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Manaus morena

O majestoso Teatro Amazonas sob outro ângulo (Manaus – AM)

Que tal misturar o poema “Manaus Morena”, do poeta Celdo Braga, com alguns causos dessa cidade encravada no coração da Amazônia, que une o cinza do urbano e o verde das florestas de forma tão… singular? Vamos tentar.

Manaus é menina de todos os olhos,
cabocla risonha da beira do rio,
morena vistosa, coberta de encantos
– na dança da vida está sempre no cio.

Toda turma tem um desastrado, dono das risadas de todos. Na minha turma, na infância vivida no bairro da Redenção, parte centro-oeste de Manaus, essa alcunha pertencia ao Dioquinha, filho do dono de uma venda, onde ele trabalhava como atendente antes de ser liberado pra brincar com a gente todos os fins de tarde. Numa dessas, esperávamos o Dioquinha sentados na sarjeta quando duas garotas de andar atrevido entraram naquela venda minúscula – que vendia de tudo, de mel de abelha a cachaça de quinta categoria.

Dioquinha ficou visivelmente embasbacado com aquelas duas cunhãs da periferia. O encanto durou até uma delas, talvez a mais garbosa, perguntar:

– Tem absorvente?

Dioquinha, ainda hipnotizado, nem notou o ruído:

-Tem sim. Tem de morango, de doce de leite, de cupuaçu, de chocolate…

Virou anedota o pobre do Dioquinha.

Está sempre desperta e de braços abertos
-é gente que chega de todo lugar.
Manaus é tão boa pra gente viver,
de dia e de noite pra gente sonhar.

Certa vez apresentei o tacacá a um amigo gaúcho. Ainda pensei em prometer que, em troca, eu provaria do chimarrão, mas a promessa ficou só comigo – graças a Deus, pois até hoje eu provavelmente ainda ficaria em dívida. Não que eu não tenha curiosidade de experimentar a famosa bebida do sul do Brasil. É mais pela raridade em encontrar esse amigo gaúcho (e, assim, poder pagar a promessa), que apesar de morar em Manaus há muito tempo, ainda conserva consigo aquele sotaque inconfundível do Rio Grande do Sul (Bá!). Uma figura.

Pois bem, aos iniciantes, o tacacá é uma sopa feita com a goma da mandioca, camarões e tucupi (um caldo amarelado). Pode ser temperado com alho, sal e pimenta, a que se adiciona o jambu, uma erva capaz de provocar a sensação de formigamento na boca. Deve ser servido quente, na hora, numa cuia – utensílio feito da fruta de uma planta chamada cuieira.

Todos esses passos foram seguidos à risca para a experiência do amigo gaúcho ser completa, que por sua vez ficou impossibilitado de me contar o que achou por motivos de jambu.

Às vezes olhando Manaus lá de cima,
à luz do neon ou à luz do luar,
parece uma nave pousada na selva,
parece um navio no meio do mar.

Há quem ainda pense que Manaus é só mato, bicho e índio. É e não é. Daí o encanto que causa. Mas também temos engarrafamentos, poluição de todos os tipos, violência urbana e vizinhos bisbilhoteiros. Não deixa nada a desejar a outras selvas de pedra desse mundo. Com uma ressalva: é perfeitamente normal você testemunhar, como eu testemunhei numa manhã de sábado a caminho do ponto de ônibus, três araras vermelhas selvagens cortando o céu à procura de abrigo. Isso num ambiente totalmente urbanizado.

Se as araras fugiam da intervenção diabólica do homem na natureza (o que é bem provável) ou se só passeavam mesmo, não sei. Fiquei com esse momento poético na memória. Um momento que não gerou uma postagem em nenhuma rede social. Achei melhor apreciá-lo ao invés de sacar o celular do bolso.

Foi melhor assim. Viver momentos como esse ao invés de registrá-lo, em nossos dias, é um baita exercício de disciplina, diga-se de passagem.

Vestida de seda ou vestida de chita,
Manaus é bonita, vaidosa cunhã.
Tem lá seus defeitos, enfim é humana,
cidade do hoje e do meu amanhã.

Essa nem os pombos da Praça da Saudade discordarão: Manaus é que nem o samba, quem não gosta dela bom sujeito não é.

Luiz

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Arquivado em agora?!, crônica, poesia