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#Mamonas20anos

Lembro bem.  Foi num domingo chuvoso em Manaus, 03 de março de 1996, que eu soube, pela TV, do acidente aéreo dos Mamonas Assassinas. Todos estavam mortos – Dinho, de 24 anos, vocalista e líder da banda; Bento Hinoto, de 26, guitarrista; Júlio Rasec, de 28, tecladista; e os irmãos Samuel e Sérgio Reoli, de 22 e 26, respectivamente baixista e baterista.

Eles voltavam de um show em Brasília, informavam insistentemente os boletins jornalísticos, o último de uma exaustiva turnê pelo país.

A chuva espalhou ainda mais a melancolia no ar naquela manhã.

Admito, eu não era exatamente um fã. Ao contrário do meu primo, que tinha CD, foto autografada, pôsteres, todas as músicas na ponta da língua e todas as coreografias e os maneirismos daqueles meninos de Guarulhos (São Paulo) na ponta dos pés.

Já eu fazia parte daquele grupo de crianças que mal entendia o duplo sentido das letras, o que só veio acontecer alguns anos mais tarde. Mesmo assim fiquei triste naquela manhã chuvosa de domingo.

De fato, não tinha como passar imune a uma banda, cujo primeiro e único disco vendeu, em apenas nove meses, mais de 1,2 milhão de cópias. Um recorde. E todas, repito, TODAS as músicas desse disco eram sucesso absoluto, sendo tocadas, cantadas e dançadas em todos os lugares e ocasiões – programas de auditório, festinhas de aniversário, ceia de Natal (aquela de 1995, então, nem se fale) etc. Um feito raro para uma banda. Talvez nunca igualado no Brasil. Pelo menos não naquela proporção.

O álbum de estúdio em questão já ganhou status de cult há muito tempo. É um trabalho coeso, que mistura rock, forró, pagode, brega, reggae, vira, sertanejo e metal com letras de puro deboche, paródias e críticas sociais diversas que acabam retratando bem os vícios daquele Brasil dos anos 1990. Uma salada que deu certo.

Agora, nunca saberemos se essa fórmula continuaria rendendo recordes estratoféricos aos Mamonas Assassinas por muito tempo porque a morte os silenciou naquele fatídico 2 de março de 1996, mas eles, debochados como eram, ignoraram o toque de recolher e ainda continuam gritando na memória afetiva-musical de muita gente: Atenção, Creuzebek!

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Luiz

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Los Hermanos e os hermanos manauaras

Não sou frequentador assíduo de shows. Ambientes muito apertados e quentes não me são convidativos – já basta os ônibus de Manaus. Por isso, tenho pouquíssimos shows no currículo. Mesmo assim, posso abrir algumas exceções – se bem que muitas dessas exceções sequer passam perto de Manaus. De qualquer forma, uma dessas exceções passou por estas paragens há mais de uma semana atrás: os Los Hermanos, banda carioca formada por Marcelo Camelo, Rodrigo Barba, Rodrigo Amarante e Bruno Medina. Já os conhecia desde o final de 1999 quando eles estouraram nas paradas de sucesso com “Anna Júlia” (quem não lembra do verso “Oh Anna Juliaaaaa”?), mas nunca dei muita bola, afinal, eu era apenas uma criança e tinha outras “preocupações”. Só muito recentemente parei para ouvi-los com atenção, principalmente os seus trabalhos posteriores àquele que os catapultou para a fama – se bem que se formos comparar “Anna Júlia” com certos hits que estão nas listas das mais ouvidas de hoje, o megahit dos hermanos tem lá os seus méritos poéticos…  Sem mais. O lirismo e a ousadia das músicas e o apuro das letras conquistou-me os ouvidos. Pronto. No dia 27 de abril, no tão aguardado show dos  Los Hermanos na cidade – uma das que recebeu a turnê de comemoração dos 15 anos da banda – eu estava lá com mais três amigos, fãs de longa data.

A trajetória dos Los Hermanos é, no mínimo, interessante. Depois do já referido mega sucesso nacional,  que ganhou o mundo (“Anna Júlia” foi regravada pelo falecido beatle George Harrison), eles não se acomodaram e decidiram ousar.  Desde o segundo álbum (“Bloco do Eu Sozinho”, lançado em 2001) a banda adotou um caráter, digamos, mais experimental para a sua música, surpreendendo o público a cada álbum lançado. A ousadia nas letras e na sonoridade foi arriscada, pela ótica do mercado, mas acabou rendendo bons frutos: uma legião de fãs fiéis de norte a sul do Brasil e o reconhecimento da crítica.

Prova do sucesso da banda foi o que eu vi no show na Arena Amadeu Teixeira,  zona centro-sul da capital amazonense: o êxtase do público manauara (aproximadamente 5 mil pessoas), que vibrou a cada música (até nas mais leves). Lá encontrei gente de todas as tribos e de todas as idades.  Foi curioso perceber que a banda atrai um público tão diverso. Das garotas mais fanáticas com seus gritinhos agudos aos garotos vestindo camisas xadrez ou até mesmo garotos e garotas com visuais mais alternativos. Vi também senhoras e senhores. Enfim, um ambiente bem familiar, só não tão agradável por causa do mormaço do local do show.

O show começou às 23h, com uma hora de atraso e durou cerca de 1h45.  O público cantou, pulou e chorou com as 26 músicas selecionadas dos quatro álbuns da banda. No palco, os integrantes da banda não conversam muito com o público.  Eles permanecem ali, tocando tranquilos, concentrados – penso cá: de onde vem a calma daqueles caras? De todos, o guitarrista, vocalista e compositor Rodrigo Amarante é o que mais interagiu com a plateia – sorriu, pulou, fez caretas, agradeceu, pôs uma rosa, que alguém jogou no palco, na camisa. Enquanto isso, o público cantou todas (sim, todas) as músicas numa só voz, verso por verso, numa devoção que só consigo encontrar similaridade nos fãs da Legião Urbana – modéstia à parte, eu consegui acompanhar mais músicas que muita gente que estava perto de mim.  Isso não significa que eles são blasé. Pelo contrário, o carinho do público era retribuído, sim, ora com um sorriso tímido, ora com um “muito obrigado” tão tímido quanto. No mais, a banda faz a transição entre momentos lúdicos e melancólicos com muita facilidade. E o bloco da família “hermanos” vai atrás.

As reações do público a cada música tocada eram variadas. Quem estava lá pulou e cantou com “Além do que se vê”,  “O vencedor”, “Retrato pra Iaiá” , “Todo carnaval tem seu fim”, “A Outra”, “A flor”, “Cara estranho”, “Condicional”, “Deixa o verão” e “Cadê teu suín-“, esta última tem um jogo de palavras que vale a pena parar e ouvir com atenção; cantou e se emocionou com “O vento”,  “Do sétimo andar”, “Um par”, “Fingi na hora rir”, “Sentimental”, “Casa pré-fabricada”, “O velho e o moço”, “Conversa de botas batidas”, “Primeiro Andar”, “Morena”, que pra mim tem uns dos versos mais bonitos de todas do grupo (“É, morena, tá tudo bem/Sereno é quem tem/A paz de estar em par com Deus”) e “Último romance”, que foi um dos pontos altos do show (foi bonito os metais no último refrão dessa música).

Depois de cinco minutos fora do palco, a banda voltou para o tão esperado “bis”  e encerrou o show com mais cinco músicas, todas do primeiro álbum, “Descoberta”,  “Onze Dias”, “Tenha dó”, “Quem sabe”, com direito a Rodrigo Amarante descendo do palco para cantar com o público, e “Pierrot”. E aqui quero destacar outro grande diferencial dos Los Hermanos: o naipe de metais liderado por Valtecir Bubu (trompete), Mauro Zacharias (trombone) e Marcelo Costa (saxofone). Eles fizeram bonito e protagonizaram momentos inesquecíveis  nas músicas “Último romance”, “Conversa de botas batidas” e na música de encerramento “Pierrot” – nesta com direito a notas agudas de respeito.

A banda vive um recesso por tempo indeterminado desde 2007, embora tenham interrompido esse intervalo para fazerem alguns show especiais e agora, é claro, para a turnê comemorativa. Se essa foi a última vez que os Los Hermanos tocou em solo manauara, não sei, talvez nem eles sabem. Se sim ou se não, quem foi ao show vai ter muita lembrança pra digerir – que nem eu que demorei uma semana para escrever esse texto. Apesar de muitas pessoas terem reclamado (e com razão) de alguns problemas apresentados no local do show (principalmente a acústica), o que prevaleceu nos comentários nas redes sociais foi a satisfação de ter visto de perto uma das bandas mais originais da história da música brasileira. Após o show, vi muita gente sorrindo em paz.

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