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Roda viva dos medalhões

Tudo começou com o Gilberto, o pai-de-todos, que criou o Amazonino, o-que-já-foi-tudo, que criou o Eduardo, que se voltou contra o seu criador em dado momento, e se juntou ao Serafim, que havia perdido a prefeitura para o Alfredo, outra cria do Amazonino, que na eleição seguinte também derrotou o Eduardo, que voltou aos braços de Amazonino no outro pleito e teve Omar como vice, que também foi vice de Alfredo, que rompeu com ele e se juntou ao antigo adversário Serafim, e os dois perderam pro Omar, vice-de-todos-eles, que jogou no palco o Melo, que foi peitado por Marcelo, que levantou a voz para todos os outros, mas acabou se juntando a Eduardo, que tinha Rebecca como vice quando perdeu pro Melo, que saiu de cena e deu lugar ao David, que está com a Rebecca, que agora tem como adversário o antigo aliado, Eduardo, que está contra o seu criador Amazonino, o nosso Dom Sebastião.

Ficou tonto?
Pois é.
Em círculos caminha a política amazonense.

Luiz

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Aos irmãos chechenos

Há muitos anos atrás fiquei sensibilizado ao tomar conhecimento (por meio da ong Missão Portas Abertas) da perseguição sofrida por cristãos, em pleno século XXI, em países em que são minoria – na seção ”cartas do campo”, aqui do blog, há vários relatos. Perseguição leia-se torturas, assassinatos, prisões arbitrárias, expulsões de casa, cidadania mutilada etc. Causa principal: o fundamentalismo da religião majoritária do país. E é justamente esse mesmo fundamentalismo que vem respaldando atrocidades cometidas contra gays na Chechênia, uma das 22 repúblicas que integram a Rússia, país menor que o Estado de Sergipe.

Trata-se de mais um caso em que religião é usada para fins políticos malignos, como explana bem essa matéria da SuperInteressante sobre o assunto (vale a leitura). Friso, não é uma questão de ”demonização” da religião A ou B. A praga que deve ser combatida com veemência é o fundamentalismo religioso, que encurta o caminho entre o discurso e a ação de ódio; que embasa atrocidades com o próximo-diferente-de-mim; que usa Deus como costa larga para as mais variadas canalhices.

Desde que o caso veio à tona com ares de boato de internet, grupos tem se mobilizado para denunciar os crimes na Chechênia. Assinei a petição do Avaaz. ”Ah, é só uma petição on-line”, talvez alguém pense. Bem, a gente luta com as armas que tem. É melhor que a apatia.

Se um dia eu me sensibilizei com o sofrimento de irmãos da fé que moram a quilômetros de distância de mim, por que não me sensibilizaria com o sofrimento dos meus irmãos chechenos? Questão de coerência.

O endereço da petição está AQUI. Não custa nada.

Em alguns países houve protesto contra os campos de concentração na Chechênia. No detalhe, jovem carrega cartaz em frente à Embaixada Russa em Lisboa. Foto: Joana Santos.

Luiz

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Pedras em forma de bits

Existem basicamente dois tipos de discursos de ódio que circulam nas redes sociais: um se esconde atrás da religião e o outro é ódio pelo ódio escancarado mesmo. Evidente que um não é menos pior nem mais tolerável que o outro. Os dois são igualmente abomináveis, e ambos devem ser combatidos seriamente.

Sobre o primeiro caso (destacando o modus operandi dos religiosos fundamentalistas), usar passagens bíblicas pra colocar os outros no inferno é prática comum (as pessoas homoafetivas costumam ser os alvos prediletos destas sentenças pretensiosas). Agora, admitir que estamos todos danados, condenados, ferrados, é outra história. Até porque TODOS PECARAM E CARECEM DA GRAÇA DE DEUS (está bem ”desenhado” lá na carta do apóstolo Paulo aos Romanos capítulo 3, verso 23).

Todos, no caso, é todos, meu amigo; ninguém tem entrada vip no céu apenas por ser um heterossexual monogâmico, ou porque dá a oferta (ou dízimo) todo fim do mês, ou porque bate o ponto todo fim de semana em um templo religioso, ou porque segue à risca uma determinada doutrina.

A ignorância parte da falta de conhecimento de muitos que justificam seus preconceitos em “passagens bíblicas” passadas de pai para filho em forma de dogmas, de modo que só uma leitura mais minuciosa destes mesmos trechos já é visto como algo pecaminoso. Ou seja, muitos desses versículos repetidos à exaustão por aí nos fóruns mais malcheirosos das redes sociais sequer passam por uma interpretação séria, contextualizada e honesta.

Enfim, num mundo onde tudo está fora do lugar, o que é certo (lê-se amar ao próximo sem precedentes) escandaliza e o que é errado (lê-se apedrejar quem é diferente de mim) se torna o correto. Desse modo, o “Ame o próximo como a si mesmo”, dito por Jesus de forma tão cristalina e direta, é capaz de fazer com que um religioso fundamentalista sinta a necessidade de justificar o porquê de “amar” o outro: “amo, mas…” , e dá-lhe procurar a fimose do mosquito! E sustentam com uma convicção visceral esse discurso hipócrita revestido de piedade tanto no âmbito virtual quanto na vida real. Dá sono.

O que muitos cristãos religiosos ainda não conseguiram entender é que, à luz das próprias escrituras sagradas, todos nós, na condição de pecadores, merecemos herdar o inferno, isso sim! Não fosse, é claro, a Graça de Deus, que está ao alcance de todo mundo; e somente a Graça – esse favor divino imerecido que muitos andam achando (pelo que escrevem nas redes sociais) mais merecedores que outros.

Precisamos mais do que nunca nos opor a estas interpretações equivocadas da Bíblia, que é um livro maravilhoso, desde que lido levando em conta quando e em que contexto histórico foi escrito. Ou: desde que seja lida sobre a ótica de JESUS (que deveria ser a chave interpretativa dos cristãos), o mesmo que acolheu publicanos, prostitutas e pecadores, escandalizou e desafiou o fundamentalismo religioso do seu tempo e foi perseguido e morto por esse mesmo fundamentalismo.

Penso que religião nenhuma pode ser usada como pretexto para desmerecer o outro e para sustentar discriminações, descumprindo, desse modo, o único mandamento: AMAR AO PRÓXIMO.

Assim sendo, é bom e preserva a alma da mediocridade existencial termos mais humildade e compaixão com as relatividades do próximo.

Luiz

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Voltas e voltas

Já paguei 50 centavos (meia passagem) pra andar em ônibus com ar condicionado e televisão sintonizada na MTV em Manaus. Sério! Não é lenda urbana. Foi em 1999, antes da Virada do Milênio.

Aí chegou os anos 2000 e hoje, em novo milênio e em novo século, os usuários do transporte coletivo pagarão uma taxa de 50 centavos a mais em menos de um mês do último aumento – de R$ 3,30 a R$ 3,80.

Os ônibus não têm mais ar condicionado, é verdade, mas tem uma porção de goteiras em dias de chuva e se torna uma sauna ambulante em dias de calor (”pisa, motora, pro vento correr”, alguém sempre grita lá do fundão). Televisão? Só aquela 14 polegadas que o tiozinho carrega debaixo do braço quando precisa levar pro conserto.

Mas nem tudo são dores: tem jujuba e bala de mangarataia por apenas R$ 1. Picolé da massa e chocolate com gosto de sabão em pó, às vezes. E quem senta nos fundos tem uma experiência de montanha-russa quando o motorista desce a ladeira ou passa por um quebra-molas. Uma delícia!

Ah, e de vez em quando entram uns jovens muito enérgicos, portando objetos pontiagudos, que pedem, em altos decibéis, uma pequena contribuição dos passageiros em troca de um show de horror.

Quando não tem essa catarse coletiva, somos obrigados a descer do veículo antes de chegarmos ao nosso destino e, na ocasião, somos incentivados a interagir com outros passageiros até que chegue outro ônibus. Quantas amizades novas, negócios fechados e casamentos não saíram desses sublimes momentos de socialização… Mais eficaz que qualquer rede social.

Vejam só quanto exercício de virtude, divertimento e aprendizado podemos ter em uma só viagem de ônibus em Manaus. E pagaremos só R$ 3,80 por isso daqui pra frente.

Estamos na vanguarda e não sabemos.

Imagem: TV A Crítica/ captura: @Midia_AM

Luiz

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Bilhete aberto ao Brasil

mao-bandeira-do-brasil-imagens-para-facebookSe após esse longo processo de impeachment da (agora) ex-presidente Dilma Rousseff você está sorrindo, batendo palmas, vomitando impropérios pelos dedos a quem pensa diferente de você, mas com as panelas muito bem guardadas, e a camisa verde e amarela no armário, cercada de bolinhas de naftalina, tem algo errado com a tua indignação.
 
Ou: se a tua luta é contra a corrupção, de fato; se a tua luta é pela construção de um país justo para todos, de fato, em que, por exemplo, um político não estar envolvido em escândalos de corrupção não faz mais que sua obrigação; estamos só no começo.
 
Olhe bem para quem está à frente do Brasil nesse exato momento. Se queima no teu peito aquela chama de “é, ainda temos muito o que fazer pro Brasil melhorar”, bom sinal.
 
Agora se o que prevalece em ti é o regozijo pela saída de um partido político do poder, a ponto de ter levado, nos últimos meses, o lema “o inimigo do meu inimigo é o meu amigo” às últimas consequências, ou só brincou de Guerra Fria nas redes sociais, ou mesmo foi conivente com esse carnaval de hipocrisia e demagogia parlamentar que vimos, sinto, tua ”preocupação com o futuro do país” é tão substancial quanto uma bolinha de isopor.
 
Amo o meu país. Mas ele precisa de uma reforma urgente. Não apenas política, mas cultural. E a mudança passa por nós, caros. E de nós aos nossos representantes.
 
Avante!
 
Luiz

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O legado daqueles que não subiram ao pódio

A graça dos Jogos Olímpicos é a possibilidade de ficar na memória coletiva sem precisar subir ao pódio. Sendo que, às vezes, nem é preciso ser atleta. O espírito olímpico está ao alcance de todos. Cito cá dois casos.

O primeiro é a valente seleção feminina do Brasil. Com um início arrebatador no torneio olímpico contrastando com o começo pífio da seleção masculina (dois empates com seleções inexpressivas), a torcida brasileira abraçou as mulheres como nunca havia feito antes, e dessa forma muitos descobriram que não é só a Marta que bate um bolão no time verde e amarelo.

Tirando as comparações exageradas na grande discussão que se travou em torno disto (#martamelhorqueneymar e similares), vi na empolgação da torcida brasileira uma boa oportunidade de dar visibilidade ao futebol feminino. E os homens, que sempre dominaram as atenções no futebol, ficaram um pouco de lado – o que causou um certo ressentimento em alguns “machinhos” de plantão (uma bobagem).

A seleção feminina é bem jovem se compararmos com a centenária seleção masculina, mas já tem uns feitos consideráveis para uma modalidade que não tem o mesmo apoio financeiro do masculino, tampouco a mesma estrutura, sequer um campeonato ou um trabalho de base consistente. Em seis edições de futebol feminino nos Jogos Olímpicos, o Brasil foi semifinalista em cinco, sendo que conquistou duas medalhas de prata (Atenas-2004 e Pequim-2008) e, de quebra, tem um vice-campeonato mundial em 2007, na China.

Ao contrário dos Estados Unidos, uma potência no futebol feminino, aqui no Brasil o esporte bretão ainda é “coisa de homem” e, pelo que podemos perceber, ainda há uma certa resistência no ar para que haja uma mudança nesse sentido.

Infelizmente, a seleção feminina não ganhou medalha nos Jogos do Rio de Janeiro, mas a entrega delas em campo devolveu à torcida aquela alegria de vestir a camisa canarinho outra vez – tão abalada ultimamente.

(Polêmicas à parte, acho até que o “sacode glacial” que a seleção masculina de futebol levou da torcida surtiu efeito. Pelo menos eles “acordaram” e ganharam a medalha de ouro em cima do “fantasma alemão” – não era o mesmo elenco do 8 de Julho, como lembrou alguns comentaristas com oclinhos na ponta do nariz, mas era um time da mesma escola. Deu pra lavar a alma).

E, assim, pelo menos dois legados as mulheres da seleção deixaram: Visibilidade ao futebol feminino em território nacional e amor à camisa amarelinha.

Seleção feminina em partida na Arena da Amazônia: 42 mil pessoas foram prestigiar as mulheres, que empataram com a África do Sul em 0 a 0. Foto: Clóvis Miranda

Onde lixo no lixo é notícia

A seleção japonesa de futebol jogou duas partidas na Arena da Amazônia, em Manaus, pela primeira fase do torneio olímpico. Nada brilhante. Uma derrota honrosa para a Nigéria (que viria a ganhar a medalha de bronze) por 5 a 4 e um empate heroico com a Colômbia em 2 a 2.

Não passaram da primeira fase, embora, apesar das limitações técnicas, era visível o esforço dos magérrimos e ligeiros jogadores nipônicos. Talvez por isso os manauaras “abraçaram” os japoneses – afinal, jogar com raça é pré-requisito essencial ao torcedor brasileiro.

Apesar dos resultados nada satisfatórios, foi divertido. A torcida japonesa deu um show à parte na arquibancada. De longe era a mais animada. Os japoneses (entre turistas e descendentes que moram em Manaus) cantaram a plenos pulmões o jogo inteiro – “ôÔôÔôÔôÔ, Nippon, Nippon, Nippon!” – mesmo com o Japão em desvantagem no placar.

Ao final da partida, os japoneses, a exemplo do que fizeram na Copa do Mundo, em 2014, usaram as mesmas sacolas utilizadas como adereços para recolher o lixo deixado na arquibancada. Uma aula de apoio incondicional durante o jogo e de educação depois do apito final. Virou notícia, e ficou a lição num lugar onde as pessoas jogam lixo da janela do ônibus sem o menor pudor.

Houve relatos de que alguns amazonenses, ao verem os japoneses recolhendo seus lixos, ficaram tão constrangidos que cataram os seus e jogaram na lixeira. Isso é o que eu chamo de legado olímpico.

Torcida japonesa dando aula de cidadania. Foto: Aguilar Abecassis.

Luiz

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A palavra é… empoderamento

Empoderamento – a palavra por si só já nos faz erguer um pouco o queixo ao pronunciá-la. O cinema, a propaganda, a literatura, a televisão, a música, as artes plásticas, a dança, os quadrinhos e tantas outras formas de comunicação e arte se tornaram, nos últimos anos, em poderosas ferramentas de empoderamento de indivíduos que até pouco tempo eram apenas coadjuvantes.

Empoderamento é uma das traduções mais aceitas para a palavra inglesa empowerment. Não é preciso pensar muito para descobrir o seu significado: ato ou efeito de empoderar, de “dar poder”.

Tem para todos. Empoderamento de mulheres, de negros, de homossexuais, de indígenas, de usuários da internet, dos que moram nas periferias das grandes cidades, de criadores de coelhos, enfim, definitivamente a palavra está em alta na teoria e na prática.

E foi justamente essa palavra que não me saiu da cabeça quando assisti ao Caça-Fantasmas (2016), reboot de um clássico dos anos 1980. Interessante como a “mudança de sexo” dos protagonistas, tão malvista por alguns fãs (o filme trata de tirar sarro deles), na verdade é exatamente o que torna o filme especial, único, pois se distancia do original ao mesmo tempo que o segue de perto. Feito do diretor Paul Feig, que resgatou todos os elementos que fazem o universo dos caça-fantasmas tão interessante e querido por uma geração. As piadas ácidas, a curiosa forma como os fantasmas são caçados e, é claro, os próprios espectros, brilhantes e coloridos, mais a icônica canção-tema, estão todos lá para o deleite até do fã mais purista.

Não é um filme panfletário, é bom frisar, embora brinque bastante com a reação de alguns fãs quando souberam que seriam “AS” caça-fantasmas. É apenas um filme pipoca provando que mulheres são perfeitamente capazes de protagonizarem as mais loucas aventuras à sessão da tarde. Parece pouco, mas nem tanto. Pensei nas meninas ao me divertir com aquele quarteto feminino caçando fantasmas em Nova York. Sim, as meninas do nosso cotidiano – irmãs, primas, sobrinhas, afilhadas, alunas – e em como essa nova geração tem cada vez mais heroínas para inspirar brincadeiras, fantasias, espelhos.

Um fato do nosso tempo, caros, é que o excluído está aparecendo mais vezes na linha de frente das mídias, está sendo representado e, consequentemente, está sendo empoderado. Todo mundo está tendo a oportunidade de se ver na pele de um herói ou de uma heroína. E isso é bom, muito bom.

Quer alguns queiram ou não, estamos testemunhando uma nova geração crescer nesse ambiente em que todos estão tendo a sua vez de empoderar-se. Não é pouco. Não mesmo.

Depois da sessão, também pensei especificamente no empoderamento feminino, e em como expressões tacanhas, do tipo “você bate como uma menina!”, estão pouco a pouco perdendo a força negativa de outrora. Ou pelo menos suponho que quem diga isso pra diminuir o outro não se incomode em receber um soco da Ronda Rousey.

As caça-fantasmas: da esquerda para a direita, as atrizes Leslie Jones, Melissa McCarthy, Kristen Wiig e Kate McKinnon. A ótima química entre o elenco ajudou o filme a ser uma grata surpresa de verão (imagem: divulgação)

Luiz

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