços de Amazonino no outro pleito e teve Omar como vice, que também foi vice de Alfredo, que rompeu com ele e se juntou ao antigo adversário Serafim, e os dois perderam pro Omar, vice-de-todos-eles, que jogou no palco o Melo, que foi peitado por Marcelo, que levantou a voz para todos os outros, mas acabou se juntando a Eduardo, que tinha Rebecca como vice quando perdeu pro Melo, que saiu de cena e deu lugar ao David, que está com a Rebecca, que agora tem como adversário o antigo aliado, Eduardo, que está contra o seu criador Amazonino, o nosso Dom Sebastião.

Ficou tonto?
Pois é.
Em círculos caminha a política amazonense.

Luiz

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Em Parintins a gente vê o que é amor

Os bois Caprichoso e Garantido, ”donos” da festa, na arena do Bumbódromo, onde duelam todos os anos: a Amazônia pode ser mágica. E é (foto:Portal A Crítica)

Parintins é uma ilha. Uma cidade de interior com ares de cidade grande, cercada de águas por todos os lados. É o segundo município mais populoso do Amazonas, região norte do Brasil. Fica distante 365 km da capital do estado, Manaus. É lá que, todos os anos, desde 1965, no último fim de semana de junho, acontece o Festival Folclórico de Parintins, o maior espetáculo a céu aberto do mundo, onde os bois Caprichoso (das cores azul e branco) e Garantido (vermelho e branco) travam um duelo anual de artes, cores, sons e danças. Informações bem familiares para quem é amazonense, mas pra quem é de outros cantos do Brasil e do mundo, é um universo completamente novo que se descortina em azul e em vermelho.

Das muitas coisas que aprendemos quando viajamos a Parintins, uma delas prega o respeito total pelo adversário (embora as provocações deem a tônica do espetáculo, principalmente nos versos do amo-do-boi e nas toadas de desafio). No Bumbódromo, onde acontece a disputa, quando um boi se apresenta, a galera do outro boi (como são chamadas as torcidas) fica em reverente silêncio – caso contrário perdem pontos. E justamente por ser um item julgado, é parte essencial das apresentações (ou, um show à parte).

”Já conheci outras manifestações culturais brasileiras, mas isso aqui é simplesmente impressionante”, me disse Anna, uma simpática polonesa, de português impecável, enquanto aguardava a apresentação do Caprichoso.

Não tem jeito. Embora quem vá pela primeira vez ensaie uma neutralidade, o amor pelo azul ou pelo vermelho é contagiante. Se o contato com os torcedores apaixonados não balança, o rufar dos tambores da Marujada de Guerra (os ritmistas do Caprichoso ) ou da Batucada (do Garantido) arrebatam os indecisos. Não há quem resista ao som caloroso das toadas – as músicas que embalam as apresentações, contam lendas, curiosidades regionais e sacodem as arquibancadas. É simplesmente uma ópera ao ar livre no coração da Amazônia.

Outra regra de ouro do Festival: o torcedor do Garantido não pronuncia o nome do Caprichoso; nem o torcedor do Caprichoso pronuncia o nome do Garantido. O nome completo do boi adversário é apenas ”boi contrário”. Mas aquele fanatismo de outrora, quando as pessoas, contam os mais antigos, iam às vias de fato por causa do seu boi, ficou para trás. Ficou a rivalidade sadia e a divisão territorial. A cidade é realmente dividida em duas cores, tendo a Catedral de Parintins, dedicada a Nossa Senhora do Carmo, o ponto de referência e harmonia.

Mesmo assim, no lado azul, onde fiquei hospedado, há casas onde a família inteira torce para o Garantido. Da mesma forma, é possível encontrar torcedores azuis do outro lado da ilha, reduto do Garantido. Tudo misturado. Em paz. Conviver bem com o diferente é possível. Mais uma importante lição parintinense.

Aliás, pra quem vai a Parintins com ”espírito de mochileiro”,  é uma alternativa aconselhável se juntar com amigos e alugar um quartinho na casa de um morador local – uma renda extra a quem hospeda; uma experiência riquíssima ao visitante. E ter contato direto com o parintinense é se apaixonar de vez por aquela ilha de tantos encantos. A hospitalidade e a simpatia chegam a ser ”folclóricas”. O enlace é imediato: encostou em um canto, puxou conversa, já vira amigo.

Os três dias de festa não poderiam ter sido mais felizes. Já seria especial por um motivo muito simples: eu estava lá. Senti, vibrei, vivi aquele espetáculo em todas as suas nuances. Um sonho de criança. Embora a cultura do boi-bumbá tenha feito parte da minha infância, só agora, adulto, consegui ver o Festival com os meus próprios olhos pela primeira vez. A primeira de outras vezes, assim espero.

É preciso ir a Parintins pra perceber que aquela epifania que dobra o número de habitantes em um só fim de semana é muito mais que uma festa, muito mais que dois bois de pano, que duas cores. É puro amor brotando de todos os lados. Das toadas tocadas em cada canto da cidade, das belezas naturais ao alcance das mãos, do afetuoso abraço de alguém que conhecemos ao ”tem café, mano, toma um pouco” dito por aquele que nos recebe em sua casa. Na ilha todos são (e viram) parentes. Todos são parte essencial de uma grande confraternização que impulsiona a economia local.

E falando em amor, acho justo destacar que na minha primeira ida à Ilha Encantada, o boi-bumbá Caprichoso se sagrou o campeão da 52° edição, vencendo todas as três noites, em rara harmonia entre opinião dos jurados e do público. No dia seguinte ao último dia de Festival –  quase uma ”segunda-feira de cinzas” – numa cidade que já retomava aos poucos a sua tranquilidade habitual, testemunhei o lado azul de Parintins pulsar de felicidade.

Ter visto pessoalmente o boi que ainda na infância me arrebatou ser campeão coroou essa viagem, que, de quebra, me ressignificou por inteiro. Pois é, sou pé quente.

Na arquibancada do boi-bumbá Caprichoso antes de uma das apresentações: em Parintins não existe essa de imparcialidade. Ou é azul ou é vermelho (foto: arquivo pessoal).

Parintins – Amazonas/ Junho de 2017

Luiz

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Lágrimas e almas de pedra

O único ser que sabe que um dia vai morrer é o homem. A morte já me assustou mais. Hoje, talvez, nem tanto. O que sinto quando tenho que me despedir de alguém é uma enorme tristeza. Lembro logo do verso do poeta Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.” Entendemos desde cedo que a morte faz parte do ciclo da vida, mas quase nunca estamos preparados para recebê-la. O despreparo é multiplicado quando a vida de alguém querido é arrancada por outro. Aí, luto e desejo por justiça coabitam em nossa alma. Um tormento.

Eram 18h do dia 15 de junho. Recebi uma mensagem da minha mãe informando que um amigo de infância havia morrido da forma mais violenta possível. Emudeci. O Herlan tinha 24 anos – uma vida toda pela frente, pensamos logo. É em horas assim que a sensação de impotência nos invade e coloca por terra todas as nossas teorias, as nossas defesas; ficamos nus, sem a ilusão de que podemos controlar a vida, sem aquela nossa fantasia onipotente.

Um turbilhão de lembranças inundou o meu coração naquele fim de tarde melancólico. Da memória brotaram as meninices (período que mais convivi com ele). Brincamos muito juntos na rua de pés descalços. No futebol de travinha ele não era habilidoso (nem eu, confesso), mas era raçudo, tinha pavio curto, sempre acabava batendo boca com alguém (uma graça). Era sempre bom ter a companhia dele nas brincadeiras de fim de tarde.

Enquanto eu tecia essas lembranças, nos portais de notícias o ocorrido já estava publicado; e nos comentários, o julgamento dos ”justos juízes” das redes sociais. Outra tristeza. Não consegui pensar em mais nada. Conheço a família, a mãe, o vi crescer, o chamava de maninho. E lembrei muito naquele dia do último abraço que dei nele. “Olha, se tu aprontar de novo, te dou uns cascudos”, eu disse, dando uns tapinhas de leve no queixo quadrado dele. Ele riu: “vou não, mano, vou não”. E dei um forte abraço nele. O último.

A gente está tão acostumado a ler notícias de vidas perdidas para a violência urbana todos os dias que esquecemos que as pessoas que tem um fim como o do meu amigo tem família, tem mãe, pai, amigos, tem uma história, uma raiz. Andamos tão embrutecidos… E, pela ilusória distância destes casos, as pessoas se permitem ser irônicas, às vezes até mesquinhas, quando deixam seus comentários na internet. Mal elas lembram que somos feitos do mesmo material. Ah, a velha prepotência humana!

Meu amigo não fez escolhas felizes na vida, é verdade, mas antes, acima de qualquer julgamento: havia uma mãe sentindo uma dor indescritível naquele feriado. Isso já seria um motivo e tanto pra ficarmos em silêncio (até porque o luto materno subverte as expectativas naturais do ciclo – embora recorrente, é difícil até hoje de compreender).

O fato é que podia ser na família de qualquer um, podia ser o maninho de qualquer um. A empatia faz bem e custa zero centavos.

Quanto a mim, prefiro levar uma só recordação do meu mano Herlan: ele sempre sorridente, amoroso, um sapeca. Vou sentir falta de andar por aí e ser surpreendido com a voz levemente rouca dele, “e aí, mano?”, seguido de um caloroso abraço.

De tudo fico só com a saudade. É melhor que caminhar vazio.

O Herlan (ali com a mão no queixo) em um dos meus aniversários: descanse em paz, amigo =´)

Luiz

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Aos irmãos chechenos

Há muitos anos atrás fiquei sensibilizado ao tomar conhecimento (por meio da ong Missão Portas Abertas) da perseguição sofrida por cristãos, em pleno século XXI, em países em que são minoria – na seção ”cartas do campo”, aqui do blog, há vários relatos. Perseguição leia-se torturas, assassinatos, prisões arbitrárias, expulsões de casa, cidadania mutilada etc. Causa principal: o fundamentalismo da religião majoritária do país. E é justamente esse mesmo fundamentalismo que vem respaldando atrocidades cometidas contra gays na Chechênia, uma das 22 repúblicas que integram a Rússia, país menor que o Estado de Sergipe.

Trata-se de mais um caso em que religião é usada para fins políticos malignos, como explana bem essa matéria da SuperInteressante sobre o assunto (vale a leitura). Friso, não é uma questão de ”demonização” da religião A ou B. A praga que deve ser combatida com veemência é o fundamentalismo religioso, que encurta o caminho entre o discurso e a ação de ódio; que embasa atrocidades com o próximo-diferente-de-mim; que usa Deus como costa larga para as mais variadas canalhices.

Desde que o caso veio à tona com ares de boato de internet, grupos tem se mobilizado para denunciar os crimes na Chechênia. Assinei a petição do Avaaz. ”Ah, é só uma petição on-line”, talvez alguém pense. Bem, a gente luta com as armas que tem. É melhor que a apatia.

Se um dia eu me sensibilizei com o sofrimento de irmãos da fé que moram a quilômetros de distância de mim, por que não me sensibilizaria com o sofrimento dos meus irmãos chechenos? Questão de coerência.

O endereço da petição está AQUI. Não custa nada.

Em alguns países houve protesto contra os campos de concentração na Chechênia. No detalhe, jovem carrega cartaz em frente à Embaixada Russa em Lisboa. Foto: Joana Santos.

Luiz

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Diário Portenho #3: A cidade e as memórias nos passos do tango

Buenos Aires parou para a Marcha dos 41 anos do Golpe Militar na Argentina. A Avenida 9 de Julho foi tomada por bandeiras, artes, discursos (Foto: Luiz G. Melo)

O protesto na Argentina é um espetáculo. Quase uma atração turística à parte. Seja pelo vigor com a qual eles reclamam pelos seus direitos (o que não deixa de ser admirável) ou pela confusão que sempre se arma entre os próprios manifestantes. A paixão com que os portenhos discutem, como discutem e a quantidade de polêmicas que surgem das questões mais sérias, ou das mais casuais, é realmente intrigante. Aqui, futebol, religião e política se discute, sim, em qualquer lugar e a qualquer hora.

Tive a sorte de testemunhar pelo menos duas grandes manifestações em Buenos Aires. Uma delas foi encabeçada por professores que cobravam por uma educação de qualidade e uma maior valorização do ensino artístico nas escolas (nessa tinha até um simpático grupo de crianças marchando e tocando flauta doce, enquanto adultos carregavam cartazes).

A mais suntuosa delas, no entanto, foi no dia 24 de março (feriado local), aniversário de 41 anos do Golpe Militar – o Día Nacional de la Memoria por la Verdad y la Justicia. A cidade, literalmente, parou. A Avenida 9 de Julho foi completamente tomada por uma multidão empunhando cartazes, bandeiras, sem contar a infinidade de discursos estridentes ao microfone e as mais variadas intervenções artísticas.

Organizações de defesa dos direitos humanos, associações civis, partidos políticos e sindicatos realizaram cerimônias para recordar os 30 mil civis assassinados pela (considerada) ditadura mais sanguinária da América do Sul, e exigir que a Justiça acelere os processos contra os autores de crimes contra a humanidade.

Caminhando um pouco, acabei assistindo à apresentação de um imenso grupo de percussão à Olodum. Um toque bem brasileiro em pleno feriado argentino. Assista um trecho:

Em cada esquina, para matar a fome da multidão, havia uma barraquinha de choripán (nada mais do que a mistura das palavras chorizo, linguiça, com pán, pão, um sanduíche bem tradicional na Argentina). O cheiro era inebriante, e devorar um debaixo do sol escaldante de fim de verão é quase um pecado gastronômico.

Buenos Aires respira tango por todos os poros – esquinas, praças, bares. Impossível não ter contato. ARTE: Jair Loaiza Duque (Mercedes Giachetti Galería de Arte – San Telmo)

Como um bom feriado argentino, não só as ruas, mas também os restaurantes, bares e cafés estavam completamente lotados. Consegui almoçar em um simpático restaurante no centro com certa tranquilidade. Quer dizer, nem tanto, pois nas mesas ao meu redor as pessoas assistiam à cobertura da marcha enquanto comentavam energicamente os problemas do país.

Apurei os ouvidos pra tentar pescar alguns comentários da mesa ao lado, onde um senhor de barba grisalha, com um certo ar aristocrático, conversava com um jovem a respeito das polêmicas medidas de austeridade do presidente Maurício Macri. Um assunto que, para um típico argentino, rende café, almoço e jantar.

Não por acaso, pois Macri, durante a campanha eleitoral, pregava a retomada da economia e o crescimento de 1% em 2016, mas teve de se contentar com a queda de 1%. Enquanto isso, entre as mudanças radicais que ele promoveu, estão a abrupta desvalorização do peso argentino e os cortes nos subsídios implantados durante os governos de Néstor e Cristina Kirchner.

Ou seja, promoveu um verdadeiro tarifaço: aumento nas contas do gás, de energia e de água. O combustível também aumentou; e nem o preço do transporte público (um dos mais baratos do continente) escapou do reajuste. Fatores que contribuíram, e muito, para a queda da popularidade de Macri nos últimos meses.

O resultado até agora são as mais variadas categorias de trabalhadores ameaçando e concretizando greves por todo o país, e o argentino médio fazendo malabarismos nos supermercados – como bons dançarinos de tango com seus hipnotizantes movimentos de pernas.

Nem os turistas escapam da inflação. A Buenos Aires atrativa aos bolsos brasileiros ficou para trás – mesmo com o real ainda valorizado. Colocando na ponta do lápis, a maioria dos itens de vestuário, calçados e perfumes, por exemplo, saem o mesmo preço e, às vezes, até mais caro que no Brasil.

Nada de sacolões, portanto, mas, com um bom planejamento (incluindo estar antenado quanto às atrações gratuitas na cidade, que são muitas) dá pra usufruir e muito desse pedaço charmoso da América do Sul, e levar de lá algo que dinheiro nenhum nesse mundo pode comprar: memórias.

Afinal de contas, somos habitados por memórias. E de memórias Buenos Aires entende muito bem. Memórias de uma Evita Perón, que repousa no cemitério da Recoleta, ironicamente cercada por uma aristocracia que a detestava, e, vejam só, ainda hoje vive no imaginário coletivo argentino. Memórias imortalizadas em tangos carregados de pasión. Memórias que ficam e ninguém pode arrancar. Memória de quem sai da Argentina já sentindo saudade de uma terra estrangeira.

Em um dos parques do aristocrático bairro da Recoleta: Te extraño, Argentina! (Foto: Jorge Santos)

Luiz

Buenos Aires/ Março de 2017

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