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Em Parintins a gente vê o que é amor

Os bois Caprichoso e Garantido, ”donos” da festa, na arena do Bumbódromo, onde duelam todos os anos: a Amazônia pode ser mágica. E é (foto:Portal A Crítica)

Parintins é uma ilha. Uma cidade de interior com ares de cidade grande, cercada de águas por todos os lados. É o segundo município mais populoso do Amazonas, região norte do Brasil. Fica distante 365 km da capital do estado, Manaus. É lá que, todos os anos, desde 1965, no último fim de semana de junho, acontece o Festival Folclórico de Parintins, o maior espetáculo a céu aberto do mundo, onde os bois Caprichoso (das cores azul e branco) e Garantido (vermelho e branco) travam um duelo anual de artes, cores, sons e danças. Informações bem familiares para quem é amazonense, mas pra quem é de outros cantos do Brasil e do mundo, é um universo completamente novo que se descortina em azul e em vermelho.

Das muitas coisas que aprendemos quando viajamos a Parintins, uma delas prega o respeito total pelo adversário (embora as provocações deem a tônica do espetáculo, principalmente nos versos do amo-do-boi e nas toadas de desafio). No Bumbódromo, onde acontece a disputa, quando um boi se apresenta, a galera do outro boi (como são chamadas as torcidas) fica em reverente silêncio – caso contrário perdem pontos. E justamente por ser um item julgado, é parte essencial das apresentações (ou, um show à parte).

”Já conheci outras manifestações culturais brasileiras, mas isso aqui é simplesmente impressionante”, me disse Anna, uma simpática polonesa, de português impecável, enquanto aguardava a apresentação do Caprichoso.

Não tem jeito. Embora quem vá pela primeira vez ensaie uma neutralidade, o amor pelo azul ou pelo vermelho é contagiante. Se o contato com os torcedores apaixonados não balança, o rufar dos tambores da Marujada de Guerra (os ritmistas do Caprichoso ) ou da Batucada (do Garantido) arrebatam os indecisos. Não há quem resista ao som caloroso das toadas – as músicas que embalam as apresentações, contam lendas, curiosidades regionais e sacodem as arquibancadas. É simplesmente uma ópera ao ar livre no coração da Amazônia.

Outra regra de ouro do Festival: o torcedor do Garantido não pronuncia o nome do Caprichoso; nem o torcedor do Caprichoso pronuncia o nome do Garantido. O nome completo do boi adversário é apenas ”boi contrário”. Mas aquele fanatismo de outrora, quando as pessoas, contam os mais antigos, iam às vias de fato por causa do seu boi, ficou para trás. Ficou a rivalidade sadia e a divisão territorial. A cidade é realmente dividida em duas cores, tendo a Catedral de Parintins, dedicada a Nossa Senhora do Carmo, o ponto de referência e harmonia.

Mesmo assim, no lado azul, onde fiquei hospedado, há casas onde a família inteira torce para o Garantido. Da mesma forma, é possível encontrar torcedores azuis do outro lado da ilha, reduto do Garantido. Tudo misturado. Em paz. Conviver bem com o diferente é possível. Mais uma importante lição parintinense.

Aliás, pra quem vai a Parintins com ”espírito de mochileiro”,  é uma alternativa aconselhável se juntar com amigos e alugar um quartinho na casa de um morador local – uma renda extra a quem hospeda; uma experiência riquíssima ao visitante. E ter contato direto com o parintinense é se apaixonar de vez por aquela ilha de tantos encantos. A hospitalidade e a simpatia chegam a ser ”folclóricas”. O enlace é imediato: encostou em um canto, puxou conversa, já vira amigo.

Os três dias de festa não poderiam ter sido mais felizes. Já seria especial por um motivo muito simples: eu estava lá. Senti, vibrei, vivi aquele espetáculo em todas as suas nuances. Um sonho de criança. Embora a cultura do boi-bumbá tenha feito parte da minha infância, só agora, adulto, consegui ver o Festival com os meus próprios olhos pela primeira vez. A primeira de outras vezes, assim espero.

É preciso ir a Parintins pra perceber que aquela epifania que dobra o número de habitantes em um só fim de semana é muito mais que uma festa, muito mais que dois bois de pano, que duas cores. É puro amor brotando de todos os lados. Das toadas tocadas em cada canto da cidade, das belezas naturais ao alcance das mãos, do afetuoso abraço de alguém que conhecemos ao ”tem café, mano, toma um pouco” dito por aquele que nos recebe em sua casa. Na ilha todos são (e viram) parentes. Todos são parte essencial de uma grande confraternização que impulsiona a economia local.

E falando em amor, acho justo destacar que na minha primeira ida à Ilha Encantada, o boi-bumbá Caprichoso se sagrou o campeão da 52° edição, vencendo todas as três noites, em rara harmonia entre opinião dos jurados e do público. No dia seguinte ao último dia de Festival –  quase uma ”segunda-feira de cinzas” – numa cidade que já retomava aos poucos a sua tranquilidade habitual, testemunhei o lado azul de Parintins pulsar de felicidade.

Ter visto pessoalmente o boi que ainda na infância me arrebatou ser campeão coroou essa viagem, que, de quebra, me ressignificou por inteiro. Pois é, sou pé quente.

Na arquibancada do boi-bumbá Caprichoso antes de uma das apresentações: em Parintins não existe essa de imparcialidade. Ou é azul ou é vermelho (foto: arquivo pessoal).

Parintins – Amazonas/ Junho de 2017

Luiz

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Diário Portenho #3: A cidade e as memórias nos passos do tango

Buenos Aires parou para a Marcha dos 41 anos do Golpe Militar na Argentina. A Avenida 9 de Julho foi tomada por bandeiras, artes, discursos (Foto: Luiz G. Melo)

O protesto na Argentina é um espetáculo. Quase uma atração turística à parte. Seja pelo vigor com a qual eles reclamam pelos seus direitos (o que não deixa de ser admirável) ou pela confusão que sempre se arma entre os próprios manifestantes. A paixão com que os portenhos discutem, como discutem e a quantidade de polêmicas que surgem das questões mais sérias, ou das mais casuais, é realmente intrigante. Aqui, futebol, religião e política se discute, sim, em qualquer lugar e a qualquer hora.

Tive a sorte de testemunhar pelo menos duas grandes manifestações em Buenos Aires. Uma delas foi encabeçada por professores que cobravam por uma educação de qualidade e uma maior valorização do ensino artístico nas escolas (nessa tinha até um simpático grupo de crianças marchando e tocando flauta doce, enquanto adultos carregavam cartazes).

A mais suntuosa delas, no entanto, foi no dia 24 de março (feriado local), aniversário de 41 anos do Golpe Militar – o Día Nacional de la Memoria por la Verdad y la Justicia. A cidade, literalmente, parou. A Avenida 9 de Julho foi completamente tomada por uma multidão empunhando cartazes, bandeiras, sem contar a infinidade de discursos estridentes ao microfone e as mais variadas intervenções artísticas.

Organizações de defesa dos direitos humanos, associações civis, partidos políticos e sindicatos realizaram cerimônias para recordar os 30 mil civis assassinados pela (considerada) ditadura mais sanguinária da América do Sul, e exigir que a Justiça acelere os processos contra os autores de crimes contra a humanidade.

Caminhando um pouco, acabei assistindo à apresentação de um imenso grupo de percussão à Olodum. Um toque bem brasileiro em pleno feriado argentino. Assista um trecho:

Em cada esquina, para matar a fome da multidão, havia uma barraquinha de choripán (nada mais do que a mistura das palavras chorizo, linguiça, com pán, pão, um sanduíche bem tradicional na Argentina). O cheiro era inebriante, e devorar um debaixo do sol escaldante de fim de verão é quase um pecado gastronômico.

Buenos Aires respira tango por todos os poros – esquinas, praças, bares. Impossível não ter contato. ARTE: Jair Loaiza Duque (Mercedes Giachetti Galería de Arte – San Telmo)

Como um bom feriado argentino, não só as ruas, mas também os restaurantes, bares e cafés estavam completamente lotados. Consegui almoçar em um simpático restaurante no centro com certa tranquilidade. Quer dizer, nem tanto, pois nas mesas ao meu redor as pessoas assistiam à cobertura da marcha enquanto comentavam energicamente os problemas do país.

Apurei os ouvidos pra tentar pescar alguns comentários da mesa ao lado, onde um senhor de barba grisalha, com um certo ar aristocrático, conversava com um jovem a respeito das polêmicas medidas de austeridade do presidente Maurício Macri. Um assunto que, para um típico argentino, rende café, almoço e jantar.

Não por acaso, pois Macri, durante a campanha eleitoral, pregava a retomada da economia e o crescimento de 1% em 2016, mas teve de se contentar com a queda de 1%. Enquanto isso, entre as mudanças radicais que ele promoveu, estão a abrupta desvalorização do peso argentino e os cortes nos subsídios implantados durante os governos de Néstor e Cristina Kirchner.

Ou seja, promoveu um verdadeiro tarifaço: aumento nas contas do gás, de energia e de água. O combustível também aumentou; e nem o preço do transporte público (um dos mais baratos do continente) escapou do reajuste. Fatores que contribuíram, e muito, para a queda da popularidade de Macri nos últimos meses.

O resultado até agora são as mais variadas categorias de trabalhadores ameaçando e concretizando greves por todo o país, e o argentino médio fazendo malabarismos nos supermercados – como bons dançarinos de tango com seus hipnotizantes movimentos de pernas.

Nem os turistas escapam da inflação. A Buenos Aires atrativa aos bolsos brasileiros ficou para trás – mesmo com o real ainda valorizado. Colocando na ponta do lápis, a maioria dos itens de vestuário, calçados e perfumes, por exemplo, saem o mesmo preço e, às vezes, até mais caro que no Brasil.

Nada de sacolões, portanto, mas, com um bom planejamento (incluindo estar antenado quanto às atrações gratuitas na cidade, que são muitas) dá pra usufruir e muito desse pedaço charmoso da América do Sul, e levar de lá algo que dinheiro nenhum nesse mundo pode comprar: memórias.

Afinal de contas, somos habitados por memórias. E de memórias Buenos Aires entende muito bem. Memórias de uma Evita Perón, que repousa no cemitério da Recoleta, ironicamente cercada por uma aristocracia que a detestava, e, vejam só, ainda hoje vive no imaginário coletivo argentino. Memórias imortalizadas em tangos carregados de pasión. Memórias que ficam e ninguém pode arrancar. Memória de quem sai da Argentina já sentindo saudade de uma terra estrangeira.

Em um dos parques do aristocrático bairro da Recoleta: Te extraño, Argentina! (Foto: Jorge Santos)

Luiz

Buenos Aires/ Março de 2017

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Diário Portenho #2: Dormir cedo em Buenos Aires é um pecado capital

”Boliche” no badalado bairro de Palermo. A regra é clara: a festa só termina quando os primeiros raios solares dão as caras (foto: divulgação)

Buenos Aires não dorme, sofre de uma insônia febril. O relógio bate meia-noite, e enquanto na maioria das cidades brasileiras, muitos já estão refugiados em seus lares (em parte por causa da violência urbana), na capital portenha é a hora que as pessoas saem de casa para jantar, reunir e beber com os amigos, jogar conversa fora. E não me refiro somente aos jovens e adultos solteiros. Famílias inteiras (sim, papais, mamães e crianças), senhoras e senhores (vestidos com elegância) passeiam tranquilamente, e quando são casais, de mãos bem dadas, como eternos namorados. A noite portenha é pra quem ama.

É quase uma unanimidade a opinião de que a noite argentina é uma das mais divertidas e completas de toda a América do Sul. Nela podemos encontrar muitos bares onde, todos os dias, diversas bandas se apresentam. Há ainda numerosas danceterias supermodernas, com música eletrônica e DJs locais e internacionais, sem contar as opções típicas abrangendo a arte nacional, o tango e o folclore da região.

Resumindo: Tem diversão pra todos os gostos e bolsos.

Foi numa dessas andanças noturnas que eu conheci dois simpáticos jovens, Juan* e Pablo*. Dois gays assumidos, bem resolvidos e no alto de seus 22 e 24 anos, respectivamente, independentes financeiramente. Juan me convidou para ir em seu pequeno e confortável apartamento no chique bairro da Recoleta. Recebeu-me com uma taça de vinho e um caloroso abraço. Enquanto ele se arrumava (e muito) para a noitada, Pablo selecionava no notebook uma playlist com o melhor do reggaeton, os hits que sacodem os boliches portenhos (como as baladas são chamadas na Argentina).

Aproveito o clima de descontração para perguntar a Juan sobre como é ser gay em Buenos Aires. ”Aqui as pessoas são respeitosas”, disse. ”Há discriminação, claro, como em todo lugar do mundo; um olhar torto aqui e acolá, mas ninguém agride ninguém por ser quem é”, Pablo complementa.

Ele aproveita o gancho pra me perguntar se o assassinato da travesti Dandara dos Santos, em Fortaleza, é um boato de internet. Respondo que não, é pura verdade. Houve um silêncio congelante na sala. Nem consigo descrever a expressão de assombro que estampou o rosto dos dois. ”Que triste”, Juan comenta com certo esforço, antes de tomar um gole de vinho. ”E o coração?”, pergunto a Juan, pra tentar amenizar o clima. ”Ah, sou muito jovem pra sofrer por amor”, ele responde com uma gargalhada.

Confesso: senti uma profunda vergonha de ter que dizer a eles que a violência contra LGBTs no Brasil ainda é uma realidade cotidiana. Até porque não há guetos na Argentina, tipo um bairro, uma rua ou um point. As pessoas da comunidade LGBT estão por toda a cidade.

Segundo Pablo De Luca, presidente da Câmara de Comercio Gay Lésbica da Argentina, em uma entrevista à CNN em espanhol, entre as vantagens da cidade está o fato de que lá não se fala mais de “tolerância”. “A tolerância implica em uma situação em que alguém está acima do outro. E aqui estamos falando de pessoas que são iguais. É uma sociedade muito respeitosa e isso é perceptível”, disse.

Eu e o imponente Obelisco, cravado no coração de uma das maiores avenidas do mundo, a Nove de Julho, numa meia noite qualquer: o vai e vem de gente não para (foto: acervo pessoal)

Pude comprovar o que ele disse com os meus próprios olhos. Embora os portenhos sejam mais reservados em demonstrar afeto em público, testemunhei duas garotas andando abraçadas, despreocupadas, em um shopping da Recoleta. E na sempre movimentada Avenida Nove de Julho também cheguei a ver dois jovens rapazes andando de mãos dadas, à noite. Aproveitei pra observar a reação das pessoas que passavam por eles. Resultado: Nenhum olhar contrariado, nenhum cochicho, nada. Os transeuntes seguiram os seus caminhos sem se importar com a cena. Se tinha alguém espantado com aquela harmonia toda esse alguém era eu.

Enquanto no Brasil ainda não saímos do ”bê-á-bá” em discussões que envolvem direitos das minorias sexuais, a Argentina é um país que reconhece amplamente os direitos dos LGBTs. Entre as leis aprovadas estão o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, em 2010; a adoção de bebês por casais do mesmo sexo; a mudança de gênero em documentos de identidade, entre outras conquistas.

Enfim, o relógio já marcava quase duas horas da manhã, o que significava que a noite iria ”começar”. Juan e Pablo terminam, finalmente, de se arrumar: os cabelos impecavelmente armados, calça skinny com rasgos milimétricos, maquiagem discreta e um perfume doce no ar. E seguimos à avenida principal para tomar um táxi (com praticamente um policial em cada esquina, é uma caminhada bem segura).

O ”boliche” para qual fomos é situado no jovial bairro de Palermo, onde, eles me dizem, a bebida é liberada e turistas brasileiros ganham um generoso desconto. Nada mal.

A noite é longa, colorida, dançante. Na balada, héteros e gays, juntos, se esbaldam ao som do reggaeton, do pop, da salsa e até mesmo do funk carioca. Lá pelas tantas, um argentino me aborda: ”és brasileiro?”. Diante de minha afirmativa, ele me diz, com uma reverência, ”vocês, brasileiros, são lindos!”, e se afasta de mim erguendo uma taça de chandon. Retribuo a gentileza.

Todos dançam até o amanhecer. A regra é cumprida à risca.

*Nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados.

Grafite em San Martín, cidade situada na área metropolitana de Buenos Aires: respeito pelas diferenças é um assunto que se encontra em outro patamar na Argentina (Foto: Jorge Santos)

Luiz

Buenos Aires/ Março de 2017

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Diário Portenho #1: Onde há fumaça… há um cigarro em chamas

Fachada de um túmulo no cemitério da Recoleta: Os argentinos até se esforçam pra levar uma vida saudável, mas alguns vícios permanecem intactos, entre eles o cigarro (Foto: Jorge Santos)

Assim como em algumas cidades brasileiras, Buenos Aires, pelo menos em tese, não era pra ser exatamente uma cidade “amiga do cigarro”. Isto é, pelo menos no papel está proibido fumar em hospitais, escolas e em áreas fechadas como cinemas, teatros, bancos, restaurantes, boates, bares e em espaços onde há aglomeração de gente.

A lei está vigente desde 2012, mas (como é comum no Brasil) não há controle e é deveras comum ver os portenhos fumando em qualquer lugar. E quando digo qualquer lugar é qualquer lugar mesmo – por exemplo, você para no semáforo de uma movimentada avenida atrás de uma senhorinha muito elegante e, de repente, eclode por cima dela uma inebriante nuvem de fumaça que envolve quase todos os transeuntes que estão por perto (isto quando outro cidadão não resolve contribuir com o tamanho da fumaça). Os não-fumantes nem tampam mais o nariz de tão comum que é cenas como essa.

Ao receber um parente ou amigo estrangeiro, é normal que um argentino organize um ‘asado’ (churrasco) para agradar o visitante (foto: Jorge Santos)

O fato é que os argentinos são excepcionalmente tolerantes com o cigarro. Acostumados a reclamar (verbo que está no sangue dos hermanos), o cigarro não parece fazer parte da imensurável lista de queixas argentinas. É muito comum ver fumantes soltando baforadas nas filas dos ônibus ou andando pelas calçadas do centro, despreocupados e sem receber qualquer olhar de censura. As restrições aos fumantes, assim, é solenemente ignorada por todos.

Aliás, engraçado as noções de argentinos e brasileiros acerca do que faz ou não faz mal.

Enquanto os brasileiros consomem sal à vontade (excessivamente, eu diria) sem a interferência de ninguém, em 2011 os restaurantes de Buenos Aires se comprometeram com o Ministério da Saúde local a retirar os saleiros de suas mesas como uma forma de desestimular o consumo e combater os altos índices de hipertensão arterial no país.

No entanto, as famosas carnes argentinas, por exemplo, não seriam nada sem os cortes que deixam a gordura derreter dentro delas. É impossível separá-la, como em uma picanha. Até porque o churrasco sai da vaca direto para a “parrilla” (um purismo à argentina). Para eles, é praticamente um sacrilégio temperar uma carne de boa qualidade com sal grosso ou assá-la demais, como fazem os brasileiros. A noção de bem passado pra eles é o mal passado pra nós. O que não deixa de ser, a meu ver, um choque cultural delicioso, dessas experiências gastronômicas obrigatórias para quem passa por lá.

Voltando ao fumo, vamos falar de um outro cigarro…

O de maconha (ou a marijuana, como chamam), talvez um item tão fácil de achar quanto um sorvete de dulce de leche, uma das especialidades argentinas. Não à toa, já que o país tem uma política amigável sobre o assunto. Ou seja, jovens e adultos usam de forma recreativa em suas privacidades sem serem incomodados por ninguém.

E, pelo menos aparentemente, a questão do uso pessoal da cannabis não parece despertar um debate tão acalorado como acontece no Brasil. Fuma quem quer e ninguém tem nada a ver com isso, num pragmatismo portenho que se estende a outras pautas comportamentais (explano mais no próximo texto). Contudo, embora seja comum ver pessoas fumando nas ruas e nos parques, não se engane: por lei, continua sendo ilegal comprar, vender, plantar e fumar em locais públicos.

Pelo menos, por aqui, o debate avançou e se desenrolou em 2009. Naquele ano, a Suprema Corte Argentina descriminalizou o uso de maconha em pequenas quantidades, em situação sem ostentação, comércio ou risco para terceiros, abrindo caminho para uma mudança na política de combate às drogas no país a fim de centrar o foco nos traficantes e não nos usuários, e, dessa forma, diminuir os gastos estatais com milhares de casos menores.

A alta corte julgou inconstitucional abrir processos em casos envolvendo o consumo privado da substância ancorada na proteção da intimidade e da autonomia pessoal (previsto no artigo 19 da Constituição). “Todo adulto é livre para tomar decisões sobre o estilo de vida sem a intervenção do Estado”, dizia o documento judicial.

Óbvio que como, dentro de uma democracia, é mais fácil achar vida em outro planeta que consenso sobre um determinado assunto, a decisão gerou críticas e protestos calorosos de familiares de usuários de drogas e nichos conservadores, como autoridades ligadas à Igreja Católica – um setor que desde o fim da Ditadura Militar não tem tanto prestígio assim no país. Contudo, mesmo com os esperados protestos, a decisão da corte foi facilmente tragada (sem trocadilho) pela cultura local.

No final das contas, assim caminha a sociedade argentina: cada um na sua – com ou sem cigarro entre os dedos.

Calçadão de bares e restaurantes no badalado bairro de Palermo: nenhum saleiro à vista (Foto: Jorge Santos)

Luiz

Buenos Aires/Março de 2017

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Diário da Venezuela #3: “¡adiós!” nunca, “¡hasta luego!“ é o suficiente

Barco que nos transportou à ilhota de Coche: os caminhos do mar são, curiosamente, doces. Foto: Diógenes Souza

Conversar com um taxista é uma das formas mais baratas de conhecer um lugar a fundo. Eu e meus companheiros de viagem (dois fotógrafos de mão cheia) conhecemos um, muito simpático, extrovertido e falastrão, chamado J.H – filho de um peruano que morou muitos anos no Brasil e, segundo meus amigos, fala um português convincente.

Foi com ele a maioria das nossas corridas de táxi pela Isla Margarita (distante 331 quilômetros de Caracas), e dele recebemos uma “aula magna” sobre a atual realidade política, social e econômica da Venezuela, bem como algumas curiosidades acerca da cultura e dos costumes venezuelanos.

Pele oliva, baixa estatura e enérgico, J.H é o oposto do taxista margaritenho comum – introvertidos em sua maioria, de modo que comunicam apenas o necessário (o preço das corridas, prioritariamente), mesmo quando você puxa assunto.

Em nossas andanças, conhecemos muitos taxistas, bem como vários modelos vintages de carro; alguns caindo aos pedaços, literalmente; outros sem taxímetro nem velocímetro, mas potentes e devoradores de gasolina – o que não é nenhum problema em um país onde, com uma cédula, se enche o tanque de um carro.

Há, na ilha, linhas de micro-ônibus que apanham passageiros em vários pontos (uns abrigos feitos de pedra), mas o táxi é de longe o meio de transporte mais rápido e prático.

O bom é que as corridas são baratas e podem ser negociadas antes do embarque. Os preços mudam pouco, na verdade. Os taxistas cobram, praticamente, o mesmo valor de dia, e um pouco mais caro à noite, quase como um acordo entre cavalheiros para que todos garantam a arepa de cada dia (uma iguaria de massa de pão feito com milho moído ou com farinha de milho pré-cozido, popular e tradicional na Venezuela).

Eu e meus amigos chegamos a uma conclusão: nunca andamos tanto de táxi em nossas vidas. Nessas aventuras, conhecemos alguns lugares de uma ponta a outra da Isla Margarita a bordo de verdadeiros exemplares vintages de táxis. Voltamos no tempo.

De todos os taxistas que conhecemos, apenas um (além do J.H) se destacou por fugir do trivial e entrar em um assunto delicado por lá: a política.

Apoiador entusiasta do atual presidente Nicolás Maduro, o homem, de voz arrastada, rasgou-se em elogios ao ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, disse que os partidos de direita eram prepotentes e que, se dessem dinheiro a ele, mataria todos os direitistas, um a um. Uma ameaça nada convincente partindo de um senhor bonachão de cabelos brancos que, aparentemente, leva uma vida normal naquela ilha que vive apinhada de turistas o ano todo.

Enfim, anda-se tanto de táxi em Isla Margarita que fidelizar com um taxista durante a estadia é um caminho natural. Foi assim que conhecemos J.H, o nosso maior achado, um homem sem diploma, mas um virado por natureza – entende de mecânica de carro e construção civil, mas exerce o ofício de taxista pra ganhar a vida; peruano de nascimento, venezuelano de coração; casado e pai de quatro niños, dois dele e dois da atual esposa, com quem – ele nos confidencia – vive uma relação aberta. Uma modern family à moda latina.

A certa altura da conversa sobre comportamento, meu amigo perguntou qual é a receita para conquistar o coração de uma mulher venezuelana, considerada umas das mais bonitas do mundo (se levarmos em consideração a quantidade de misses mundo que saíram de lá).

“Mulheres venezuelanas apreciam homens extrovertidos”, diz J.H em tom professoral, “os tímidos não têm vez”.

Hábitos como sair pra dançar e paquerar, por exemplo, não são tabus na Venezuela. Nas noites caribenhas, os jovens venezuelanos costumam se esbaldar ao som da salsa, da rumba e do reggaeton, embora o rap, o hip-hop e o pop norte-americano sejam muito presentes na playlist dos adolescentes.

Havia muito mais casas noturnas na ilha há alguns anos atrás, mas a maioria foi fechada pelo governo como uma forma de coibir a prostituição e o tráfico de drogas. Na prática, houve uma diminuição considerável (o que explica, em parte, a vida noturna sonolenta de Margarita), mas os lugares destinados a encontros fortuitos ainda existem, embora funcionem de uma forma discretíssima.

Mesmo com todas essas, digamos assim, liberalidades, o Catolicismo tem forte influência no país, e é fácil perceber a religiosidade do povo venezuelano, pois os santos da igreja romana estão por todas as partes: nas lojas, nos supermercados, nas ruas, nos jornais locais. Dentre todos, a Virgem do Vale, padroeira da ilha, reina absoluta na devoção dos fiéis margaritenhos. E apesar de encontrarmos igrejas evangélicas com certa facilidade (principalmente da linha doutrinária pentecostal), os católicos são maioria absoluta.

Os feriados católicos são respeitados à risca, mas eles também têm um carnaval próprio, quando as mulheres desfilam nas ruas em trajes pequenos. Fora desse momento, vestes curtas só na praia, e é muito estranho aos olhos dos venezuelanos o hábito dos turistas brasileiros irem ao shopping com roupas praianas.

É interessante notar um certo patriotismo no ar, principalmente por parte dos adultos – camisas e bonés com as cores da bandeira nacional são itens comuns do vestuário. Comum também é o uso de uniformes de equipes locais de beisebol (uma paixão nacional) e a camisa dos “vinotintos”, como é carinhosamente chamada a seleção venezuelana de futebol, esporte que aos poucos vem conquistando corações por lá.

O esporte, aliás, é uma das poucas atividades que unem um país polarizado politicamente. A insatisfação com o atual governo é grande, mas a oposição nas ruas é discreta.

Enquanto manifestações explodem nas ruas de Caracas, no caminho que trilhamos até Isla Margarita o que mais vimos foram resquícios das últimas eleições presidenciais nos muros, e uma constatação até previsível: encontramos muito mais propagandas do atual presidente em todos os cantos. Em todo o nosso roteiro, vimos apenas uma propaganda do opositor mais conhecido, Henrique Capriles, cujo rosto estava discretamente desenhado na mureta de uma residência na ilhota de Coche.

“Apesar de todas as dificuldades, sou feliz por viver aqui”, conta J.H, destacando como aspecto positivo o fato de que, na Venezuela, a carga tributária é de 16%, uma das mais baixas da América Latina. Além do mais, água, energia, gasolina e moradia (aluguel) são consideravelmente em conta. Isso, porém, não descarta os planos de J.H um dia se mudar para outro país que lhe ofereça mais oportunidades para realizar os seus sonhos, entre eles, se formar engenheiro. “Penso em me mudar para a Colômbia, ou quem sabe para o Brasil”, nos conta.

Na nossa última corrida (com direito a selfie), ao nos despedirmos de J.H, nos despedimos, de uma forma simbólica, daquela ilha paradisíaca, habitada por um povo batalhador, sofredor, feliz. Qual o brasileiro. Somos hermanos e não sabemos. Ou insistimos em não saber.

E, assim, deixamos esse paraíso sul-americano com a alma salpicada de saudades, de encantos e de paixões, como as escamas vermelhas que o sol poente estampa no mar caribenho.

Na bagagem trouxemos apenas uma certeza:“¡adiós!” jamais. Um ¡hasta luego! basta.

¡Hasta luego, Isla Margarita! Foto: Diógenes Souza

Luiz

Essa reportagem também foi publicada no jornal A Crítica, caderno Bem Viver (página BV11), no dia 14 de fevereiro de 2016; e no Portal A Crítica (AQUI)

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Diário da Venezuela #2: fragmentos daquela que já foi a “Meca” do free shop

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As águas tranquilas de Playa La Punta, em Isla Coche, nem de longe lembram que a Venezuela está mergulhada numa profunda crise econômica, política e social. Foto: Diógenes Souza

Dizem que o sol (símbolo da beleza, da prosperidade e do otimismo) brilha mais de 300 dias por ano na Isla Margarita, ilha venezuelana localizada no Mar do Caribe (distante 331 quilômetros de Caracas). Isso, combinado com as suas belas praias, é um motivo de orgulho aos habitantes do lugar, ao mesmo tempo em que é a mola propulsora da economia local.

A ilha caribenha se destaca não só por suas atrações naturais, como também pelo fato de ser uma área livre de impostos, apresentando preços mais baixos do que os encontrados no continente sul-americano. Por isso, o comércio é bastante movimentado, mas nem de longe lembra aquela que já foi o “paraíso das compras”, a “Meca” dos desejos capitalistas da classe média brasileira. A causa é bem conhecida de outras gerações do nosso país: inflação galopante.

Por conta disso, a maioria dos produtos, incluindo os itens mais vendidos (roupas, eletrodomésticos, queijos, chocolates e bebidas), não são tabelados e mudam de valor quase que diariamente.

Nos supermercados (ou nos bodegóns), sobra espaço nas prateleiras e faltam produtos básicos, como açúcar, frango (ou como chamam por lá, pollo, ingrediente abundante na culinária venezuelana) ou até mesmo rolos de papel higiênico – a recomendação para que turistas levem os seus na mala deve ser levada muito a sério.

Claro, gastando um pouco de sola de sapato, é possível encontrar produtos de grife mais em conta que no Brasil. Mesmo assim, os preços de alguns itens, principalmente nos shoppings, se colocarmos na ponta do lápis, são os mesmos ou diferem poucos centavos dos preços praticados no comércio brasileiro (em parte pela desvalorização do real nos últimos meses).

Se o desejo consumista do visitante for mesmo insaciável, é preciso garimpar (e muito) no centro de Porlamar (cidade mais povoada da Isla Margarita, situada na região sudeste), ou no centro comercial de Juan Griego (pequena cidade ao norte da ilha), e ter muita paciência para driblar as toneladas de produtos piratas.

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Bolívares comprados no câmbio paralelo: nesse montante há mais que o triplo do salário mínimo de um trabalhador venezuelano, mas a fortuna é ilusória, pois o dragão da inflação devora muitas dessas cédulas na compra de um simples produto.

Antes, vale uma explicação: a taxa de câmbio na Venezuela é controlada pelo governo. Em outras palavras, a taxa oficial funciona assim: 1 dólar vale 2,1 bolívares fuertes. Porém ninguém usa essa taxa. Os venezuelanos possuem um limite para a compra de dólares ou de euros e, por isso, os compram no mercado paralelo.

Nas ruas, nas lojas dos centros comerciais ou com os cambistas na fronteira Brasil-Venezuela e afins, é possível trocar 1 real por até 155 bolívares (dependendo da cotação, que sobe e desce ao sabor da hiperinflação que tem castigado a Venezuela nos últimos tempos).

Para se ter uma ideia, um trabalhador médio venezuelano ganha um salário mínimo de aproximadamente 9.649 bolívares. É possível ganhar quase o dobro em um minuto trocando uma nota de 100 reais no “câmbio paralelo”.

Cambiar por fora é ilegal e pode resultar em cadeia, mas essa é uma daquelas leis que na prática viram letra morta. Prova disso é que em Pacaraima, município brasileiro localizado no estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela, é rotineiro cambistas se oferecerem para comprar reais de turistas brasileiros em plena luz do dia, debaixo do nariz dos guardas venezuelanos (armados até os dentes).

Trocar um punhado de reais por bolívares pode realizar aquele sonho de enriquecimento repentino, mas tudo não passa de uma doce ilusão. Dos bolos quase intermináveis de cédulas, que exigem uma sacola ou uma mochila extra, um bom bocado delas se vai na compra de um simples produto. Sem contar que, na ilha, os preços são diferenciados para turistas e cidadãos margaritenhos (para maior controle, os vendedores sempre pedem a permissão de entrada no país, dada na fronteira, ou a carteira de identidade antes de emitir nota fiscal). E consumir algo por menos de 1.000 bolívares é como achar agulha no palheiro.

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Mesmo em crise econômica feroz, ainda é possível comer com um rei nababo em Isla Margarita pagando muito pouco. Foto: Karen Vasconcelos

A crise econômica é palpável. Ao atravessar a fronteira da Venezuela, o que mais se vê são filas quase intermináveis em frente aos supermercados para comprar alimentos e produtos básicos. “Se eu quiser comprar frango para a minha família, tenho que dormir na fila do supermercado”, conta J.H, um simpático taxista que eu conheci na ilha. Ele explicou que, por conta do racionamento da cesta básica e de produtos de higiene e limpeza, é feito um rodízio para a compra desses produtos em determinados dias da semana, de acordo com o último número da identidade.

As filas parecem assustadoras à atual geração de brasileiros, mas é familiar para quem viveu nos anos 1980, quando José Sarney era presidente e o Brasil voltava aos poucos à democracia em meio a uma inflação selvagem.

A Isla Margarita não está isenta da turbulência inflacionária. Até os turistas são submetidos a um limite de compra por itens nos supermercados (não é permitido comprar mais de 10). Assim, de alguma forma, os visitantes acabam sentindo na pele o estilo de vida venezuelano.

Uma emulação, claro, pois muitos dos lazeres que os visitantes desfrutam são inacessíveis à maioria da população – quase não se vê um venezuelano curtindo a Isla Coche, por exemplo, uma ilhota com diversas atrações, distante uma hora de barco de Margarita, e destino quase obrigatório.

Se a ilha não é mais o “paraíso das muambas” de outrora, ainda continua sendo um lugar em que se come bem sem que isso pese no bolso. Nos restaurantes mais finos, pode-se apreciar um prato sem passar dos 5 mil bolívares. E aos que não querem se lançar em aventuras culinárias (tem muita fritura e temperos fortes na comida local, capazes de causar um estranhamento em estômagos estrangeiros), há muitos fast-foods internacionais nos shoppings.

No geral, nos diversos restaurantes localizados nas praias, nas ruas ou nos shoppings, é possível comer como um rei nababo pagando muito pouco. Uma experiência deslumbrante e, ao mesmo tempo, um azar todo nosso que entramos numa profunda depressão “pós-prato” ao voltarmos de viagem.

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Menino brinca na beira da Playa La Punta, em Isla Coche, uma ilhota dominada por turistas: muitas de suas atrações são praticamente inacessíveis ao venezuelano comum. Foto: Diógenes Souza

Luiz

Essa reportagem também foi publicada no jornal A Crítica, caderno Bem Viver (página BV11), no dia 14 de fevereiro de 2016; e no Portal A Crítica (AQUI)

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Diário da Venezuela #1: um refúgio paradisíaco na pátria Bolivariana

Quando de repente nos sentimos pequenos diante do quadro que Deus pintou - Playa Parguito - Margarita - Venezuela

Playa Parguito (situado no extremo nordeste da Isla Margarita): beleza pura. Foto: Jorge Neto

A paráfrase “o que acontece em Margarita, fica em Margarita” funcionaria bem na magnífica ilha venezuelana (localizada no Mar do Caribe, distante a menos de meia hora de voo de Caracas, capital da Venezuela) se esta não dormisse, como os grandes centros culturais do mundo. Mas não. O dia a dia da ilha se assemelha, e muito, à rotina de qualquer cidade interiorana brasileira. Ou seja: Margarita dorme cedo e acorda tarde, mesmo em alta temporada.

Em miúdos, os estabelecimentos comerciais abrem por volta das 10h da manhã e começam a fechar às 20h (as praças de alimentação dos shoppings costumam funcionar até as 22h).

A Isla Margarita tem pouco mais de 400 mil habitantes, mas a população da ilha cresce bastante nos períodos de férias e em feriados prolongados. Mesmo assim, a tranquilidade reina. Na foto, o Castillo San Carlos de Borromeo, em Pampatar.

A Isla Margarita não é uma Las Vegas sul-americana, como muitos pensam. Esqueça aquela ideia de uma vida noturna pujante, com multidões caminhando nas calçadas em ritmo frenético, em meio a abundantes fachadas de neon, com ofertas de bares e restaurantes pra todos os lados. De dia e de noite, exceto em Porlamar, cidade localizada no centro da ilha, a tranquilidade das ruas prevalece (à noite, então, são escuras e desertas, portanto, perigosas a turistas).  Isso combinada com a internet escassa e lenta, faz do lugar um perfeito refúgio das agitações urbanas. Um retiro para a alma, o corpo e a mente.

A ilha tem uma rica história, que começou com a chegada de Cristóvão Colombo, em 1498, no século XV, quando os índios guaiqueries habitavam o lugar. Os colonizadores europeus logo se encantaram com a quantidade de pérolas que encontraram no local (que rendeu à ilha o apelido “Pérola do Caribe”), e se apressaram em fortificar a nova possessão para protegê-la dos ataques de piratas, dando início à colonização, que teve reflexo direto no idioma. Parte dessas construções segue preservada até os dias de hoje, como o Fortín de la Galera, localizado em Juan Griego (que na realidade é uma cidadela, e não um bairro, como muitos pensam).

Outra construção que se destaca é o Castillo San Carlos de Borromeo, em Pampatar (sudeste da ilha), cujas paredes de pedra exalam histórias, e onde há um poço dos desejos, onde deixei uma moedinha para o meu amor passar – e creio que desejos semelhantes estão impressos na tonelada de cédulas e moedas que repousam no fundo desse poço.

A região desempenhou um papel importante na história da Venezuela no começo do século 19, quando se tornou a primeira parte do território venezuelano independente da Espanha. Foi lá, inclusive, que Simón Bolívar (figura histórica importante, cuja imagem pode ser encontrada em qualquer esquina) foi declarado comandante em chefe de todo o país, em 1816, e iniciou a campanha que levaria à libertação de Colômbia, Equador, Peru e Bolívia do domínio espanhol.

Mesmo com tantas narrativas célebres pra contar, são as praias de águas cristalinas ora azuladas, ora esverdeadas, que monopolizam a atenção dos visitantes (“turistas não ligam para a história daqui”, nos disse um simpático taxista – uma triste constatação). Há, na ilha, cerca de 82 belas praias ao longo de mais de 170 quilômetros de litoral, o que a torna, naturalmente, um dos principais destinos turísticos da Venezuela. Tem pra todos os gostos: praias grandes e pequenas, com e sem ondas, profundas e rasas, cheias e vazias.

Boa parte dos turistas (a maioria esmagadora de brasileiros) costuma visitar a praia El Yaque, ideal para a prática de windsurfe (um esporte radical que eu tentei praticar, sem sucesso considerável). No entanto, existem outras praias bastante famosas na ilha, como a Parguito (que tem um monte que nos proporciona uma visão espetacular), El Agua, (a de mais fácil acesso, talvez, e uma das mais procuradas) e Guacuco (a que achei a mais tranquila e a que mais massageou minh’alma).

Foi em Playa El Agua o meu primeiro contato sensorial com o mar. E a primeira vez, não poderia deixar de ser, eu nunca esquecerei. Como um bom “noob”, tomei “uns belos caldos”, uma expressão praiana que significa ser arrastado ou perder o equilíbrio por causa de uma onda forte, que faz o banhista beber um pouco de água. Mas logo peguei a manha e voltei a ser uma criança, que não se cansa de uma diversão recém-descoberta.

E lá estava eu, surfando sem prancha, caindo, levantando-se, embolando-se nas águas numa profusão de pernas e braços, voando na crista da onda. Compreendendo de uma maneira profunda o porquê do mar inspirar tanto os poetas – estando nele ou de frente pra ele. E lembrando, de repente e de coração grato, os versos de Dorival Caymmi: “É doce morrer no mar/Nas ondas verdes do mar”.

Peço uma breve licença ao poeta: doce mesmo é voar no mar.

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Voando em Playa El Agua, localizada no norte da Isla Margarita. Foto: Diógenes Souza

Luiz

Essa reportagem também foi publicada no jornal A Crítica, caderno Bem Viver (página BV11), no dia 14 de fevereiro de 2016; e no Portal A Crítica (AQUI)

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