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O clínico, o antibiótico e a guitarra

O meu clínico geral (que chique!) me atendeu durante trinta minutos. Cravado. Em quinze me falou da paixão dele por tocar guitarra e pela medicina; noutros quinze ouviu o meu problema e me receitou uns antibióticos. O papo foi tão bom que eu até esqueci das dores.

“Sabe, Luiz, na vida a gente tem que fazer escolhas por vezes desagradáveis. Aos 19 enquanto meus amigos estavam na praia [ele é carioca] curtindo um barato eu estava no hospital vendo gente mutilada… [pausa pra rabiscar a receita] por isso todo mundo precisa de um escape, senão a gente surta; o meu é tocar guitarra”.

Voltando um pouco no tempo, lembrei que ao entrar na sala ele assistia a um desses vídeos tutoriais de guitarra no Youtube em que um carinha tocava uma do Guns N’ Roses. “Pode deixar aí, doutor”, eu disse, e ele, ”esse cara está tocando uma nota acima da original”.

O papo clareou tudo, o vídeo e a observação técnica.

Antes de me entregar a receita e o atestado deu aquela recomendação: “ah, e sem cervejinhas nesse fim de semana, viu… vamos resolver logo esse seu problema. Tens uma vida inteira pra isso”.

Ao notar o meu breve desapontamento, arrematou, ”se você tivesse apenas um dia de vida eu mesmo encheria a cara contigo…”. Rimos.

Se toda consulta médica tivesse essa leveza toda acho que eu seria um pouco mais hipocondríaco.

Luiz

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As soníferas contradições dos netos de Woodstock

Ilustração: ANDRZEJ KRAUZE

Uma pessoa que cansa a alma é aquela que tem medo de amar. Aquela que gosta, mas se reprime, recua, se priva, se autossabota; que projeta suas decepções passadas, injustamente, em alguém que muitas vezes se aproxima só querendo o bem, e, assim, não se permite viver uma nova história.

Gente que sofre por antecipação pelas possíveis perturbações do amor, que vive a ”demonizar” relacionamentos, e corre quando a coisa está ficando séria, e inventa mil obstáculos pra não se aprofundar com ninguém, contudo, no íntimo sofre pelas próprias autossabotagens.

Gente que quer viver as delícias de uma companhia, mas não quer ter problema nenhum, embora esqueça que pra se relacionar com gente (seja na amizade ou na afetividade) há sempre uma turbulência de vez em quando – não sempre, claro (não quer isso? Se relacione só com bonecos de plástico, ou vire uma planta, meu amigo!).

Essa gente já topei aos montes nas redes sociais e na vida real. Posam de ”pós-modernos”, solteiros convictos ou desapegados, que na ânsia de fugir de prováveis sofrimentos (quiçá relacionamentos abusivos) arrancam ferozmente o joio com o trigo, e nessa vão mutilando severamente a própria alma pra manter essa aparência de inatingíveis, num fanatismo só similar aos fariseus do nosso tempo.

Depois eles mesmos vão para as redes sociais chorar a própria solidão, escrevem que ninguém os quer, que nada dá certo pra eles, que relacionamento é uma invenção opressora da sociedade patriarcal e outras ”teses” exibidas como um falso troféu de superioridade em relação aos meros mortais que encaram os ônus e desfrutam os bônus de um relacionamento, ocultando (ou pelo menos tentando) de todos e de si mesmo que o extremismo a qual se apegam é a verdadeira causa da sua própria miséria.

Dá sono.

Luiz

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De repente algumas cicatrizes pra contar

Talvez começar uma crônica natalícia comparando a passagem do tempo a uma estrada trilhada não seja lá uma das entradas mais originais. Versar a respeito de cicatrizes enquanto experiências também não, admito.

Ah, tampouco me interessa a originalidade a essa altura! Só quero escrever, e que nessa data, em que completo mais um ano de vida, eu pudesse, de certa forma, dividir um pouco das cicatrizes que acumulei no meu ser ao longo dos anos. Não todas, porque seria um texto longuíssimo. Algumas.

Cicatrizes, todos já devem saber, resultam da travessura, da distração ou das puras vivências. As primeiras são mais comuns no corpo da infância. Tenho algumas. Se falassem contariam boas histórias.

Já as cicatrizes da experiência, pelo contrário, ficam n´alma. Não posso enxergá-las, apenas rememorar. Nem todas doeram tanto assim, é verdade, mas outras, como diz aquela música da Kell Smith (ouçam), foram mais doloridas que um joelho ralado.

Não há melhor época para revisitá-las que um aniversário. Farei isto. Pode vir comigo se quiser.

À vontade:

1 – [ninguém merece mais amor do que nós mesmos podemos nos oferecer. porque a partir disso construímos a nossa autoestima, a nossa força e a nossa determinação]

2 – [amigos são muito importantes. contudo, o primordial não é a quantidade e sim a qualidade deles. a gente reconhece os de verdade quando estão ao nosso lado quando precisamos; se sabemos que podemos contar nossas inseguranças e sonhos sem medo de sermos julgados e se temos a certeza de que ali existe uma conexão verdadeira – e não se subestime: a gente sabe quando há]

3 – [os nossos ciclos de amigos se renovam de tempos em tempos. gente que dividia uma bisnaguinha com requeijão contigo há quatro anos atrás hoje pode não passar de um completo estranho. acontece. as pessoas mudam, tomam caminhos diferentes, e tá tudo bem. no entanto, alguns amigos ficam pra sempre, apesar do tempo e da distância. o meu amigo mais antigo, por exemplo, eu não encontro pessoalmente há uns três anos, mas se eu visse hoje bateríamos um animado papo sobre cinema, seriados de comédia e literatura fantástica. ele posaria de sisudo, mas eu o faria rir feito uma hiena engasgada, porque a gente conhece muito bem os causos um do outro. natural pois nossa amizade completou 20 anos nesse 2017]

4 – [então, na medida em que o tempo passa, a gente percebe que as pessoas, em algumas situações, falham conosco. que até a nossa família também comete erros; que nossos amigos nos deixam na mão, e que nossos parceiros podem não nos oferecer aquilo que precisamos em dado momento. mas aí vem um fato importante: nós também podemos falhar miseravelmente com nossos amigos, familiares e companheiros. saber pedir perdão e perdoar é o segredo da saúde das relações pessoais]

5 – [a nossa vida ganha muito mais força quando a gente se situa como o pilar da nossa própria existência. diga a si mesmo, “eu sou importante, eu mereço ser feliz, eu mereço ser respeitado e eu amo a mim mesmo”. diga em voz alta se necessário, mas certifique-se de que não há ninguém observando. sei lá, você pode não estar preparado para passar um falso atestado de loucura]

6 – [pode até demorar, mas sempre receberemos na medida exata do que oferecemos. nada mais, nada menos do que isso]

7 – [decidir ser feliz é, muitas vezes, um ato de valentia. pois vozes contrárias sempre se levantam. mudar de emprego, viajar sozinho, começar um relacionamento, enfim, de decisões mais cotidianas às mais importantes, e que nos traz um certo contentamento, todas elas necessitam da nossa voz firme pra sair do campos das ideias. às vezes a felicidade é construída com as luzes apagadas]

8 – [confira sempre o troco do pão. e não despreze as moedas. guarde-as numa caixinha ou cofre e verás surpreso as pequenas fortunas que se pode acumular]

9 – [coma um chocotone/panetone antes do dia de natal. ou um ovo de páscoa antes do domingo de páscoa. ou coma a ceia de ano novo antes da meia noite. tem certas regrinhas que nos ensinaram que, peneiradas em boa reflexão, só atrapalham o apetite. isso pode valer a outros aspectos da vida, mas vai ter que descobrir isso sozinho]

10 – [é bom, ás vezes, não se levar tão a sério. atrai uma leveza extraordinária]

11 – [a gente planeja, planeja, planeja, porém nem tudo pode sair conforme o roteiro que bolamos. aprender a lidar com as imprevisibilidades da vida é um aprendizado em movimento. na dúvida ande sempre com um guarda-chuva]

12 – [ah, se a gente pudesse ter um pouco mais de paciência e aguardar o tempo passar mais um pouco para só então manifestar nossas impressões sobre certos acontecimentos. evitaríamos tantas conclusões precipitadas e seríamos muito mais gratos. de qualquer forma, está de bom tamanho xingar em alguns casos. vai que esse nó na garganta se transforma em algo pior… toc-toc-toc!]

13 – [se colássemos cada situação que chamamos de desastre com o rótulo ”isso vai importar daqui a cinco anos?” ficaríamos bem surpresos. hoje acho muita graça das vezes em que fiquei de recuperação em matemática. embora na época quisesse estar morto por causa desse lance de adiar as férias]

14 – [faça as pazes com o passado para não estragar o presente]

15 – [aquele ex-namorado que parecia ser tão legal o tempo pode provar que não passava de um completo imbecil. normal ter um pouco de raiva de si mesmo quando faz esse tipo de descoberta. o ex pode melhorar como pessoa? claro que pode, mas não somos obrigados a esperar ele deixar de ser imbecil, se é que um dia vai deixar de ser. o que não é problema nosso, afinal, tem tanta gente bacana e mais descomplicada por aí]

16 – [não aceite migalhas afetivas. nunca! never! se não for pra arrotar de amor nem caia de boca]

17 – [tomar a iniciativa pode não ser muito confortável, mas, vai por mim, rende boas experiências de vida. é melhor engolir o orgulho que cuspir grandes oportunidades]

18 – [atente bastante às indicações musicais dos amigos. as grandes reviravoltas em nossas playlists vem de um despretensioso comentário do tipo, ”essa semana estava ouvindo um rapper belga e…”, opa!]

19 – [elogie. incentive. encoraje. assim de repente, sem mais nem menos. nunca sabemos em que pé está a realidade interior de alguém. pode ser uma cura]

20 – [aos poucos aquele ensinamento milenar de que o segredo de viver bem está no equilíbrio vai se instalando na alma. tudo em excesso faz mal, até beber água. não espere ter um coma alcoólico pra aprender de uma vez por todas essa valiosa lição de nossos egrégios avós]

21 – [ser muito mais flexível e desprendido de nossos padrões e caixinhas é uma das ousadias mais difíceis de pôr em prática. estar aberto a mudanças parece assustador de início. e é. não há nada mais poderoso do que as nossas próprias crenças ao mesmo tempo que não há nada mais desafiador do que a superação de nossas crenças por vezes limitantes]

22 – [não temos controle. é bom chegar nessa fase da vida mais solto, flexível e livre de tantas “verdades próprias”. é bom chegar aqui lidando tranquilamente com a transitoriedade das coisas, das pessoas e das razões que, quer queira quer não, sempre foram dinâmicas, nós é que teimamos em sermos rígidos]

23 – [ninguém muda ninguém. mas há certos encontros cujas conexões (e disposição) são tão fortes que as pessoas naturalmente se transformam. isso é tão bom]

24 – [sim, aprendi que é possível ser ou estar feliz sozinho e ser ou estar feliz acompanhado. na prática pouco interessa aqueles textos e vídeos motivacionais que querem justificar que todo mundo é obrigado a ter alguém ou que você não precisa de ninguém]

25 – [o hábito de exercícios físicos e uma alimentação equilibrada (sem deixar de comer nada do que eu gosto) começou pra valer há três anos atrás e, pelo visto, levarei como parte da minha vida por muitos anos. só me trouxe satisfação]

26 – [o caminho mais sustentável para se tornar uma pessoa segura com o passar dos anos é enfrentando um pouco dos medos. um de cada vez. aos poucos. eu enfrentei um nesse ano que finda. fiquei completamente sozinho em outro país onde eu mal sabia a língua nativa. o saldo é que vivi experiências maravilhosas, passei alguns apertos e acabei adotando uma nova língua]

27 – [viajar é um dos melhores investimentos da vida. ao invés de ficar acumulando ranços, guarde dinheiro pra sair da sua zona cotidiana. ninguém vai tirar isso de ti]

28 – [faça algo por alguém. um prato. uma limonada. uma carta. um desenho. sei lá. apenas desfrute da ternura que esse gesto traz]

29 – [sexo não é esse diabo todo que pintam por aí. é muito bom e faz bem. faça com os devidos cuidados]

30 – [amar sem medo é do tipo de aprendizado que é construído todos os dias. costumamos ser tão pedantes quando queremos ter convicções sobre o amor que esquecemos de largar os remos e deixar que as ondas nos ensinem que as delícias estão na leveza, e é nas espontaneidades que o amor costuma dar as caras]

… é isso, e que venham muitos mais cicatrizes.

Obrigado!

Luiz 🎂🎂🎂

 

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Novembro doce

O mês de novembro é o interlúdio entre a segunda metade do ano e o espanto do fim. Os panetones já estão nas prateleiras dos supermercados (quiçá farmácias) a preços exorbitantes. Algumas casas já se adiantam nos enfeites e piscas-piscas. O corre-corre fica até mais medonho.

É o mês que nos joga na cara que o ano voou e que ainda tem muita resolução pendente no fundo da gaveta, e que pelo visto terão que ser reescritas em papel novo (se ainda és adepto dos pedidos analógicos, o que humildemente duvido muito).

Os dias de novembro ruflam: dos finados à proclamação à consciência à véspera do meu aniversário. Nem dá pra piscar! No calendário há apenas duas folhinhas de resto, e depois fim, e recomeço.

Novembro é o mês da garganta inflamada: culpa do indeciso clima amazônico entre temporais e gotas de sol escaldante.

Novembro é pra dizer: ”sobrevivi. avante!”.

Luiz

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Das nossas ofertas

A gente faz o possível pra viver em paz com todos, mas nem sempre dá porque o outro às vezes tem questões mal resolvidas n’alma. E não temos controle sobre a maturidade alheia ou a forma como alguém enxerga as situações da vida. E está tudo bem.

A gente levanta a bandeira branca, e diante de eventuais negativas, podemos seguir tranquilos. A nossa parte foi feita. 

(eu pessoalmente prefiro guardar dinheiro pra viajar do que guardar ranços. Mais negócio).

Inimizades? Picuinhas desnecessárias? Tô fora! Pego a minha paz de espírito e vou embora. Com uma certeza: cada um oferece aquilo que transborda dentro de si.

leve uma verdade, @

Luiz

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Sol para que te quero!

Esses mormaços que nos castigam no segundo semestre do ano nos obrigam a proteções diárias. Faço cá a minha parte. Sempre que sou forçado a sair da sombra do meu telhado pra encarar o Sol equatorial de Manaus, uso o meu kit de sobrevivência: garrafinha de água, boné, óculos escuros, sombrinha e (por broncas do meu dermatologista) o meu protetor solar.

Acho graça de andar todo protegido por aí e notar que chamo bastante a atenção pelo zelo. Certa vez um senhor me abordou na calçada e perguntou, ”quer virar italiano é?’‘. Pra espanto dele respondi em italiano: ”Ma non c’è bisogno”. Rimos.

Sou todo trabalhado na melanina, mas não é por isso que eu vou me descuidar, oras!

Aliás, usem protetor solar, galera.

Luiz

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Em Parintins a gente vê o que é amor

Os bois Caprichoso e Garantido, ”donos” da festa, na arena do Bumbódromo, onde duelam todos os anos: a Amazônia pode ser mágica. E é (foto:Portal A Crítica)

Parintins é uma ilha. Uma cidade de interior com ares de cidade grande, cercada de águas por todos os lados. É o segundo município mais populoso do Amazonas, região norte do Brasil. Fica distante 365 km da capital do estado, Manaus. É lá que, todos os anos, desde 1965, no último fim de semana de junho, acontece o Festival Folclórico de Parintins, o maior espetáculo a céu aberto do mundo, onde os bois Caprichoso (das cores azul e branco) e Garantido (vermelho e branco) travam um duelo anual de artes, cores, sons e danças. Informações bem familiares para quem é amazonense, mas pra quem é de outros cantos do Brasil e do mundo, é um universo completamente novo que se descortina em azul e em vermelho.

Das muitas coisas que aprendemos quando viajamos a Parintins, uma delas prega o respeito total pelo adversário (embora as provocações deem a tônica do espetáculo, principalmente nos versos do amo-do-boi e nas toadas de desafio). No Bumbódromo, onde acontece a disputa, quando um boi se apresenta, a galera do outro boi (como são chamadas as torcidas) fica em reverente silêncio – caso contrário perdem pontos. E justamente por ser um item julgado, é parte essencial das apresentações (ou, um show à parte).

”Já conheci outras manifestações culturais brasileiras, mas isso aqui é simplesmente impressionante”, me disse Anna, uma simpática polonesa, de português impecável, enquanto aguardava a apresentação do Caprichoso.

Não tem jeito. Embora quem vá pela primeira vez ensaie uma neutralidade, o amor pelo azul ou pelo vermelho é contagiante. Se o contato com os torcedores apaixonados não balança, o rufar dos tambores da Marujada de Guerra (os ritmistas do Caprichoso ) ou da Batucada (do Garantido) arrebatam os indecisos. Não há quem resista ao som caloroso das toadas – as músicas que embalam as apresentações, contam lendas, curiosidades regionais e sacodem as arquibancadas. É simplesmente uma ópera ao ar livre no coração da Amazônia.

Outra regra de ouro do Festival: o torcedor do Garantido não pronuncia o nome do Caprichoso; nem o torcedor do Caprichoso pronuncia o nome do Garantido. O nome completo do boi adversário é apenas ”boi contrário”. Mas aquele fanatismo de outrora, quando as pessoas, contam os mais antigos, iam às vias de fato por causa do seu boi, ficou para trás. Ficou a rivalidade sadia e a divisão territorial. A cidade é realmente dividida em duas cores, tendo a Catedral de Parintins, dedicada a Nossa Senhora do Carmo, o ponto de referência e harmonia.

Mesmo assim, no lado azul, onde fiquei hospedado, há casas onde a família inteira torce para o Garantido. Da mesma forma, é possível encontrar torcedores azuis do outro lado da ilha, reduto do Garantido. Tudo misturado. Em paz. Conviver bem com o diferente é possível. Mais uma importante lição parintinense.

Aliás, pra quem vai a Parintins com ”espírito de mochileiro”,  é uma alternativa aconselhável se juntar com amigos e alugar um quartinho na casa de um morador local – uma renda extra a quem hospeda; uma experiência riquíssima ao visitante. E ter contato direto com o parintinense é se apaixonar de vez por aquela ilha de tantos encantos. A hospitalidade e a simpatia chegam a ser ”folclóricas”. O enlace é imediato: encostou em um canto, puxou conversa, já vira amigo.

Os três dias de festa não poderiam ter sido mais felizes. Já seria especial por um motivo muito simples: eu estava lá. Senti, vibrei, vivi aquele espetáculo em todas as suas nuances. Um sonho de criança. Embora a cultura do boi-bumbá tenha feito parte da minha infância, só agora, adulto, consegui ver o Festival com os meus próprios olhos pela primeira vez. A primeira de outras vezes, assim espero.

É preciso ir a Parintins pra perceber que aquela epifania que dobra o número de habitantes em um só fim de semana é muito mais que uma festa, muito mais que dois bois de pano, que duas cores. É puro amor brotando de todos os lados. Das toadas tocadas em cada canto da cidade, das belezas naturais ao alcance das mãos, do afetuoso abraço de alguém que conhecemos ao ”tem café, mano, toma um pouco” dito por aquele que nos recebe em sua casa. Na ilha todos são (e viram) parentes. Todos são parte essencial de uma grande confraternização que impulsiona a economia local.

E falando em amor, acho justo destacar que na minha primeira ida à Ilha Encantada, o boi-bumbá Caprichoso se sagrou o campeão da 52° edição, vencendo todas as três noites, em rara harmonia entre opinião dos jurados e do público. No dia seguinte ao último dia de Festival –  quase uma ”segunda-feira de cinzas” – numa cidade que já retomava aos poucos a sua tranquilidade habitual, testemunhei o lado azul de Parintins pulsar de felicidade.

Ter visto pessoalmente o boi que ainda na infância me arrebatou ser campeão coroou essa viagem, que, de quebra, me ressignificou por inteiro. Pois é, sou pé quente.

Na arquibancada do boi-bumbá Caprichoso antes de uma das apresentações: em Parintins não existe essa de imparcialidade. Ou é azul ou é vermelho (foto: arquivo pessoal).

Parintins – Amazonas/ Junho de 2017

Luiz

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