Do virtual ao real é um tapa (ou dois, ou mais)

cartum: Guilherme Bandeira

Um dos ”monstrengos” que a polarização política criou foi essa prática estúpida (e infantil) de ir a uma manifestação provocar militantes ou de se dirigir a pessoas públicas que pensam diferente com o intuito de constrangê-las: o que só abre espaço pra agressões físicas, o que vem ocorrendo com certa frequência.

(Aliás, ninguém tem sangue de barata. Portanto, ao optar por abordagens constrangedoras por aí, assuma o risco ao invés de ficar de ”mimimi” depois).

O objetivo maior de quem se presta a esse papel de ”kamikaze ideológico” talvez seja ”provar” que um dos lados dessa polarização é violento e desequilibrado, mas apurando bem cada caso você percebe que o sujeito só passa atestado de imbecilidade mesmo (como foi o caso recente envolvendo o presidenciável Ciro Gomes e um youtuber-caça-views, pesquise caso tenha interesse em saber mais sobre).

Outra: pedir pra tirar foto com um político de ideologia diferente e gritar o nome de outro político é tão ”dãããããããã!”. E quando o tal candidato ”homenageado” ajuda a repercutir esse tipo de conteúdo só evidencia ainda mais o estado de estupidez em que se encontra o debate político atual.

O fato, meus queridos três leitores, é que já descemos à barbárie há muito tempo. As pessoas estão deixando de trocar xingamentos nas redes sociais pra descerem o braço uns nos outros na vida real.

Imagine quando a corrida presidencial começar pra valer…

(parabéns aos envolvidos).

Luiz

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O clínico, o antibiótico e a guitarra

O meu clínico geral (que chique!) me atendeu durante trinta minutos. Cravado. Em quinze me falou da paixão dele por tocar guitarra e pela medicina; noutros quinze ouviu o meu problema e me receitou uns antibióticos. O papo foi tão bom que eu até esqueci das dores.

“Sabe, Luiz, na vida a gente tem que fazer escolhas por vezes desagradáveis. Aos 19 enquanto meus amigos estavam na praia [ele é carioca] curtindo um barato eu estava no hospital vendo gente mutilada… [pausa pra rabiscar a receita] por isso todo mundo precisa de um escape, senão a gente surta; o meu é tocar guitarra”.

Voltando um pouco no tempo, lembrei que ao entrar na sala ele assistia a um desses vídeos tutoriais de guitarra no Youtube em que um carinha tocava uma do Guns N’ Roses. “Pode deixar aí, doutor”, eu disse, e ele, ”esse cara está tocando uma nota acima da original”.

O papo clareou tudo, o vídeo e a observação técnica.

Antes de me entregar a receita e o atestado deu aquela recomendação: “ah, e sem cervejinhas nesse fim de semana, viu… vamos resolver logo esse seu problema. Tens uma vida inteira pra isso”.

Ao notar o meu breve desapontamento, arrematou, ”se você tivesse apenas um dia de vida eu mesmo encheria a cara contigo…”. Rimos.

Se toda consulta médica tivesse essa leveza toda acho que eu seria um pouco mais hipocondríaco.

Luiz

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As soníferas contradições dos netos de Woodstock

Ilustração: ANDRZEJ KRAUZE

Uma pessoa que cansa a alma é aquela que tem medo de amar. Aquela que gosta, mas se reprime, recua, se priva, se autossabota; que projeta suas decepções passadas, injustamente, em alguém que muitas vezes se aproxima só querendo o bem, e, assim, não se permite viver uma nova história.

Gente que sofre por antecipação pelas possíveis perturbações do amor, que vive a ”demonizar” relacionamentos, e corre quando a coisa está ficando séria, e inventa mil obstáculos pra não se aprofundar com ninguém, contudo, no íntimo sofre pelas próprias autossabotagens.

Gente que quer viver as delícias de uma companhia, mas não quer ter problema nenhum, embora esqueça que pra se relacionar com gente (seja na amizade ou na afetividade) há sempre uma turbulência de vez em quando – não sempre, claro (não quer isso? Se relacione só com bonecos de plástico, ou vire uma planta, meu amigo!).

Essa gente já topei aos montes nas redes sociais e na vida real. Posam de ”pós-modernos”, solteiros convictos ou desapegados, que na ânsia de fugir de prováveis sofrimentos (quiçá relacionamentos abusivos) arrancam ferozmente o joio com o trigo, e nessa vão mutilando severamente a própria alma pra manter essa aparência de inatingíveis, num fanatismo só similar aos fariseus do nosso tempo.

Depois eles mesmos vão para as redes sociais chorar a própria solidão, escrevem que ninguém os quer, que nada dá certo pra eles, que relacionamento é uma invenção opressora da sociedade patriarcal e outras ”teses” exibidas como um falso troféu de superioridade em relação aos meros mortais que encaram os ônus e desfrutam os bônus de um relacionamento, ocultando (ou pelo menos tentando) de todos e de si mesmo que o extremismo a qual se apegam é a verdadeira causa da sua própria miséria.

Dá sono.

Luiz

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De repente algumas cicatrizes pra contar

Talvez começar uma crônica natalícia comparando a passagem do tempo a uma estrada trilhada não seja lá uma das entradas mais originais. Versar a respeito de cicatrizes enquanto experiências também não, admito.

Ah, tampouco me interessa a originalidade a essa altura! Só quero escrever, e que nessa data, em que completo mais um ano de vida, eu pudesse, de certa forma, dividir um pouco das cicatrizes que acumulei no meu ser ao longo dos anos. Não todas, porque seria um texto longuíssimo. Algumas.

Cicatrizes, todos já devem saber, resultam da travessura, da distração ou das puras vivências. As primeiras são mais comuns no corpo da infância. Tenho algumas. Se falassem contariam boas histórias.

Já as cicatrizes da experiência, pelo contrário, ficam n´alma. Não posso enxergá-las, apenas rememorar. Nem todas doeram tanto assim, é verdade, mas outras, como diz aquela música da Kell Smith (ouçam), foram mais doloridas que um joelho ralado.

Não há melhor época para revisitá-las que um aniversário. Farei isto. Pode vir comigo se quiser.

À vontade:

1 – [ninguém merece mais amor do que nós mesmos podemos nos oferecer. porque a partir disso construímos a nossa autoestima, a nossa força e a nossa determinação]

2 – [amigos são muito importantes. contudo, o primordial não é a quantidade e sim a qualidade deles. a gente reconhece os de verdade quando estão ao nosso lado quando precisamos; se sabemos que podemos contar nossas inseguranças e sonhos sem medo de sermos julgados e se temos a certeza de que ali existe uma conexão verdadeira – e não se subestime: a gente sabe quando há]

3 – [os nossos ciclos de amigos se renovam de tempos em tempos. gente que dividia uma bisnaguinha com requeijão contigo há quatro anos atrás hoje pode não passar de um completo estranho. acontece. as pessoas mudam, tomam caminhos diferentes, e tá tudo bem. no entanto, alguns amigos ficam pra sempre, apesar do tempo e da distância. o meu amigo mais antigo, por exemplo, eu não encontro pessoalmente há uns três anos, mas se eu visse hoje bateríamos um animado papo sobre cinema, seriados de comédia e literatura fantástica. ele posaria de sisudo, mas eu o faria rir feito uma hiena engasgada, porque a gente conhece muito bem os causos um do outro. natural pois nossa amizade completou 20 anos nesse 2017]

4 – [então, na medida em que o tempo passa, a gente percebe que as pessoas, em algumas situações, falham conosco. que até a nossa família também comete erros; que nossos amigos nos deixam na mão, e que nossos parceiros podem não nos oferecer aquilo que precisamos em dado momento. mas aí vem um fato importante: nós também podemos falhar miseravelmente com nossos amigos, familiares e companheiros. saber pedir perdão e perdoar é o segredo da saúde das relações pessoais]

5 – [a nossa vida ganha muito mais força quando a gente se situa como o pilar da nossa própria existência. diga a si mesmo, “eu sou importante, eu mereço ser feliz, eu mereço ser respeitado e eu amo a mim mesmo”. diga em voz alta se necessário, mas certifique-se de que não há ninguém observando. sei lá, você pode não estar preparado para passar um falso atestado de loucura]

6 – [pode até demorar, mas sempre receberemos na medida exata do que oferecemos. nada mais, nada menos do que isso]

7 – [decidir ser feliz é, muitas vezes, um ato de valentia. pois vozes contrárias sempre se levantam. mudar de emprego, viajar sozinho, começar um relacionamento, enfim, de decisões mais cotidianas às mais importantes, e que nos traz um certo contentamento, todas elas necessitam da nossa voz firme pra sair do campos das ideias. às vezes a felicidade é construída com as luzes apagadas]

8 – [confira sempre o troco do pão. e não despreze as moedas. guarde-as numa caixinha ou cofre e verás surpreso as pequenas fortunas que se pode acumular]

9 – [coma um chocotone/panetone antes do dia de natal. ou um ovo de páscoa antes do domingo de páscoa. ou coma a ceia de ano novo antes da meia noite. tem certas regrinhas que nos ensinaram que, peneiradas em boa reflexão, só atrapalham o apetite. isso pode valer a outros aspectos da vida, mas vai ter que descobrir isso sozinho]

10 – [é bom, ás vezes, não se levar tão a sério. atrai uma leveza extraordinária]

11 – [a gente planeja, planeja, planeja, porém nem tudo pode sair conforme o roteiro que bolamos. aprender a lidar com as imprevisibilidades da vida é um aprendizado em movimento. na dúvida ande sempre com um guarda-chuva]

12 – [ah, se a gente pudesse ter um pouco mais de paciência e aguardar o tempo passar mais um pouco para só então manifestar nossas impressões sobre certos acontecimentos. evitaríamos tantas conclusões precipitadas e seríamos muito mais gratos. de qualquer forma, está de bom tamanho xingar em alguns casos. vai que esse nó na garganta se transforma em algo pior… toc-toc-toc!]

13 – [se colássemos cada situação que chamamos de desastre com o rótulo ”isso vai importar daqui a cinco anos?” ficaríamos bem surpresos. hoje acho muita graça das vezes em que fiquei de recuperação em matemática. embora na época quisesse estar morto por causa desse lance de adiar as férias]

14 – [faça as pazes com o passado para não estragar o presente]

15 – [aquele ex-namorado que parecia ser tão legal o tempo pode provar que não passava de um completo imbecil. normal ter um pouco de raiva de si mesmo quando faz esse tipo de descoberta. o ex pode melhorar como pessoa? claro que pode, mas não somos obrigados a esperar ele deixar de ser imbecil, se é que um dia vai deixar de ser. o que não é problema nosso, afinal, tem tanta gente bacana e mais descomplicada por aí]

16 – [não aceite migalhas afetivas. nunca! never! se não for pra arrotar de amor nem caia de boca]

17 – [tomar a iniciativa pode não ser muito confortável, mas, vai por mim, rende boas experiências de vida. é melhor engolir o orgulho que cuspir grandes oportunidades]

18 – [atente bastante às indicações musicais dos amigos. as grandes reviravoltas em nossas playlists vem de um despretensioso comentário do tipo, ”essa semana estava ouvindo um rapper belga e…”, opa!]

19 – [elogie. incentive. encoraje. assim de repente, sem mais nem menos. nunca sabemos em que pé está a realidade interior de alguém. pode ser uma cura]

20 – [aos poucos aquele ensinamento milenar de que o segredo de viver bem está no equilíbrio vai se instalando na alma. tudo em excesso faz mal, até beber água. não espere ter um coma alcoólico pra aprender de uma vez por todas essa valiosa lição de nossos egrégios avós]

21 – [ser muito mais flexível e desprendido de nossos padrões e caixinhas é uma das ousadias mais difíceis de pôr em prática. estar aberto a mudanças parece assustador de início. e é. não há nada mais poderoso do que as nossas próprias crenças ao mesmo tempo que não há nada mais desafiador do que a superação de nossas crenças por vezes limitantes]

22 – [não temos controle. é bom chegar nessa fase da vida mais solto, flexível e livre de tantas “verdades próprias”. é bom chegar aqui lidando tranquilamente com a transitoriedade das coisas, das pessoas e das razões que, quer queira quer não, sempre foram dinâmicas, nós é que teimamos em sermos rígidos]

23 – [ninguém muda ninguém. mas há certos encontros cujas conexões (e disposição) são tão fortes que as pessoas naturalmente se transformam. isso é tão bom]

24 – [sim, aprendi que é possível ser ou estar feliz sozinho e ser ou estar feliz acompanhado. na prática pouco interessa aqueles textos e vídeos motivacionais que querem justificar que todo mundo é obrigado a ter alguém ou que você não precisa de ninguém]

25 – [o hábito de exercícios físicos e uma alimentação equilibrada (sem deixar de comer nada do que eu gosto) começou pra valer há três anos atrás e, pelo visto, levarei como parte da minha vida por muitos anos. só me trouxe satisfação]

26 – [o caminho mais sustentável para se tornar uma pessoa segura com o passar dos anos é enfrentando um pouco dos medos. um de cada vez. aos poucos. eu enfrentei um nesse ano que finda. fiquei completamente sozinho em outro país onde eu mal sabia a língua nativa. o saldo é que vivi experiências maravilhosas, passei alguns apertos e acabei adotando uma nova língua]

27 – [viajar é um dos melhores investimentos da vida. ao invés de ficar acumulando ranços, guarde dinheiro pra sair da sua zona cotidiana. ninguém vai tirar isso de ti]

28 – [faça algo por alguém. um prato. uma limonada. uma carta. um desenho. sei lá. apenas desfrute da ternura que esse gesto traz]

29 – [sexo não é esse diabo todo que pintam por aí. é muito bom e faz bem. faça com os devidos cuidados]

30 – [amar sem medo é do tipo de aprendizado que é construído todos os dias. costumamos ser tão pedantes quando queremos ter convicções sobre o amor que esquecemos de largar os remos e deixar que as ondas nos ensinem que as delícias estão na leveza, e é nas espontaneidades que o amor costuma dar as caras]

… é isso, e que venham muitos mais cicatrizes.

Obrigado!

Luiz 🎂🎂🎂

 

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É até bom quando há honestidade na canalhice

Uma das frases mais famosas da filósofa norte-americana Angela Davis foi publicada pelo ator Bruno Gagliasso em sua rede social. Ele é pai de uma menina negra nascida em Malawi, na África, e que foi alvo de ofensa racista na internet.

O bom da socialite racista é que ela é, usando um termo cunhado pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, uma canalha honesta. Pois pelo menos ela não se esconde por trás de termos hipócritas, tipo ”vitimismo”, ”mimimi” e afins, dita por certas pessoas na internet a fim de desqualificar denúncias de racismo (ou qualquer outra forma de preconceito e discriminação). Pelo contrário, ela é do tipo que cospe, vomita, regurgita o seu ódio a quem quer ver e ouvir.

Canalhas honestos, como a socialite racista, facilitam o trabalho da lei e ao mesmo tempo nos ajudam a identificar logo as almas medíocres que habitam este planeta. Uma senhora ”utilidade pública”.

O vídeo em que ela ofende a filha dos atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank é vil, de causar indignação em qualquer um que tenha alguma consistência no ser, de nos jogar na face como o ser humano pode ser mau (em seu significado mais bruto). Nem vale a pena reproduzir e, dessa forma, amplificar ainda mais a sua fala abjeta.

O crime da socialite racista é tão escancarado que só mesmo quem partilha da mesma mediocridade que ela é capaz de passar o paninho ou dizer que há ”vitimismo”, ”mimimi” ou o diabo-que-o-valha na denúncia mais indignação coletiva nesse caso.

Filho de famoso ou não, de qualquer cor, sexo ou religião, toda criança merece ser tratada com respeito e dignidade. Nesse caso sim vale aquela grita, ”deixem as nossas crianças em paz”.

Bye, bye, planeta terra!

Luiz

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Novembro doce

O mês de novembro é o interlúdio entre a segunda metade do ano e o espanto do fim. Os panetones já estão nas prateleiras dos supermercados (quiçá farmácias) a preços exorbitantes. Algumas casas já se adiantam nos enfeites e piscas-piscas. O corre-corre fica até mais medonho.

É o mês que nos joga na cara que o ano voou e que ainda tem muita resolução pendente no fundo da gaveta, e que pelo visto terão que ser reescritas em papel novo (se ainda és adepto dos pedidos analógicos, o que humildemente duvido muito).

Os dias de novembro ruflam: dos finados à proclamação à consciência à véspera do meu aniversário. Nem dá pra piscar! No calendário há apenas duas folhinhas de resto, e depois fim, e recomeço.

Novembro é o mês da garganta inflamada: culpa do indeciso clima amazônico entre temporais e gotas de sol escaldante.

Novembro é pra dizer: ”sobrevivi. avante!”.

Luiz

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A inclusão social do surdo pode (e deve) começar na escola

A pessoa surda tem o direito de exercer plenamente a sua cidadania como qualquer pessoa ouvinte (como são chamados, na cultura surda, aqueles que ouvem). Antes disso, é preciso que os ouvintes parem de enxergar os surdos como incapazes. A educação, sem dúvidas, é um aliado e tanto nessa empreitada.

A dita ”superioridade ouvinte” se dá através de ideias cristalizadas que às vezes, sem notar, temos a respeito dos surdos, como a de que eles são incapazes de fazer atividades cotidianas, tipo, votar, estudar ou até mesmo passear no shopping sozinho.

No entanto, se olharmos bem, a única diferença entre alguém que ouve e não ouve é a maneira de enxergar o mundo à sua volta. O ouvinte percebe o mundo através da audição e da oralidade; o surdo através dos olhos, das mãos e da linguagem corporal.

Só mesmo por meio da conscientização (um trabalho árduo, porém necessário) os ouvintes aos poucos passarão a enxergar os surdos não como “incompletos”, mas, como sujeitos capazes, apenas diferentes.

Cultura surda

Além disso, não podemos ignorar o fato de que os surdos têm uma cultura própria, ou seja, um conjunto de artefatos que ajudam a construir a identidade de um sujeito surdo. A língua de sinais é um exemplo de artefato cultural, pois é por meio dela que os surdos se comunicam com os seus pares ou com os ouvintes que saibam se comunicar em sinais.

Há vários artefatos culturais, mas quero destacar um muito interessante: a literatura surda. Através da literatura em língua de sinais nos seus mais variados gêneros (poesia, história dos surdos, piadas, literatura infantil, contos, romances, lendas e outras manifestações culturais) o autor surdo se expressa artisticamente.

Grande parte dessas narrativas em língua de sinais tem sido gravadas em vídeos, CDs e DVDs. Clássicos da literatura mundial ganham uma releitura peculiar, como “Cinderela Surda”, de Carolina Hessel, Fabiano Rosa e Lodenir Karnopp e, assim, é dado às crianças surdas a oportunidade de se identificarem com uma narrativa popular entre os ouvintes.

Capa do livro ”Cinderela Surda”: no lugar do sapato de cristal, Cinderela perde uma das luvas, uma referência às mãos, amplamente utilizadas pelos surdos do mundo inteiro para se comunicar.

Além de narrativas originais e releituras, vale destacar também a adaptação de obras literárias para a linguagem de sinais, como as obras de Machado de Assis.

Orgulho surdo

Mesmo assim, as mudanças começam entre os próprios surdos. Concordo com McCleary (2003) quando ele diz que o primeiro passo para as mudanças acontecerem será quando o próprio surdo enfim se libertar do estigma de sentir-se “um peixe fora d’água” e passar a ter orgulho de ser o que é. E orgulho nesse contexto está longe de ser arrogância ou mesmo um tipo de distanciamento dos demais indivíduos (os ouvintes), mas de um ato de afirmação pessoal e de autoestima.

É preciso redefinir o que é ser surdo, e isso deve ser construído pela própria comunidade surda: os surdos se orgulhando de ser o que são é um passo importante para que eles mesmos não se coloquem à margem da sociedade.

Avanços: poucos, mas significativos

Aos poucos os surdos têm recebido atenção da mídia, dos produtos culturais (filmes com legendas para surdos, por exemplo), do mercado de trabalho, das igrejas, das universidades, das escolas etc. De forma tímida, é verdade, mas significativa se compararmos com décadas passadas.

Os preconceitos ainda existem, é claro. Surdos ainda sofrem constrangimentos de ouvintes no cotidiano quando olham para eles como “coitadinhos”. Porém, a publicação de livros a respeito do assunto, a realização de palestras sobre surdez nas escolas e nas universidades já é um bom começo para que os ouvintes passem a enxergá-los enquanto membros da sociedade, com os mesmos direitos e deveres.

Também, as diversas palestras sobre a educação dos surdos e a disciplina de Língua Brasileira de Sinais (Libras) ser incluída na grade curricular obrigatória de muitos cursos de licenciatura, ou pelo menos ser oferecida como disciplina optativa, tem feito com que os futuros professores olhem os surdos com outros olhos. Não mais com espanto, mas pelo menos com mais respeito e inclusão.

Na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), por exemplo, onde tive a oportunidade de ter um contato direto e constante com a língua de sinais e com informações gerais a respeito dos surdos, isso é uma realidade já há algum tempo.

Scantbelruy (2010) diz, em apostila desenvolvida para servir de apoio didático-pedagógico nas aulas, que a Ufam começou a ofertar a disciplina ”Libras” de forma regular em 2010 após concurso e contratação de seis professores efetivos, sendo cinco em Manaus, no Departamento de Língua e Literatura Portuguesa e um na Unidade de Itacoatiara.

Escola inclusiva

Não tenho dúvidas de que a escola e a universidade são espaços privilegiados para a desmistificação da surdez, haja vista que é muito comum os alunos surdos estarem matriculados na mesma classe que alunos ouvintes; e para que eles não se sintam prejudicados no seu aprendizado, ou mesmo isolados dos outros colegas de classe, é necessário que o professor e até o corpo técnico da escola tenha pelo menos um conhecimento básico de Libras para atender esses alunos da melhor forma possível.

E seria deveras interessante também se Libras fosse ofertada nas escolas (nem se fosse em formato de oficina), pois assim os alunos ouvintes teriam a oportunidade de um contato com a língua de sinais e consequentemente poderiam se comunicar melhor, nem que fosse de uma forma básica, com seus colegas surdos.

É claro, sejamos realistas, no geral o sistema educacional brasileiro não está pronto para receber um aluno surdo, e dificuldades e resistências diante do diferente sempre existirão, mas a preparação dos futuros educadores já é um bom começo para que as mudanças comecem a acontecer.

Até porque não há espaço melhor para promover a inclusão social do que o ambiente escolar.

”Obrigado!”

Referências

McCLEARY, Leland. (2003) O Orgulho de ser surdo. In: ENCONTRO PAULISTA ENTRE INTÉRPRETES E SURDOS, 1, (17 de maio) 2003, São Paulo: FENEIS- SP [Local: Faculdade Sant’Anna].

SCANTBELRUY, Iranvith Cavalcante. Libras: Língua Brasileira de Sinais. [S.l.: s. n.]. [entre 2001 e 2010]

*Esse artigo foi fruto de minhas leituras e reflexões durante o curso optativo ”Língua Brasileira de Sinais B”, na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ministrado pelo professor Iranvith Scantbelruy, um ouvinte apaixonado por libras.

Luiz

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