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Mestres desconhecidos em uma causa secreta

China, julho de 2014

Querido irmão Luiz,

Enquanto lhe escrevo, estou me pé às margens do rio Tumen, na China. Do outro lado do rio, avisto as mesmas montanhas que eles veem todos os dias. Observo as casas em que moram. Posso até vê-los caminhar. Estou a poucos metros de distância do país onde meus irmãos mais sofrem por causa de Cristo. Trata-se da Coreia do Norte.

Em menos de um minuto, eu poderia alcançar o rio e, depois de algumas braçadas, estaria na margem de lá, com eles. Isto é, se eu não fosse impedido por esta cerca de arame farpado de dois metros de altura e mil quilômetros de extensão.

Mas sei que há cristãos norte-coreanos também do lado de cá, escondidos entre a vegetação que ladeia o rio. Parte o meu coração o fato de não poder estar com eles, por questões de segurança que colocariam em risco a minha vida e também a deles – muito mais a deles do que a minha. Cada um de nós seria deportado para seu país natal. Eu seguiria para casa; eles, para o campo de concentração.

Portanto, para ajudá-los, é melhor que eu fique à distância, fazendo meu trabalho aqui, nos bastidores. Aprendi que o serviço à Igreja Perseguida requer pessoas que desejam servir sem precisar de reconhecimento pelo que fazem.

Sem cartões de visita

O pastor Yun* é uma dessas pessoas. Esse chinês lidera uma igreja que mantém as portas abertas para refugiados norte-coreanos, meio que ignorando as severas punições que enfrentará se for descoberto. É necessário manter segredo de sua operação clandestina porque há espiões em todo lugar, até mesmo nos cultos de domingo. Por isso, muitos membros de sua pequena congregação nem sabem que frequentam uma igreja que ajuda refugiados ilegais. Ele recebe, por mês, cerca de dez refugiados, a quem repassa o auxílio financeiro e o treinamento bíblico que lhe damos, assumindo, sozinho, todo o risco da operação.

Outro cristão chinês que serve refugiados norte-coreanos e sabe muito bem dos perigos de ser descoberto é Cho*. Ele conta que faz parte de uma rede secreta de ajuda, mas que não conhece nenhum detalhe do trabalho das outras pessoas, nem o nome delas (que também não sabem o seu).

Por que correr tantos riscos? Risco de prisão, de morte, de perder pessoas amadas por causa de um trabalho desgastante, às vezes solitário, e sempre confidencial. Nada de criar cartões de visitas nem criar contatos profissionais. Quanto menos se souber, melhor.

Tenho uma colega de trabalho que me respondeu a essa pergunta de maneira bastante simples: “Quando comecei esse ministério com as refugiadas norte-coreanas aqui na China, eu sabia que seria difícil. E realmente é. Oro e jejuo antes de cada encontro. Mas os frutos são inacreditáveis. As recém-chegadas abraçam a fé em Cristo muito rapidamente. Sabe, parece que elas só precisam ouvir um apelo para entregar a vida a Jesus. Elas são preparadas pelo próprio Deus”.

O trabalho em si, é, muitas vezes, animador. Cho diz que as pessoas vêm para a China em busca de comida, é claro, mas há convertidos que voltam apenas para aprender mais da Bíblia. Mesmo sabendo que metade dos refugiados é capturado no caminho de ida ou de volta, esses irmãos norte-coreanos se arriscam porque anseiam por receber ensinos cristãos a fim de compartilhá-los em sua terra natal.

A dedicação desses cristãos é, aliás, a maior fonte de encorajamento de quem dá, literalmente, a vida para servi-los. Outro colega, que trabalha há anos em missões entre norte-coreanos, fala que, se precisasse descrever esses irmãos com apenas uma palavra, ele diria que são “fiéis”. Ele explica: “Nem todos têm a Bíblia. Mas graças a seus mestres, eles realmente conhecem a Palavra de Deus e praticam seus ensinamentos. Eu soube que, no auge da fome no país, um desses líderes sentiu-se chamado a reintroduzir o conceito de “arroz sagrado”. Trata-se de uma prática segundo a qual se separa uma porção do arroz para o reino de Deus. Desde então, os cristãos desse grupo não consomem toda a comida que lhes entregamos. Eles guardam parte do alimento para dar a pessoas que se encontram em condições piores. Isso lhes dá a oportunidade de estabelecer a confiança e, mais tarde, compartilhar o evangelho com elas”.

Ilustres desconhecidos

Já é uma grande bênção de Deus o fato de eu poder servi-lo ao lado de pessoas como Yun, Cho e os próprios cristãos norte-coreanos. Mas ele vai além, sendo extremamente gracioso, abençoando com generosidade nossas iniciativas. Apenas no primeiro trimestre deste ano, para lhe dar um exemplo, nossos fiéis colegas discipularam 70 refugiados que, por sua vez, passaram seu conhecimento a cerca de 180 familiares quando voltaram para casa, na Coreia do Norte.

Além do treinamento bíblico, que se mostra a necessidade mais premente da Igreja norte-coreana, também distribuímos, com a ajuda de nossa rede de parceiros na China, alimentos, remédios, Bíblias e livros. Outro projeto magnífico que Deus nos tem dado condições de realizar é a transmissão de rádio com conteúdo bíblico. Ao longo dos anos, “contrabandeamos” cerca de 35 mil rádios. Não temos certeza de quantas pessoas sintonizam nossa estação, mas os líderes que conhecemos nos afirmam que muitos cristãos são bastante encorajados com as transmissões.

Também podemos abençoar os obreiros que tanto se dedicam a esse serviço com um encontro anual, no qual descansam e são revigorados por Deus e por outros irmãos para que assim prossigam em seu chamado.

(…)

Mais uma alma

Aqui, na fronteira entre China e Coreia do Norte, não posso deixar de me lembrar da cena final do filme “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg.  Depois de salvar a vida de mais de 1.000 judeus, Oskar Schindler ganhou um anel de ouro como sinal de reconhecimento por seus atos. Mas isso o levou às lágrimas: “Eu poderia ter feito mais! Poderia ter salvado mais uma alma!”, exclama, enquanto olha para os bens que tem em volta de si, dos quais poderia ter aberto mão, a fim de livrar mais um judeu da morte. Seu leal assistente, Ithzak Stern, lhe diz: “Olhe ao seu redor. Haverá gerações graças ao que você fez”.

Ás vezes, sinto o mesmo quando vejo quanto esses irmãos se doam para resgatar mais um norte-coreano. Como pessoa e como membro de um ministério, fiz tudo o que estava ao meu alcance para socorrer mais uma alma? Sim, entreguei alimentos, distribuí materiais cristãos e mais uma porção de coisas. Mas isso é tudo? E fiz a que preço? Parece-me tão pouco.

Devo me ater às palavras de Ithzak Stern: haverá gerações de cristãos norte-coreanos em decorrência do que Deus fez e fará através de nós. É isso que Ele promete em sua Palavra, e é isso que os cristãos norte-coreanos nos dizem. A mim e a você. (…).

Um grande abraço,

Jan Vermeer*
Colaborador de campo
Portas Abertas Internacional

*Nomes fictícios por questão de segurança

Fronteira entre Rússia, China e Coreia do Norte no rio Tumen. Por aí muitos norte-coreanos se arriscam para fugir da miséria. Na Coreia do Norte, cruzar a fronteira sem permissão é crime punível de três a quatro anos em campos de trabalho. Conspirar com alguém para chegar à Coreia do Sul é considerado uma traição. Os infratores são punidos com inanição, torturas e, muitas vezes, execução pública. Foto: Chien-Chi Chang

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Deus entre pesadelos e sequestradores

Queridos amigos,

Saudações da Igreja de Cristo na República Centro-Africana!

Encontramos alguns incidentes e situações na vida nos quais é muito fácil perceber a presença de Deus. Quando um amigo nos visita. Quando a chuva cai.

Outras situações, porém, nos levam a questionar “Onde está Deus?”. Onde ele está em meio à violência? Em meio à miséria? Em meio à dor?

Confesso que foi difícil encontrar Deus na República Centro-Africana. Talvez você não saiba onde fica esse pequeno país. Uma das nações mais pobres e subdesenvolvidas do mundo, a República Centro-Africana se tornou mais conhecida no último ano por conta do estado de caos e violência a que chegou, depois que o governo foi deposto num golpe e rebeldes tomaram conta das ruas.

Só para mencionar alguns fatos, a ONU estima que há cerca de 400 mil refugiados internos, enquanto 200 mil fugiram para países vizinhos. Os que ficaram estão expostos à falta de água e alimentos, e a doenças como malária e cólera.

Os cristãos se tornaram um dos principais alvos dos rebeldes que são, em sua maioria, muçulmanos. Há ainda, entre eles, mercenários que vêm do Sudão e Chade. Durante anos, os muçulmanos enfrentaram preconceito nesse país que era liderado por homens que se diziam cristãos. Havia uma boa relação entre o governo e líderes de igrejas. Com a queda do regime, os cristãos foram tidos como cúmplices das antigas autoridades e também responsáveis pelas injustiças sofridas.

Assim, um país cuja maior parte da população se declara cristã, e onde a Igreja tinha liberdade para se reunir, hoje é um dos 20 lugares mais perigosos do mundo para ser um seguidor de Jesus.

Pesadelos na cidade da paz

Fiz várias visitas a cristãos centro-africanos ao longo desse último ano. Como colaborador da Portas Abertas na África, eu procurava ver como poderíamos socorrer esses irmãos nesse momento de perseguição intensa que os pegou desprevenidos.

O testemunho de uma jovem que visitamos me marcou de maneira especial. Para proteger a identidade dela, vamos chamá-la de Suzane. Ela tem 16 anos e mora numa cidade cujo nome, em português, significa “Cidade da Paz”.

No dia 20 de agosto passado, rebeldes invadiram essa cidade. Suzane contou que eram muitos. Cercaram a área e se dividiram em grupos menores, invadindo uma casa após a outra.

“Assim que ouvimos o barulho de armas, corremos para nos abrigar em casa. Minha mãe e eu tentamos nos esconder na casa de um vizinho. Mas não adiantou. Eles entraram e nos pegaram. Um deles me estuprou. Outro homem estuprou a filha do vizinho. Minha mãe estava do meu lado, e viu tudo. Ela ficou completamente inerte, incapaz de fazer qualquer coisa”, reconta a jovem.

Além da dor física que a terrível experiência lhe causou, ficaram também algumas sequelas emocionais.

“Não consigo parar de pensar no que aconteceu. Tenho pesadelos. Meus avós e meus pais me dizem para não pensar mais nisso e orar. O que posso fazer? Deus sabe o que aconteceu. Deixo isso com ele. Cada vez que tenho um pesadelo, levanto e oro. Depois disso, consigo dormir de novo. Peço a Deus para impedir que o mesmo aconteça a outras pessoas. Peço que ele perdoe meus agressores pelo que fizeram comigo”.

As palavras de Suzane me chamaram a atenção para a verdade de Deus que estava lá. Ele sabe não só porque é um Deus onisciente. Ele sabe porque Ele estava lá. Porque Ele viu. Deus não escondeu os olhos, horrorizado, quando Suzane foi atacada. Tampouco deixou a casa quando aqueles homens perversos saíram, como se nada tivesse acontecido. Deus continuou lá com a sua filha.

A Bíblia nos garante que “os olhos do Senhor estão em toda parte, observando atentamente os maus e os bons” (Provérbios 15: 3). Se para o Deus soberano esse fato não passou despercebido, por que deveríamos ignorá-lo? Por que nós, humanos e cristãos, suscetíveis às mesmas crueldades que Suzane sofreu, poderíamos dar as costas à triste realidade que nossos irmãos centro-africanos têm de encarar? Por que não apresentar nossos ombros, olhos e corações como representação visível da presença de Deus naquele lugar, uma vez que somos o Corpo de Cristo?

“Nosso problema não é com Deus”

Com esse intuito, nós da Portas Abertas temos visitado e encorajado como podemos esses cristãos aqui da República Centro-Africana, bem como alguns que se refugiaram em países vizinhos. No começo de outubro passado, reunimos cerca de cem líderes de igrejas de todas as denominações possíveis em Bangui, capital do país, para uma conferência. Eles puderam compartilhar seus fardos e falar como todos esses eventos têm afetado suas igrejas. Essa conferência também foi uma oportunidade de refletirem, intercederem e se arrependerem diante do Deus, reconhecendo que a Igreja foi falha em muitos aspectos de seu testemunho. Tudo conduziu a momentos de arrependimento e súplicas a Deus em favor do país.

Nessa ocasião pudemos conhecer o pastor Noel, de 61 anos. Rebeldes invadiram sua casa e o levaram ao seu quartel-general, onde exigiram que lhe pagassem certa quantia para que fosse libertado com vida. Noel lhe disse que não tinha aquele valor, e ainda lhes censurou pelo sofrimento que estavam causando ao seu povo. “Vocês estão aqui comendo bem enquanto os outros não podem comer. Vocês acham que Deus está feliz com o que vocês estão fazendo?”.

“Deus continua sendo Deus, e não temos nada a ver com ele. Não estamos tratando com Deus, mas sim com você”, foi o que lhe responderam.

“Bom, eu sou um servo desse Deus. Você, general, acha que ele fica feliz em ver vocês me tratando assim?”. Como resposta, o general diminuiu o valor do resgate e deu a Noel uma semana para pagar.

O pastor Noel compartilhou que nos vinte anos em que serve a Deus, ele nunca passou por situações como essa. Desde que os rebeldes assumiram o país, até os muçulmanos com quem lidava estão agindo de maneira agressiva.

Ouça o clamor

Querido irmão, como você pode ver, há muito o que se fazer e a necessidade só tem aumentado. Não há indícios de que  a situação se estabilize. Aliás, nesta semana em que lhe escrevo, dois pastores foram mortos em um ataque em massa dos rebeldes e uma igreja em Bangui foi queimada.

Convido você a nos ajudar a provar que Deus está de fato na República Centro-Africana, pois seu Corpo está se movendo e se inclinando para atender os que sofrem.

(…) “Obrigado por estarem aqui conosco. Fomos realmente confortados com a presença da Portas Abertas. A Bíblia diz que temos que chorar com os que choram. Louvamos a Deus porque achamos que nosso choro não estava sendo ouvido pelo Corpo de Cristo. Mas agora sabemos que não é esse o caso”, disse o pastor Noel.

Deus ouviu o choro. Nós ouvimos. Você consegue escutá-lo?

Um grande abraço do seu irmão,

J. P., diretor regional de projetos na África (Portas Abertas Internacional)

PS.: ore por nossos colaboradores que viajam regularmente às regiões de risco no país. Que Deus os mantenha em segurança.

Foto: Pius Utomi Ekpei / AFP

Enquanto isso, na Nigéria, 220 meninas (estima-se que o número seja maior) foram sequestradas por militantes islâmicos no mês passado, escravizadas, vendidas, obrigadas a se casar e a se converterem à sua versão do islamismo. O ataque ocorreu em um internato na cidade de Chibok, no Estado de Borno, noroeste do país. O grupo terrorista Boko Haram, especialistas em matar “infiéis” e incendiar igrejas, assumiu a autoria dos ataques em um vídeo bizarro. Abubakar Shekau, líder do grupo, diz, rindo: “Só porque eu peguei algumas menininhas que estavam na escola, todo mundo fica fazendo barulho”. Uma das meninas que conseguiu escapar dos sequestradores relatou que as reféns mais jovens são vítimas de até 15 estupros por dia. O caso é muito grave, mas parte da imprensa tem tratado o episódio como se as garotas fossem ser libertadas sãs e salvas a qualquer momento mediante uma negociação amigável. Na foto, Seun Anikulapo Kuti, músico nigeriano, lidera um protesto que pedia ações mais efetivas para resgatar as meninas sequestradas. Foto: Pius Utomi Ekpei / AFP

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É hora de reconstruir

Cairo, outubro de 2013

Querido irmão em Cristo, a paz!

É provável que você ainda não me conheça. Chamo-me Samir, sou um cristão egípcio. Sou coordenador-voluntário de viagens (da ONG Portas Abertas) aqui do Egito, além de trabalhar como comunicador e correspondente internacional.

Minha sensação ao lhe escrever é como se eu tivesse acabado de passar por uma tempestade de areia. Aqui no Egito, nos meses mais quentes do ano, a variação de temperatura no deserto cria ventos de até 100km/h, que levantam nuvens de areia. Quando esses ventos atingem cidades como o Cairo, deixam o céu vermelho; e às vezes são tão fortes que é preciso se abrigar. Quando a tempestade passa, nunca sabemos o que vamos encontrar sob as pilhas de lixo que se formam nas ruas.

Creio que você sabe que o Egito tem vivido uma série de tempestades políticas e sociais nos últimos dois anos. Depois de 30 anos vivendo sob uma espécie de ditadura, os ventos dos primeiros protestos trouxeram boas expectativas. Elegeu-se um novo presidente, Mohamed Morsi, e nos enchemos de esperança de viver tempos de paz e liberdade.

Entulho e cinzas marcam o caminho da igreja egípcia: jovens se reúnem para orar em uma das igrejas destruídas na região de Mynia.

No entanto, logo sopraram ventos mais fortes de incerteza e medo. O governo se mostrava inclinado a fazer do islamismo a base da Constituição do país, como acontece no Irã. Uma nova tempestade de protestos se formou, e ela culminou na queda do presidente em 3 de julho deste ano.

Muitos extremistas islâmicos, que apoiam Morsi e seu partido, ficaram extremamente insatisfeitos com sua saída do governo. Por isso, encabeçaram uma série de manifestações que pipocaram em todo o Egito, levando a muitos conflitos com a polícia e o exército.

O céu escureceu mais uma vez. De que lado viria a tempestade.

Ventos de destruição

Esses dias de agosto foram os mais difíceis que já presenciei no Egito.

Partidários de Morsi, munidos com todos os tipos de armas – de metralhadoras a bombas – atacaram e destruíram igrejas, lojas e casas de cristãos. A violência foi não só uma forma de mostrar o domínio do islamismo sobre o país, mas também de punir os cristãos que se levantaram contra o ex-presidente e seu regime. Os conflitos foram tão severos que metade das províncias do país impôs o toque de recolher, que ainda está em vigor na maior parte do Egito.

O dia 14 de agosto foi o mais triste de todos. Lembro que telefonei para um amigo que vive no sul do país, onde existe uma grande concentração de extremistas islâmicos. Ele me contou que, em algumas vilas, os extremistas proibiram as mulheres cristãs de sair às ruas. Se eles encontrassem alguma, iriam matá-la. Em uma empresa, as funcionárias muçulmanas trouxeram véus para cobrir suas colegas cristãs a fim de levá-las para casa em segurança.

Algumas ações foram apenas para intimidar. Em 30 de agosto, dois mil manifestantes islâmicos percorreram as ruas de Delga, uma vila no sul do país. Eles estavam montados em cavalos ou burros, conduzindo cães ferozes para afugentar os transeuntes. Alguns traziam espadas nas mãos. Não houve conflitos, mas os 20 mil cristãos da cidade (dentro de uma população de 120 mil) certamente sentiram-se ameaçados.

O resultado dessa campanha de ódio foi extenso: 73 igrejas e monastérios, além de 22 anexos das igrejas (como orfanatos, seminários, livrarias) sofreram destruição total ou parcial. Além disso, 212 propriedades particulares de cristãos, como casas, lojas, hotéis, foram incendiadas. Sete irmãos foram mortos.

Ventos de esperança

No momento em que lhe escrevo, o pior já passou. Já podemos sair às ruas para avaliar os estragos desta última tempestade.

Varrendo as cinzas das igrejas, e reabrindo as portas dos comércios, os cristãos egípcios sabem que agora é hora de reconstruir.

Igrejas precisam de novo teto, novas paredes e novos bancos. Casas precisam de outras portas, janelas e mobília. Vidas precisam de consolo e esperança.

Mas será que nós, cristãos egípcios, teremos energia para fazer  isso tudo em amor? Conseguiremos perdoar nossos inimigos? Como ministraremos àqueles que sofreram tamanha perda?

As perguntas são desafiadoras. Entretanto, nos alegra saber que não precisaremos respondê-las sozinhos. Podemos contar com a direção de Deus e um milagre divino para nos manter no caminho certo. (…) Com sua oração, você pode nos ajudar a encontrar a vontade de Deus para o nosso país (…).

Miriam, uma cristã de Minya, uma das regiões mais afetadas pela violência, comentou: “Se Deus quiser, vamos reconstruir a nossa igreja, e será melhor que antes”. Algumas congregações realizaram os cultos em seus templos, apesar do chão coberto de cinzas. Na ausência de bancos – já que todos foram queimados ou roubados durante a onda de violência -, donos de cafés e restaurantes da vizinhança emprestaram cadeiras aos cristãos.

Vento do Espírito

“O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito” (João 3:8).

Tenho fé de que o próximo vento a soprar sobre o Egito será mais forte que os anteriores. Mas ele não trará areia nem sujeira, não deixará o céu avermelhado. Pelo contrário, irá limpar o país para a grande obra que Deus está e continuará fazendo. Este vento do amor de Deus, que reunirá irmãos de todo o país e de todo o mundo para ministrar ao Egito palavras de cura e esperança.

“Bendito seja o Egito, meu povo” (Isaías 19:25).

No amor de Jesus,

Samir, colaborador da Portas Abertas Internacional no Egito

A Igreja no Egito passou por dias difíceis. Os números divulgados pela Ong Portas Abertas nos mostra o resultado da onda de violência contra os cristãos.

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Não existe esperança. Onde está Deus nisso tudo?

Damasco, agosto de 2013

Querido irmão em Cristo, graça e paz!

Sou Edward Awabdeh, pastor de uma igreja evangélica em Damasco (capital da Síria). Estou escrevendo para agradecer pela forma como vocês, cristãos brasileiros, têm abençoado a minha vida e a da minha igreja.

A situação aqui em Damasco não é fácil. Faz dois anos que o meu país se afundou numa guerra civil, que agora tem se tornado cada vez mais complexa e mais próxima de nós. No dia em que chegamos em Damasco, estávamos saindo do carro em frente a nossa igreja quando uma bala perdida caiu do céu no casaco da minha esposa. Ela, que não queria ter voltado naquela data, me disse: “viu? Deveríamos ter ficado”. Minha resposta foi: “viu? Deus protegeu você”.

Embora eu realmente creia que Deus está nos protegendo, e tenha visto isso visivelmente – esse caso da bala perdida é apenas um de vários livramentos que experimentamos todos os dias – às vezes é difícil seguir em frente.

Olho ao meu redor. O cenário é quase de uma cidade-fantasma. O povo está com medo. Temos tiroteios e bombardeios 24 horas por dia. Há pessoas que, por medo das explosões, não dormem mais na cama; dormem no corredor da casa, que é o local mais protegido.

Acompanhando as bombas vêm os refugiados. De todo o país. Chegam a Damasco apenas com a roupa do corpo. Sem dinheiro e sem trabalho, acabam dividindo apartamentos alugados com mais uma ou duas famílias.

Sexta-feira de sombras

Lembro-me de uma sexta-feira, quando aconteceu o maior bombardeio e tiroteio que já presenciei em Damasco. É comum despertar de manhã com o pipocar de tiros e explosões, mas o barulho naquela sexta-feira foi mais alto, mais próximo, mais intenso. Bombas são lançadas uma após a outra, enchendo o céu e nossos ouvidos, sacudindo janelas e corações.

Nessas horas, nossa mente se volta para quem? Para onde?

“Não existe esperança. Onde está Deus nisso tudo?”, pergunta Nadia, uma cristã daqui de Damasco. Ela ainda é jovem, mas já está bastante abalada.Deseja ir embora da Síria, mas não pode, pois seus pais se recusam a sair.

Não é apenas Nadia que tem essa dúvida. Aonde quer que se olhe, há destruição, dor, medo, sofrimento, perda, morte, além das sementes de amargura e vingança. Vemos crianças chorando, pais fugindo e alguns, menos privilegiados, morrendo. Ou seriam eles os mais privilegiados?

Sexta-feira de luz

Naquela sexta-feira sombria, de bombas riscando o céu, do alto também veio uma mensagem para nós. Ela falou mais forte que as explosões, chegou mais próximo que as balas perdidas, foi mais intensa que o sentimento de medo. Foi um som suave para nossos ouvidos, e paz para o coração. Deus não se esquecera de nós.

Rana, minha esposa, e eu decidimos compartilhar essa mensagem de encorajamento com a igreja do bairro de Jaramana. Havia mais de 150 refugiados na igreja naquele momento, famintos e sedentos por uma palavra que viesse de Deus.

Naquele momento, Deus nos elevou acima da escuridão que cobre a nossa terra, Saboreamos um pedaço do céu e fomos encorajados pela profunda presença divina, que podia ser tocada e vista a olhos nus.

Após o culto, acompanhados por um casal, Rana e eu visitamos duas famílias feridas, despedaçadas e em profundo sofrimento. Ambas experimentaram um toque de amor, um sopro de conforto concedido pelo verdadeiro Consolador. Voltamos para casa naquela noite, sabendo que outras dez equipes de nossa igreja estavam visitando outras dez famílias em necessidade, ministrando a mesma cura e plantando sementes – desta vez, sementes de amor e vida.

Mais de 8 mil famílias consoladas

O que você talvez não saiba, querido irmão, é que naquela noite, você estava lá conosco, fazendo aquelas visitas. Consolando e encorajando vidas.

Desde abril de 2012, a Portas Abertas (Ong que apoia cristãos vítimas de perseguição ao redor do mundo) tem sido parceira da nossa igreja em nosso ministério com famílias afetadas pela guerra na Síria. Temos recebido em nossa igreja quilos e quilos de alimentos, remédios e outros itens para compartilhar com os refugiados que estão ao redor da nossa igreja.

Da mesma forma, temos recebido toneladas de oração de pessoas do mundo todo. Sentimos os efeitos da oração, e nos sentimos fortalecidos por ela tanto individualmente como no ministério.

Nesses 16 meses, os ministérios apoiados pela Portas Abertas aqui na Síria, incluindo nossa igreja, alcançaram mais de 8 mil famílias de refugiados, cristãs ou muçulmanas. Esses gestos de amor têm aberto portas para compartilharmos o evangelho e glorificarmos a Deus.

Nosso trabalho, entretanto, ainda não acabou. Nossa igreja ajuda atualmente 350 famílias, mas os refugiados não param de chegar. Oro para que a ajuda não cesse também.

Por isso, convido você a continuar nos ajudando. Queremos que mais famílias experimentem o amor e o consolo de Deus, mas também desejamos aliviar o sofrimento de nossos compatriotas. Nossa luta não é na linha de frente do conflito; é bem atrás, ministrando a vidas que foram devastadas pela guerra. Convido você a participar dessa luta conosco.

Chuva de bênção

Devo orar por mais sextas-feiras como essas que descrevi? Devo orar pelo fim de sextas-feiras assim? Honestamente, não sei. Preciso da ajuda de Deus, da orientação do Espírito Santo para me ensinar sobre como orar. Oro para que a vontade de Deus seja feita, e seja qual for, ficarei satisfeito. Sim, a morte pode vir do céu no formato de uma bala perdida, mas do mesmo céu vem a chuva de bênçãos que restaura nossa vida. Que você experimente dessa chuva em sua vida também.

No amor de Cristo,

Pastor Edward Awabdeh, Igreja Evangélica Aliança, Damasco (Síria).

Fumaça vista no centro de Damasco, capital da Síria. Confrontos e ataques têm sido cada vez mais frequentes pelo país desde o início da guerra civil, em 2011. A guerra atravessou, de vez, as fronteiras do país quando um vídeo com imagens fortes de civis feridos (principalmente crianças) por armas químicas circulou pelo mundo – acirrando, assim, o debate sobre uma possível intervenção militar externa no país. (Foto: AP Photo/Hassan Ammar)

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Quatro dias ao lado de um herói da fé

São Paulo, junho de 2013

Querido irmão Luiz,

Cada viagem tem a sua história  e sua experiência transformadora. Quero compartilhar com você a belíssima experiência que tive na última visita que fiz à Igreja Perseguida.

Entre o final de março e começo de abril deste ano, tive a oportunidade de visitar o Quirguistão na companhia do meu pastor, Gerson Borges. Passamos uma semana neste país montanhoso e belo da Ásia Central, pouca coisa maior que o Estado do Paraná.

Chegamos de madrugada no aeroporto internacional de Bishkek, capital do país. Ali mesmo já nos impressionamos com o quanto o país precisa se desenvolver. A impressão que tivemos é de ter voltado no tempo uns 40, 50 anos.

Depois de passar pela alfândega e controle do passaporte, fomos recepcionados por dois irmãos: um russo, da Portas Abertas, e um motorista quirguiz, membro de uma igreja batista local.

A sensação de voltar no tempo foi ficando mais intensa à medida que nos dirigíamos para o hotel: a rua era pontilhada de residências muito antigas e prédios decadentes. Estávamos a bordo de um carro japonês, com o volante no lado direito, apesar de a mão da direção ser como no Brasil, do lado esquerdo.

Assim que fomos recepcionados pelos dois irmãos, recebi a feliz notícia de que teríamos a companhia de uma rapaz quirguiz que falava português. Que cuidado de Deus! Noruz, o rapaz, é filho de um pastor muito especial, de quem vou falar em breve, e ele passou os últimos três anos no Brasil estudando no colégio Palavra da Vida, no Estado do Pará. Sua vinda ao Brasil foi facilitada por um pastor brasileiro que trabalha no Quirguistão há mais de dez anos.

Em todo o tempo, e o tempo todo, Jesus esteve cuidando de nossa agenda e nos proporcionando mais encontros fantásticos.

Papel higiênico missionário

O pai de Noruz chama-se Kubã. Fui profundamente impactado pelo testemunho de vida deste homem.

Antes de conhecer a Cristo, Kubã era viciado em álcool e ópio. Ele havia abandonado a mulher e os filhos. Kubã trabalhava como ajudante de construção civil e certo dia, ao entrar num banheiro, encontrou o papel higiênico que mudou a sua vida. Pendurada em um arame estava parte da Bíblia, cujas folhas eram utilizadas pelas pessoas que usavam o banheiro, a fim de se limpar.

Kubã não teve coragem de usar aquele livro que “falava de coisas sagradas”, como disse. Carregou para casa as poucas páginas que restavam e leu parte do evangelho do Marcos.

Depois disso, Kubã não conseguiu mais dormir. Ele precisava saber o final daquela história. Assim, dedicou sua vida a encontrar o restante daquele livro. Quando conseguiu, leu avidamente o texto até o final e, sozinho, entregou a vida a Jesus.

Uma vez liberto dos vícios, Kubã restaurou sua família e hoje serve a Deus em tempo integral.

Pastor de pastores

Kubã é pastor de uma igreja legalizada na capital do país. Ficamos sabendo que, para uma igreja protestante receber licença do governo, ela precisa ter de início 200 membros. Um pastor batista comentou: “quem começa uma igreja com uma congregação desse tamanho?”. Por causa disso, a maioria dos cristãos evangélicos do país se reúne em casas, em igrejas clandestinas.

Além de dirigir uma igreja legalizada, Kubã organiza reuniões clandestinas em sua casa e pastoreia dezenas de pastores em cidades e vilarejos longínquos. Ele ensina esses líderes, lhe provê todo tipo de recurso, seja financeiro, seja espiritual, e cuida de suas necessidades emocionais, familiares e até jurídicas.

(…)

Herói sem capa

O testemunho e a pessoa de Kubã nos impressiona muito. Passamos quatro dias inteiros com ele e sua família, e ele se tornou esse “herói da fé” para meu pastor e eu. Foi incrível ouvi-lo dizer: “Não sei como será amanhã cedo, mas uma coisa eu sei: Jesus me dará o melhor, seja para me vestir, seja para comer, seja para guardar nele o que deseja para mim”. A confiança e a paz que ele tem são assustadores, mas totalmente bíblicas.

No entanto, Kubã também necessita de cuidado. Nos últimos 20 anos, ele não tem um dia sequer em que pode parar e descansar. Seu filho Noruz compartilhou comigo: “Meu pai não se preocupa se amanhã a gente vai comer, se vai ter o que vestir. Não sei se ele liga pra gente”. Com isso, percebi que até os “heróis da fé” precisam de dias para deixar a “capa” de lado e ter tempo para cuidar dos seus e receber cuidado.

(…)

Kubã representa, de certo modo (…) homens e mulheres que, em sua maioria, não receberam treinamento teológico e pastoral. Simplesmente ouviram o chamado para servir a Cristo sacrificalmente – e atenderam com alegria. Pessoas que, em muitos casos, são a única esperança para a Igreja sobreviver em regiões remotas.

(…)

Essa experiência mudou a  minha vida. E tenho fé que o engajamento com a Igreja Perseguida também mudará a sua vida.

Que Deus abençoe sua vida.

Aguinaldo Cajaíba, presidente do conselho administrativo da Portas Abertas

Ilustração: G1

Quirguistão, localizado na Ásia Central: país de importância estratégica para as operações dos EUA no Afeganistão e politicamente instável.

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Amor na faixa

Sul do Egito, julho de 2012

Querido irmão Luiz,

Somos um grupo de jovens que vive numa cidade localizada no sul do Egito. Gostaríamos de lhe contar a respeito de uma experiência magnífica que tivemos no Ramadã do ano passado.

Você já deve conhecer o Ramadã. É o nome de um mês do calendário islâmico, e neste mês todos os muçulmanos devem jejuar do nascer ao pôr-do-sol. No ano passado, o Ramadã coincidiu com o mês de agosto. Neste ano, foi do dia 20 de julho ao dia 18 de agosto.

No último dia do Ramadã há um período especial de oração nas mesquitas, encerrando o jejum. Depois é feita uma grande festa, e às vezes famílias muçulmanas convidam também famílias cristãs para participarem da celebração.

Entretanto, grupos mais radicais aproveitam a ocasião para agir contra “não muçulmanos”. A chance de haver ataques a cristãos depende de quão radical é a pregação na mesquita. E só para você ter ideia, nessa data em especial, a mesquita chega a reunir até reunir até 10 mil pessoas. Você consegue imaginar o que pode acontecer se um grupo desses for estimulado a atacar uma igreja, por exemplo?

Pois bem, nosso grupo jovem ficou imaginando as possibilidades do que poderia acontecer. Então nos reunimos para orar, pois estávamos com medo.

De repente, no meio da oração, um rapaz do nosso grupo teve uma ideia “incomum”.

“Por que a gente não age de forma proativa? Sempre dizemos que devemos amar os muçulmanos, mesmo os violentos. Então vamos pensar em uma maneira prática de expressar nosso amor por eles?”

Então alguém deu outra ideia ainda mais inesperada (talvez até um pouco maluca): “E se a gente fizer uma faixa dizendo que nós os amamos?”

Silêncio total. Mas logo começamos a discutir calorosamente se as propostas eram viáveis, ou até mesmo sábias. Era arriscado.

Fizemos a faixa….

No final, concluímos que as propostas eram boas – apesar de não haver garantia alguma de como os muçulmanos reagiriam. Um grupo específico entre eles, os salafistas, não toleravam nem os muçulmanos moderados. Quem dirá os cristãos!

Antes que a coragem fosse embora, corremos até uma gráfica e encomendamos a faixa. Nela escrevemos: “Sou cristão e amo os muçulmanos”.

… E fomos para a mesquita

Na manhã seguinte fomos até a frente da mesquita. Assim que a reunião terminou, desenrolamos a faixa. Como estávamos com um pouco de medo, não a erguemos muito.

Os fiéis que foram saindo da mesquita pararam para ler. Então alguns vieram até nós e… Nos cumprimentaram! Uma atmosfera de simpatia tomou conta da rua. Mulheres cobertas da cabeça aos pés pararam para nos fotografar, e até homens com trajes conservadores vinham até nós e nos saudavam.

Nossa surpresa aumentou quando alguns imanes (líderes da mesquita) atravessaram a rua para dar um aperto de mão e também para nos agradecer pelo gesto.

A manhã correu tranquilamente, e tivemos certeza, em nossos corações, de que nossa decisão de testemunhar do amor de Jesus marcou o coração daqueles que leram nossa faixa. Além disso, o fato de obedecer a Cristo tirou de nós o medo de sermos proativos em amar o próximo.

No próximo ano teremos outro Ramadã. Compartilhamos essa história contigo por dois motivos. Em primeiro lugar para contar como Deus faz coisas inesperadas quando decidimos lhe obedecer. E, em segundo lugar para pedir o seu apoio às igrejas que vivem em países muçulmanos. Queremos que essas igrejas não vivam dominadas pelo medo de serem vítimas de fundamentalistas, mas que ajam demonstrando o amor de Deus ao próximo, de forma ativa e sábia.

Seja proativo você também em demonstrar o amor de Deus ao próximo. E também aos seus irmãos da fé.

Em Cristo, que nos faz um,

Grupo de Jovens – Igreja do sul do Egito*

*A foto e os nomes dos jovens envolvidos, da cidade e da igreja não foram publicados nem mencionados por questões de segurança

Foto: Nevine Zaki

Durante a Primavera Árabe, na Praça Tahrir, uma egípcia chamada Nevine Zaki fotografou muçulmanos rezando com a proteção de uma corrente humana formada por cristãos. “A convivência entre muçulmanos e cristãos sempre funcionou muito bem no Egito. Por isso fiquei feliz desta foto ter se tornado tão conhecida. Ela lembra que somos egípcios e que essa coexistência pacífica é o que nos caracteriza”, contou Nevine em entrevista ao portal alemão Deutsche Welle.

Ps: hoje o meu Bloco completa 1 ano. É isso.

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“Se tiver de morrer, morreremos”

Coreia do Norte, agosto de 2012

Querido irmão Luiz, notícias do campo!

Com um rápido movimento, janelas e cortinas são fechadas. Três norte-coreanos atravessam a pequena sala, arrastando seus chinelos. Eles passam sob o olhar incisivo dos “grandes líderes”, cujos retratos pendem nas paredes. Os três dirigem-se para o quarto. Atentos, procuram ouvir se as crianças estão dormindo no outro cômodo, e se há alguém na rua. Eles se ajoelham. Um suspiro. Suavemente, começam a cantar. A voz emerge do profundo de seus corações. “Graça maravilhosa, quão doce canção…”.

Esta é a história da vida secreta de oração dos cristãos norte-coreanos.

Questão de vida ou morte

É uma experiência difícil viajar pela Coreia do Norte e ver o rosto das pessoas. É como estar dentro de um filme sem a possibilidade de interferir no script. As pessoas andam a esmo em estradas que parecem não ter fim e nem levar a algum lugar. Ao lado do rio, outro grupo de pessoas. Umas lavam a roupa, outras procuram por alimento. As árvores estão secas. Muitos norte-coreanos comem grama mesmo, apenas para ter algo em seu estômago.

Escondidos entre essas pessoas estão os cristãos. Diferente dos outros, eles oram enquanto caminham. E não fazem isso apenas porque não têm nada melhor para fazer.

Trabalho com refugiados norte-coreanos na China. Posso dizer que a oração na Coreia do Norte é uma questão de vida ou morte. Se um norte-coreano se converte na China, a coisa mais importante que temos para ensinar é como ter um relacionamento com Deus. Quando voltar para casa, ele não pode levar consigo uma Bíblia. Quase metade dos que voltam é presa em algum ponto da viagem. Em todas as situações eles precisam confiar em Deus. É por isso que a oração é tão importante. Eles aprendem a orar por tudo, especialmente por discernimento. Em quem você pode confiar? O que se pode dizer, e o que não pode?

Igual a rainha Ester

Há uns anos, um ocidental participou de uma reunião de oração secreta de norte-coreanos. Ele contou o que viu: “os cristãos se ajoelharam e pediram a Deus para perdoar seus ancestrais, que se prostraram perante ídolos japoneses. Eles diziam: “o povo de Israel foi desobediente e peregrinou no deserto por quarenta anos. Mas nós estamos sendo punidos há mais de sessenta. No entanto, Deus, a culpa é nossa, e não tua”. Eu chorei ao ouvir como eles imploravam a Deus para mudar sua situação. Eles pediam que o Senhor reabrisse as igrejas de seus antepassados”.

As orações dos norte-coreanos, entretanto, mudaram nos últimos anos. Os líderes da igreja norte-coreana nos diziam que isso se deve graças às orações dos irmãos estrangeiros. “Somos tão encorajados por essas orações que agora oramos como a rainha Ester. Mardoqueu lhe disse que ela havia sido chamada para um momento como aquele (Ester 4:14). E isso se aplica a nós. Fomos chamados para sermos luz de Cristo em um momento como esse, nestas circunstâncias difíceis. Temos experimentado que Deus usa a perseguição para santificar sua igreja, e somos gratos porque, em nossa fraqueza, recebemos a força dele. Oramos para sermos capazes de fazer a vontade divina em todas as situações. E se tiver de morrer, morreremos”.

Uma visão

Os cristãos norte-coreanos começaram sua própria campanha de oração por seu país. Eles pedem a Deus para continuar a abrir as portas para que o evangelho seja pregado. Soube que um grupo de cristãos recebeu uma visão de Deus de que um dia a Coreia do Norte se reabrirá. Eles dizem: “então trabalharemos lado a lado com os irmãos sul-coreanos e chineses para evangelizar toda a Ásia. Será uma tarefa difícil. Mas vemos que a atual perseguição na Coreia do Norte é uma preparação para este tempo”.

Vamos então como Deus usa as orações de seus filhos para criar uma música que soa mais alto que o terror e o medo. As milhões de vozes mal podem ser ouvidas individualmente, mas juntas elas formam um belo coral. Para Deus, essas incontáveis orações são como um belo som que não termina. No livro de Apocalipse lemos que cada palavra dirigida a Ele é colocada em um recipiente de ouro – não importa se ela foi proferida em torno de uma mesa de jantar no mundo livre ou se foi sussurrada atrás de janelas fechadas em algum canto da Coreia do Norte.

Atenciosamente,

Correspondente da Portas Abertas na Coreia do Norte (nome  não revelado por uma questão de segurança)

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