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Novembro doce

O mês de novembro é o interlúdio entre a segunda metade do ano e o espanto do fim. Os panetones já estão nas prateleiras dos supermercados (quiçá farmácias) a preços exorbitantes. Algumas casas já se adiantam nos enfeites e piscas-piscas. O corre-corre fica até mais medonho.

É o mês que nos joga na cara que o ano voou e que ainda tem muita resolução pendente no fundo da gaveta, e que pelo visto terão que ser reescritas em papel novo (se ainda és adepto dos pedidos analógicos, o que humildemente duvido muito).

Os dias de novembro ruflam: dos finados à proclamação à consciência à véspera do meu aniversário. Nem dá pra piscar! No calendário há apenas duas folhinhas de resto, e depois fim, e recomeço.

Novembro é o mês da garganta inflamada: culpa do indeciso clima amazônico entre temporais e gotas de sol escaldante.

Novembro é pra dizer: ”sobrevivi. avante!”.

Luiz

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Das nossas ofertas

A gente faz o possível pra viver em paz com todos, mas nem sempre dá porque o outro às vezes tem questões mal resolvidas n’alma. E não temos controle sobre a maturidade alheia ou a forma como alguém enxerga as situações da vida. E está tudo bem.

A gente levanta a bandeira branca, e diante de eventuais negativas, podemos seguir tranquilos. A nossa parte foi feita. 

(eu pessoalmente prefiro guardar dinheiro pra viajar do que guardar ranços. Mais negócio).

Inimizades? Picuinhas desnecessárias? Tô fora! Pego a minha paz de espírito e vou embora. Com uma certeza: cada um oferece aquilo que transborda dentro de si.

leve uma verdade, @

Luiz

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Sol para que te quero!

Esses mormaços que nos castigam no segundo semestre do ano nos obrigam a proteções diárias. Faço cá a minha parte. Sempre que sou forçado a sair da sombra do meu telhado pra encarar o Sol equatorial de Manaus, uso o meu kit de sobrevivência: garrafinha de água, boné, óculos escuros, sombrinha e (por broncas do meu dermatologista) o meu protetor solar.

Acho graça de andar todo protegido por aí e notar que chamo bastante a atenção pelo zelo. Certa vez um senhor me abordou na calçada e perguntou, ”quer virar italiano é?’‘. Pra espanto dele respondi em italiano: ”Ma non c’è bisogno”. Rimos.

Sou todo trabalhado na melanina, mas não é por isso que eu vou me descuidar, oras!

Aliás, usem protetor solar, galera.

Luiz

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Em Parintins a gente vê o que é amor

Os bois Caprichoso e Garantido, ”donos” da festa, na arena do Bumbódromo, onde duelam todos os anos: a Amazônia pode ser mágica. E é (foto:Portal A Crítica)

Parintins é uma ilha. Uma cidade de interior com ares de cidade grande, cercada de águas por todos os lados. É o segundo município mais populoso do Amazonas, região norte do Brasil. Fica distante 365 km da capital do estado, Manaus. É lá que, todos os anos, desde 1965, no último fim de semana de junho, acontece o Festival Folclórico de Parintins, o maior espetáculo a céu aberto do mundo, onde os bois Caprichoso (das cores azul e branco) e Garantido (vermelho e branco) travam um duelo anual de artes, cores, sons e danças. Informações bem familiares para quem é amazonense, mas pra quem é de outros cantos do Brasil e do mundo, é um universo completamente novo que se descortina em azul e em vermelho.

Das muitas coisas que aprendemos quando viajamos a Parintins, uma delas prega o respeito total pelo adversário (embora as provocações deem a tônica do espetáculo, principalmente nos versos do amo-do-boi e nas toadas de desafio). No Bumbódromo, onde acontece a disputa, quando um boi se apresenta, a galera do outro boi (como são chamadas as torcidas) fica em reverente silêncio – caso contrário perdem pontos. E justamente por ser um item julgado, é parte essencial das apresentações (ou, um show à parte).

”Já conheci outras manifestações culturais brasileiras, mas isso aqui é simplesmente impressionante”, me disse Anna, uma simpática polonesa, de português impecável, enquanto aguardava a apresentação do Caprichoso.

Não tem jeito. Embora quem vá pela primeira vez ensaie uma neutralidade, o amor pelo azul ou pelo vermelho é contagiante. Se o contato com os torcedores apaixonados não balança, o rufar dos tambores da Marujada de Guerra (os ritmistas do Caprichoso ) ou da Batucada (do Garantido) arrebatam os indecisos. Não há quem resista ao som caloroso das toadas – as músicas que embalam as apresentações, contam lendas, curiosidades regionais e sacodem as arquibancadas. É simplesmente uma ópera ao ar livre no coração da Amazônia.

Outra regra de ouro do Festival: o torcedor do Garantido não pronuncia o nome do Caprichoso; nem o torcedor do Caprichoso pronuncia o nome do Garantido. O nome completo do boi adversário é apenas ”boi contrário”. Mas aquele fanatismo de outrora, quando as pessoas, contam os mais antigos, iam às vias de fato por causa do seu boi, ficou para trás. Ficou a rivalidade sadia e a divisão territorial. A cidade é realmente dividida em duas cores, tendo a Catedral de Parintins, dedicada a Nossa Senhora do Carmo, o ponto de referência e harmonia.

Mesmo assim, no lado azul, onde fiquei hospedado, há casas onde a família inteira torce para o Garantido. Da mesma forma, é possível encontrar torcedores azuis do outro lado da ilha, reduto do Garantido. Tudo misturado. Em paz. Conviver bem com o diferente é possível. Mais uma importante lição parintinense.

Aliás, pra quem vai a Parintins com ”espírito de mochileiro”,  é uma alternativa aconselhável se juntar com amigos e alugar um quartinho na casa de um morador local – uma renda extra a quem hospeda; uma experiência riquíssima ao visitante. E ter contato direto com o parintinense é se apaixonar de vez por aquela ilha de tantos encantos. A hospitalidade e a simpatia chegam a ser ”folclóricas”. O enlace é imediato: encostou em um canto, puxou conversa, já vira amigo.

Os três dias de festa não poderiam ter sido mais felizes. Já seria especial por um motivo muito simples: eu estava lá. Senti, vibrei, vivi aquele espetáculo em todas as suas nuances. Um sonho de criança. Embora a cultura do boi-bumbá tenha feito parte da minha infância, só agora, adulto, consegui ver o Festival com os meus próprios olhos pela primeira vez. A primeira de outras vezes, assim espero.

É preciso ir a Parintins pra perceber que aquela epifania que dobra o número de habitantes em um só fim de semana é muito mais que uma festa, muito mais que dois bois de pano, que duas cores. É puro amor brotando de todos os lados. Das toadas tocadas em cada canto da cidade, das belezas naturais ao alcance das mãos, do afetuoso abraço de alguém que conhecemos ao ”tem café, mano, toma um pouco” dito por aquele que nos recebe em sua casa. Na ilha todos são (e viram) parentes. Todos são parte essencial de uma grande confraternização que impulsiona a economia local.

E falando em amor, acho justo destacar que na minha primeira ida à Ilha Encantada, o boi-bumbá Caprichoso se sagrou o campeão da 52° edição, vencendo todas as três noites, em rara harmonia entre opinião dos jurados e do público. No dia seguinte ao último dia de Festival –  quase uma ”segunda-feira de cinzas” – numa cidade que já retomava aos poucos a sua tranquilidade habitual, testemunhei o lado azul de Parintins pulsar de felicidade.

Ter visto pessoalmente o boi que ainda na infância me arrebatou ser campeão coroou essa viagem, que, de quebra, me ressignificou por inteiro. Pois é, sou pé quente.

Na arquibancada do boi-bumbá Caprichoso antes de uma das apresentações: em Parintins não existe essa de imparcialidade. Ou é azul ou é vermelho (foto: arquivo pessoal).

Parintins – Amazonas/ Junho de 2017

Luiz

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Arquivado em crônica, reportagem

Lágrimas e almas de pedra

O único ser que sabe que um dia vai morrer é o homem. A morte já me assustou mais. Hoje, talvez, nem tanto. O que sinto quando tenho que me despedir de alguém é uma enorme tristeza. Lembro logo do verso do poeta Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.” Entendemos desde cedo que a morte faz parte do ciclo da vida, mas quase nunca estamos preparados para recebê-la. O despreparo é multiplicado quando a vida de alguém querido é arrancada por outro. Aí, luto e desejo por justiça coabitam em nossa alma. Um tormento.

Eram 18h do dia 15 de junho. Recebi uma mensagem da minha mãe informando que um amigo de infância havia morrido da forma mais violenta possível. Emudeci. O Herlan tinha 24 anos – uma vida toda pela frente, pensamos logo. É em horas assim que a sensação de impotência nos invade e coloca por terra todas as nossas teorias, as nossas defesas; ficamos nus, sem a ilusão de que podemos controlar a vida, sem aquela nossa fantasia onipotente.

Um turbilhão de lembranças inundou o meu coração naquele fim de tarde melancólico. Da memória brotaram as meninices (período que mais convivi com ele). Brincamos muito juntos na rua de pés descalços. No futebol de travinha ele não era habilidoso (nem eu, confesso), mas era raçudo, tinha pavio curto, sempre acabava batendo boca com alguém (uma graça). Era sempre bom ter a companhia dele nas brincadeiras de fim de tarde.

Enquanto eu tecia essas lembranças, nos portais de notícias o ocorrido já estava publicado; e nos comentários, o julgamento dos ”justos juízes” das redes sociais. Outra tristeza. Não consegui pensar em mais nada. Conheço a família, a mãe, o vi crescer, o chamava de maninho. E lembrei muito naquele dia do último abraço que dei nele. “Olha, se tu aprontar de novo, te dou uns cascudos”, eu disse, dando uns tapinhas de leve no queixo quadrado dele. Ele riu: “vou não, mano, vou não”. E dei um forte abraço nele. O último.

A gente está tão acostumado a ler notícias de vidas perdidas para a violência urbana todos os dias que esquecemos que as pessoas que tem um fim como o do meu amigo tem família, tem mãe, pai, amigos, tem uma história, uma raiz. Andamos tão embrutecidos… E, pela ilusória distância destes casos, as pessoas se permitem ser irônicas, às vezes até mesquinhas, quando deixam seus comentários na internet. Mal elas lembram que somos feitos do mesmo material. Ah, a velha prepotência humana!

Meu amigo não fez escolhas felizes na vida, é verdade, mas antes, acima de qualquer julgamento: havia uma mãe sentindo uma dor indescritível naquele feriado. Isso já seria um motivo e tanto pra ficarmos em silêncio (até porque o luto materno subverte as expectativas naturais do ciclo – embora recorrente, é difícil até hoje de compreender).

O fato é que podia ser na família de qualquer um, podia ser o maninho de qualquer um. A empatia faz bem e custa zero centavos.

Quanto a mim, prefiro levar uma só recordação do meu mano Herlan: ele sempre sorridente, amoroso, um sapeca. Vou sentir falta de andar por aí e ser surpreendido com a voz levemente rouca dele, “e aí, mano?”, seguido de um caloroso abraço.

De tudo fico só com a saudade. É melhor que caminhar vazio.

O Herlan (ali com a mão no queixo) em um dos meus aniversários: descanse em paz, amigo =´)

Luiz

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Uma pincelada sobre a lealdade

Tirinha: Mauricio de Souza

LEALDADE é conhecer as fraquezas, os reveses, os tombos e as dificuldades do outro e mesmo assim não usar isso na hora da desavença. Pelo contrário, o leal consegue cobrir imperfeições e ajudar o outro a se levantar em diversas ocasiões.

Um alguém leal te defende na sua ausência; se preocupa de verdade com as suas dores; antecipa a cura muitas vezes.

O ser leal é aquele que é fiel a você porque quer ser; visto que mesmo podendo voar pra onde quiser, escolhe pousar ao nosso lado e lá ficar em todas as estações – sempre atento ao amor que possui; zeloso com o próprio coração e com o do outro.

Tão raro topar com gente que tem a lealdade bem desenvolvida na alma; e ainda há tolos que os desperdiçam.

Não seja essa pessoa.

Luiz

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Voltas e voltas

Já paguei 50 centavos (meia passagem) pra andar em ônibus com ar condicionado e televisão sintonizada na MTV em Manaus. Sério! Não é lenda urbana. Foi em 1999, antes da Virada do Milênio.

Aí chegou os anos 2000 e hoje, em novo milênio e em novo século, os usuários do transporte coletivo pagarão uma taxa de 50 centavos a mais em menos de um mês do último aumento – de R$ 3,30 a R$ 3,80.

Os ônibus não têm mais ar condicionado, é verdade, mas tem uma porção de goteiras em dias de chuva e se torna uma sauna ambulante em dias de calor (”pisa, motora, pro vento correr”, alguém sempre grita lá do fundão). Televisão? Só aquela 14 polegadas que o tiozinho carrega debaixo do braço quando precisa levar pro conserto.

Mas nem tudo são dores: tem jujuba e bala de mangarataia por apenas R$ 1. Picolé da massa e chocolate com gosto de sabão em pó, às vezes. E quem senta nos fundos tem uma experiência de montanha-russa quando o motorista desce a ladeira ou passa por um quebra-molas. Uma delícia!

Ah, e de vez em quando entram uns jovens muito enérgicos, portando objetos pontiagudos, que pedem, em altos decibéis, uma pequena contribuição dos passageiros em troca de um show de horror.

Quando não tem essa catarse coletiva, somos obrigados a descer do veículo antes de chegarmos ao nosso destino e, na ocasião, somos incentivados a interagir com outros passageiros até que chegue outro ônibus. Quantas amizades novas, negócios fechados e casamentos não saíram desses sublimes momentos de socialização… Mais eficaz que qualquer rede social.

Vejam só quanto exercício de virtude, divertimento e aprendizado podemos ter em uma só viagem de ônibus em Manaus. E pagaremos só R$ 3,80 por isso daqui pra frente.

Estamos na vanguarda e não sabemos.

Imagem: TV A Crítica/ captura: @Midia_AM

Luiz

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