Há flores brotando no asfalto (apesar de você…)

Era pra ser mais um domingo com diversas opções de atividades interessantes na cosmopolita e primaveril Buenos Aires, mas tinha eleições gerais no Brasil, no meu país, e obviamente eu não poderia estar alheio.

Aliás, ninguém estava. Senti o forte clima de eleição daqui, e passei a semana oscilando entre o pessimismo e o otimismo de uma possível virada. Também passei esses dias pré-eleições ouvindo de outros amigos intercambistas, de todos os lugares do mundo, certa preocupação com a possível ascensão da extrema direita no Brasil.

O fato é que o mundo todo acompanhou essas eleições com certo interesse e depois lamentou conosco – o extremismo é uma tendência mundial, diga-se (meu colega belga disse que ideias radicais contra imigrantes começam a ganhar terreno em seu país, um problema tipicamente europeu).

Decidi me encontrar com um amigo brasileiro pra irmos à frente da sede administrativa da Embaixada do Brasil, onde os residentes votam. E mesmo não podendo votar, fui levar um apoio, fazer a minha parte de alguma forma.

Acabou sendo uma das experiências mais fascinantes que já tive em solo argentino. Testemunhei de tudo e um pouco. A começar que já fui logo fazendo amizade com um grupo de pessoas com forte senso de humanidade e militantes incansáveis (cujo trabalho hercúleo na dispersa comunidade brasileira na Argentina surtiu efeito, já que Haddad venceu por 1.566 a 1.355).

Vi gente indo votar de branco e com um livro na mão, conforme o combinado. Vi um advogado apoiador do Bolsonaro do outro lado da praça falando alto os mesmos impropérios de sempre e provocando o grupo a qual me juntei, tentando puxar briga (sem sucesso, felizmente).

Vi uma das minhas compatriotas dando entrevista ao canal local, C5N, e ainda debatendo com o bolsominion boçal ”ao vivo” com um espanhol perfeito, enquanto o outro, em um ”portunhol” rasteiro, exaltou a ditadura militar em plena televisão aberta, em um país que tem total desprezo por esse período (que vergonha!).

Enfim, se as eleições desse ano mostraram o caráter, o egoísmo e a mesquinharia de muitas pessoas, ao mesmo tempo revelou tanta gente do bem, sensíveis, democratas, empáticas. E em frente à sede administrativa da Embaixada do Brasil me senti tão próximo de pessoas que nunca tinha visto na vida.

De repente nos tornamos todos velhos amigos de guerra. ”Amazonas presente!”, uma mulher gritou ao saber de minha origem. E ao longo da tarde fria comemoramos o resultado da seção eleitoral, cantamos, nos abraçamos e, pouco tempo depois, em um bar-restaurante, onde nos concentramos pra acompanhar a apuração, lamentamos juntos.

Lá vi uma senhora chorando copiosamente numa mesa, lembrando o fato da própria filha ser uma ”bolsominion fanatizada”. Só tive o impulso de dar um forte abraço nela e pedir força pois eu ”voltarei ao Brasil e vou ter que encarar isso de perto”. Um momento doce e encorajador que levarei pra vida.

Nunca havia me sentindo tão perto e ao mesmo tempo tão longe do meu próprio país.

O bom é que momentos tristes como o resultado dessas eleições revelam quem realmente está do nosso lado.

Contudo sigo de consciência tranquila e sem nenhuma gota de sangue nas mãos, pois não apoiei candidato que relativiza tortura, perseguição e execuções promovidas pela ditadura militar, e que diversas vezes já demonstrou desprezo por mulheres, negros, índios e LGBTI+, e que também fala abertamente em ”eliminar adversários políticos” etc.

De minha parte só quero estar cada vez mais perto dos meus. Dos que compartilham as mesmas lutas existenciais que as minhas. E abraçá-los, e beijá-los, e protegê-los.

Pra mim a resistência começou na melancólica Buenos Aires e continuará no Brasil.

E que ninguém solte a mão de ninguém!

Buenos Aires, 29 de outubro de 2018

Luiz

desenho: @zangadas_tatu

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O triunfal retorno dos “black-blanc-beur”

 

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A Seleção Francesa atuante na Copa do Mundo da Rússia. Crédito: Reprodução/Twitter Oficial Equipe de France

Na Copa do Mundo de 1998, o primeiro título da Seleção Francesa teve um significado especial. Não só porque jogou em casa e venceu o Brasil na final, mas também pela difusão de uma ideia de integração nacional com a equipe “black-blanc-beur” (negra-branca-árabe, em tradução livre).

20 anos após o principal triunfo futebolístico dos ”Bleus”, os franceses seguem com um time multiétnico dentro de campo; contudo, fora dele a realidade ainda é de intolerância com imigrantes e marginalização de negros e árabes, principalmente com a crise migratória que tem preocupado a Europa nos últimos anos – intensificada pelas guerras, miséria e violações dos direitos humanos, especialmente na Síria e na África subsaariana.

A Seleção Francesa atual, que chegou à final da Copa da Rússia, lembra muito aquela de 1998 na questão da presença multiétnica, pois é formada majoritariamente por atletas com ascendência de imigrantes, muitos de países africanos – o que marca a França como um país bem diverso (mesmo com o racismo e a xenofobia em alta por lá).

Há forte presença multiétnica em outras seleções europeias também, de modo que não seria exagero chamar a Copa da Rússia de ”a Copa dos filhos dos imigrantes”. Filhos que têm vestido as cores dos países que, bem ou mal, acolheram as suas famílias.

Só pela diversidade presente simpatizo muito com o time francês – de Zidane e Thierry Henry ontem, e de Mbappé e Samuel Umtiti hoje.

mbappé em ação

O destaque da França Mbappé em ação nas oitavas de final da Copa do Mundo da Rússia

Luiz

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Tristeza, por favor, vá embora!

Se me perguntarem se a derrota da Seleção Brasileira doeu vou responder que sim, claro, mas não foi injusta. Não é o fim do mundo (pelo menos pra mim que já viu a Seleção erguer a taça duas vezes e perder uma final). Perdemos pra uma grande seleção, pelo menos, a tal ”Geração Belga”, que pelo visto tem tudo pra fazer história nesse Mundial.

Sobre a partida em si, mais do que organização, faltou ao Brasil o que sobrou aos craques da Bélgica: inspiração. Mérito deles. Pois nossos craques, apesar dos pesares, não estavam num bom dia. Acontece. É do futebol.

Sei que é muito habitual uma ”caça às bruxas” nesse momento, e que é comum pedirem, principalmente, a cabeça do técnico. A derrota arrefece o excesso de otimismo e, assim, os erros cometidos pela Seleção Brasileira no torneio ficam mais evidentes, alimentando horas e horas de debates nos programas esportivos, que uma hora ou outra acabam caindo no questionamento primeiro do torcedor: e se Firmino tivesse entrado no primeiro tempo… e se o Paulinho tivesse acertado aquele chute… e se o Gabriel Jesus tivesse cabeceado pro outro lado… e se… e se…

Espero sinceramente que o Tite continue à frente da Seleção Brasileira. Por uma questão de continuidade do que vem sendo feito. Até porque as últimas seleções campeãs do mundo tem como semelhança o trabalho contínuo. Lições do futebol moderno que o futebol brasileiro tem que aprender.

Se serve de consolo ao torcedor mais deprimido, pelo menos de todas as seleções que ainda estão no páreo, nenhuma pode alcançar o número de títulos do Brasil. E há quatro seleções que não possuem nenhum título mundial. E, cá pra nós, a Bélgica ou a Croácia ficarem com a taça seria uma novidade legal.

Até lá, que venha Qatar 2022. Na Ásia triunfamos pela última vez e lá podemos voltar ao topo. Por via das dúvidas prometo repassar todas as capivaras do hexa que passarem por mim.

Vida que segue.

Luiz

A bandeira brasileira formada por fitas na famosa rua 3, bairro Alvorada I: uma das ruas mais enfeitadas de Manaus

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HERMANOS, HINCHADA E PIBES

Ilustração: Liniers

Não necessariamente torço para a Seleção Argentina, mas aprecio muito o jeito portenho de torcer. Essa pilha de incentivar o time até o fim, de cantar sem parar, mesmo com a equipe perdendo. É uma energia tão contagiante que merece ser ”copiada” por outras torcidas, sim (principalmente a brasileira que não consegue superar o ”sou brasileiro, com muito orgulho…” zzz).

A ”hinchada” (como são chamadas as torcidas nos países vizinhos) da seleção duas vezes campeã mundial é um espetáculo à parte. Espia.

Por essas que não fico ”pistola” com brasileiros que dizem torcer para a Seleção Argentina – por chateação com a seleção canarinho ou por admiração pura e simples. Se serve de consolo, do outro lado o que não falta são argentinos que admiram não só o futebol, como também a cultura brasileira de uma maneira geral (e isso particularmente me deixa até vaidoso).

Por não ser afeito a fanatismos de nenhuma espécie, não encaro esses brasileiros metidos a hinchas como ”traidores da pátria” da pior espécie. Cada um admira o que quer, oras! Um pouco de leveza no futebol faz bem e preserva a sanidade.

Messi, Maradona e… Pelé

Lionel Messi é um gênio indiscutível, e por, talvez, essa ser a sua última Copa do Mundo, convenhamos que ele não merecia sair dela tão precocemente. O gol que salvou a Seleção Argentina de uma eliminação na primeira fase não saiu dos pés dele, mas podemos dizer que pelo menos dessa vez os deuses do futebol sorriram para o ”nuevo pibe*” e deram a ele mais uma chance de mostrar ao mundo o que ele sabe: ser um maestro com a bola nos pés.

Falando em craques argentinos, não tem como não citar o Maradona. Dentro e fora de campo ele não deixa de ser um personagem, hum, curioso do futebol argentino.

Olhando por cima, a relação dele com os argentinos vai da total devoção (tem até uma igreja dedicada a ele por lá, pesquisem) ao ”hummm, ok, faz parte da cultura futebolística do país e só”.

Assim como os brasileiros não dão muita bola às opiniões extra-campo do Pelé, os argentinos, no geral, fazem o mesmo com o ”el pibe” Maradona. Consideram-no ídolo nacional, que fez história com a camisa albiceleste e tal, mas no restante o encaram como aquele tiozão do churrasco que bebe em excesso e acaba falando demais.

Pois é, ídolos, paixões e ”causos” não faltam para brasileiros e argentinos. O que falta mesmo é uma final de Copa do Mundo entre as duas seleções. Uma dívida divina que pode ser paga agora, ou na próxima, ou quem sabe.

*”Pibe, na Argentina, significa criança ou rapaz.

Luiz

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Horóscopo da Copa

Pessoas que se autointitulam “cidadão de bem” (cof-cof) com ascendente em coaching-de-qualquer-coisa e lua em produtividade certamente ficarão incomodadas com a empolgação da Copa do Mundo.

Críticas ferozes vão acontecer. Normalmente apontando problemas sociais que nunca se importaram e fazendo umas comparações que não fazem sentido nenhum, do tipo, “enquanto você torce pro Brasil um japonês está estudando pro próximo concurso público federal”.

A cor dessa gente é roupa íntima bege. O amuleto da sorte é fazer amor de meia xadrez. O inferno astral delas é só a euforia alheia mesmo.

A estes fiscais do entretenimento alheio apenas diga: ”o Neymar que habita em mim saúda o Grinch que habita em você: ”Neymastê!”.

Boa Copa do Mundo a todos!

FBL-WC-2014-BRA-MACUMBA

foto: Conmebol

Luiz

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Uma hora a ressaca dá passagem à euforia

Talvez o aparente desânimo do brasileiro com a Copa do Mundo da Rússia seja só uma profunda ressaca pelo mundial anterior ter sido aqui em nossa terra, tão pertinho da gente, e o atual estar sendo em um país tão-tão distante.

Apenas. Porque, aos poucos, percebo que este desânimo começa a se dissipar no ar conforme a estreia da Seleção Brasileira se aproxima.

Uma pintura numa fachada aqui, umas fitas verdes e amarelas numa ruela acolá nos dão a pista de que poucos, ao soprar do apito, resistirão em torcer para que os comandados de Tite tragam essa taça para o futebol brasileiro mais uma vez.

E lá vamos nós: ”a taça do mundo é nossa…” etc.

Rua 3 do bairro Alvorada 1, Zona Centro-Oeste de Manaus (Amazonas): os custos dos moradores pra tornar a rua uma atração turística na época da Copa chegam a aproximadamente R$ 150 mil

Luiz

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Do virtual ao real é um tapa (ou dois, ou mais)

cartum: Guilherme Bandeira

Um dos ”monstrengos” que a polarização política criou foi essa prática estúpida (e infantil) de ir a uma manifestação provocar militantes ou de se dirigir a pessoas públicas que pensam diferente com o intuito de constrangê-las: o que só abre espaço pra agressões físicas, o que vem ocorrendo com certa frequência.

(Aliás, ninguém tem sangue de barata. Portanto, ao optar por abordagens constrangedoras por aí, assuma o risco ao invés de ficar de ”mimimi” depois).

O objetivo maior de quem se presta a esse papel de ”kamikaze ideológico” talvez seja ”provar” que um dos lados dessa polarização é violento e desequilibrado, mas apurando bem cada caso você percebe que o sujeito só passa atestado de imbecilidade mesmo (como foi o caso recente envolvendo o presidenciável Ciro Gomes e um youtuber-caça-views, pesquise caso tenha interesse em saber mais sobre).

Outra: pedir pra tirar foto com um político de ideologia diferente e gritar o nome de outro político é tão ”dãããããããã!”. E quando o tal candidato ”homenageado” ajuda a repercutir esse tipo de conteúdo só evidencia ainda mais o estado de estupidez em que se encontra o debate político atual.

O fato, meus queridos três leitores, é que já descemos à barbárie há muito tempo. As pessoas estão deixando de trocar xingamentos nas redes sociais pra descerem o braço uns nos outros na vida real.

Imagine quando a corrida presidencial começar pra valer…

(parabéns aos envolvidos).

Luiz

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