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Tentações da crase

Ilustração: canaldoensino.com.brO poeta Ferreira Gullar ensinou: “A crase não foi feita pra humilhar ninguém”. Não foi. Mas talvez tenha sido feita para ser uma tentação. Certas construções, por exemplo, provocam comichão nos dedos. Parece irresistível. Descuidou, lá está o acento grave onde não deveria estar (é isso mesmo que você leu. O nome do “acento agudo invertido” é grave e não “crase”. O acento indica a ocorrência da crase, que é a fusão de duas vogais idênticas, no caso, de dois “as”, um artigo e uma preposição).

Em miúdos, não ocorre crase diante de palavras que não podem ser precedidas de artigo feminino. Por essa razão, não ocorre crase antes de substantivos masculinos, de verbos e da maioria dos pronomes.

Nome de lugares e duplas são dois comichões que nos tentam a usar equivocadamente o acento grave, como disse no início do texto. Dão nó nos miolos de muita gente – inclusive e principalmente em profissionais do texto.

No primeiro caso, nome de países e de cidades ora se usa com artigo (a França, a Argentina, a Bahia), ora sem (em Portugal, em Mônaco, em Manaus). Exemplo: “você já foi à Bahia?” ou “você já foi a Manaus?”.

Como a crase indica a fusão de dois “as” (um artigo feminino e uma preposição), só os acompanhados podem ser antecedidos do acento grave. Esses versinhos podem ajudar a saber se esse acento tem vez:

Se, ao voltar, volto da,

Crase no a.

Se, ao voltar, volto de,

Crase pra quê?

Em relação às duplas, é bom destacar que elas têm ojeriza à crase. Sério. Exemplo: face a face, cara a cara, frente a frente, uma a uma, gota a gota, mês a mês, semana a semana, dia a dia, entre outros casos semelhantes, não aceitam o acento grave nem sob decreto papal.

Ao se deparar com essas tentações quando escrever, resista. Ou melhor, fuja. Ou melhor ainda, a gramática deverá ser consultada.

Luiz

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Vírgulas oportunistas

Imagem: eshoje.jor.brO poder dos sinais de pontuação não é pouco. Da vírgula, então, ultrapassa todos os  limites. Uma vírgula fora do lugar é capaz de causar estragos ou construir; promover ou demitir; derrubar ou levantar; morder ou assoprar. Um exemplo: “esse, deputado, é um corrupto” ou “esse deputado é um corrupto”. Viu? Com as vírgulas podemos criar um vilão. Ou seja: pequenas vírgulas mal colocadas, grandes interpretações equivocadas.

Os espertos tiram proveito desse sinal, e com eles enviam recados diferentes. Fazem mais ou menos como o morcego de uma fábula. Vou contar.

Era uma vez…  Há muito tempo atrás, numa floresta remota, as aves guerrearam com os outros animais. O chefe delas era o gavião. O chefe dos animais terrestres, a onça. Depois de muitas batalhas, as aves perderam a luta. O morcego, que é ave, resolveu mudar de lado. Procurou a onça, que muito desconfiada perguntou:

– Você por aqui? Não pode. És uma ave.

O morcego disfarçou:

– Ave? Eu? Como? Eu não tenho bico nem penas. Tenho pelo. Sou um primo distante do rato.

Assim o morcego se aliançou com os animais terrestres.

Meses depois, houve um novo combate. No meio da batalha, o morcego caiu nas garras de uma coruja. Ele, então, berrou:

– Você não pode me matar! Sou uma ave como você! Olhe as minhas asas!

A coruja se desculpou e o libertou.

Moral da história: os oportunistas estão sempre no lado vencedor (qualquer semelhança com o atual cenário político brasileiro é mera consequência).

Luiz

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Síque

O latim não morreu. Prova disso é que de vez em quando ele aparece na nossa frente, assumindo várias formas. Uma dessas formas é o sic.

Sic é um advérbio latino. Essas três letras significam sem alteração nenhuma, tal e qual, assim. É usado até hoje. Normalmente vem entre parênteses, depois de uma palavra com grafia incorreta, desatualizada ou depois de frases que causam controvérsia. Afinal, “herrar é o mano” (sic).

Com ele, é possível mandar esse recado ao leitor: o texto original é assim mesmo, por mais estranho que pareça. Não tenho nada a ver com isso.

O sic é como se fosse o Pilatos da língua.

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