Aos irmãos chechenos

Há muitos anos atrás fiquei sensibilizado ao tomar conhecimento (por meio da ong Missão Portas Abertas) da perseguição sofrida por cristãos, em pleno século XXI, em países em que são minoria – na seção ”cartas do campo”, aqui do blog, há vários relatos. Perseguição leia-se torturas, assassinatos, prisões arbitrárias, expulsões de casa, cidadania mutilada etc. Causa principal: o fundamentalismo da religião majoritária do país. E é justamente esse mesmo fundamentalismo que vem respaldando atrocidades cometidas contra gays na Chechênia, uma das 22 repúblicas que integram a Rússia, país menor que o Estado de Sergipe.

Trata-se de mais um caso em que religião é usada para fins políticos malignos, como explana bem essa matéria da SuperInteressante sobre o assunto (vale a leitura). Friso, não é uma questão de ”demonização” da religião A ou B. A praga que deve ser combatida com veemência é o fundamentalismo religioso, que encurta o caminho entre o discurso e a ação de ódio; que embasa atrocidades com o próximo-diferente-de-mim; que usa Deus como costa larga para as mais variadas canalhices.

Desde que o caso veio à tona com ares de boato de internet, grupos tem se mobilizado para denunciar os crimes na Chechênia. Assinei a petição do Avaaz. ”Ah, é só uma petição on-line”, talvez alguém pense. Bem, a gente luta com as armas que tem. É melhor que a apatia.

Se um dia eu me sensibilizei com o sofrimento de irmãos da fé que moram a quilômetros de distância de mim, por que não me sensibilizaria com o sofrimento dos meus irmãos chechenos? Questão de coerência.

O endereço da petição está AQUI. Não custa nada.

Em alguns países houve protesto contra os campos de concentração na Chechênia. No detalhe, jovem carrega cartaz em frente à Embaixada Russa em Lisboa. Foto: Joana Santos.

Luiz

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Diário Portenho #3: A cidade e as memórias nos passos do tango

Buenos Aires parou para a Marcha dos 41 anos do Golpe Militar na Argentina. A Avenida 9 de Julho foi tomada por bandeiras, artes, discursos (Foto: Luiz G. Melo)

O protesto na Argentina é um espetáculo. Quase uma atração turística à parte. Seja pelo vigor com a qual eles reclamam pelos seus direitos (o que não deixa de ser admirável) ou pela confusão que sempre se arma entre os próprios manifestantes. A paixão com que os portenhos discutem, como discutem e a quantidade de polêmicas que surgem das questões mais sérias, ou das mais casuais, é realmente intrigante. Aqui, futebol, religião e política se discute, sim, em qualquer lugar e a qualquer hora.

Tive a sorte de testemunhar pelo menos duas grandes manifestações em Buenos Aires. Uma delas foi encabeçada por professores que cobravam por uma educação de qualidade e uma maior valorização do ensino artístico nas escolas (nessa tinha até um simpático grupo de crianças marchando e tocando flauta doce, enquanto adultos carregavam cartazes).

A mais suntuosa delas, no entanto, foi no dia 24 de março (feriado local), aniversário de 41 anos do Golpe Militar – o Día Nacional de la Memoria por la Verdad y la Justicia. A cidade, literalmente, parou. A Avenida 9 de Julho foi completamente tomada por uma multidão empunhando cartazes, bandeiras, sem contar a infinidade de discursos estridentes ao microfone e as mais variadas intervenções artísticas.

Organizações de defesa dos direitos humanos, associações civis, partidos políticos e sindicatos realizaram cerimônias para recordar os 30 mil civis assassinados pela (considerada) ditadura mais sanguinária da América do Sul, e exigir que a Justiça acelere os processos contra os autores de crimes contra a humanidade.

Caminhando um pouco, acabei assistindo à apresentação de um imenso grupo de percussão à Olodum. Um toque bem brasileiro em pleno feriado argentino. Assista um trecho:

Em cada esquina, para matar a fome da multidão, havia uma barraquinha de choripán (nada mais do que a mistura das palavras chorizo, linguiça, com pán, pão, um sanduíche bem tradicional na Argentina). O cheiro era inebriante, e devorar um debaixo do sol escaldante de fim de verão é quase um pecado gastronômico.

Buenos Aires respira tango por todos os poros – esquinas, praças, bares. Impossível não ter contato. ARTE: Jair Loaiza Duque (Mercedes Giachetti Galería de Arte – San Telmo)

Como um bom feriado argentino, não só as ruas, mas também os restaurantes, bares e cafés estavam completamente lotados. Consegui almoçar em um simpático restaurante no centro com certa tranquilidade. Quer dizer, nem tanto, pois nas mesas ao meu redor as pessoas assistiam à cobertura da marcha enquanto comentavam energicamente os problemas do país.

Apurei os ouvidos pra tentar pescar alguns comentários da mesa ao lado, onde um senhor de barba grisalha, com um certo ar aristocrático, conversava com um jovem a respeito das polêmicas medidas de austeridade do presidente Maurício Macri. Um assunto que, para um típico argentino, rende café, almoço e jantar.

Não por acaso, pois Macri, durante a campanha eleitoral, pregava a retomada da economia e o crescimento de 1% em 2016, mas teve de se contentar com a queda de 1%. Enquanto isso, entre as mudanças radicais que ele promoveu, estão a abrupta desvalorização do peso argentino e os cortes nos subsídios implantados durante os governos de Néstor e Cristina Kirchner.

Ou seja, promoveu um verdadeiro tarifaço: aumento nas contas do gás, de energia e de água. O combustível também aumentou; e nem o preço do transporte público (um dos mais baratos do continente) escapou do reajuste. Fatores que contribuíram, e muito, para a queda da popularidade de Macri nos últimos meses.

O resultado até agora são as mais variadas categorias de trabalhadores ameaçando e concretizando greves por todo o país, e o argentino médio fazendo malabarismos nos supermercados – como bons dançarinos de tango com seus hipnotizantes movimentos de pernas.

Nem os turistas escapam da inflação. A Buenos Aires atrativa aos bolsos brasileiros ficou para trás – mesmo com o real ainda valorizado. Colocando na ponta do lápis, a maioria dos itens de vestuário, calçados e perfumes, por exemplo, saem o mesmo preço e, às vezes, até mais caro que no Brasil.

Nada de sacolões, portanto, mas, com um bom planejamento (incluindo estar antenado quanto às atrações gratuitas na cidade, que são muitas) dá pra usufruir e muito desse pedaço charmoso da América do Sul, e levar de lá algo que dinheiro nenhum nesse mundo pode comprar: memórias.

Afinal de contas, somos habitados por memórias. E de memórias Buenos Aires entende muito bem. Memórias de uma Evita Perón, que repousa no cemitério da Recoleta, ironicamente cercada por uma aristocracia que a detestava, e, vejam só, ainda hoje vive no imaginário coletivo argentino. Memórias imortalizadas em tangos carregados de pasión. Memórias que ficam e ninguém pode arrancar. Memória de quem sai da Argentina já sentindo saudade de uma terra estrangeira.

Em um dos parques do aristocrático bairro da Recoleta: Te extraño, Argentina! (Foto: Jorge Santos)

Luiz

Buenos Aires/ Março de 2017

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Diário Portenho #2: Dormir cedo em Buenos Aires é um pecado capital

”Boliche” no badalado bairro de Palermo. A regra é clara: a festa só termina quando os primeiros raios solares dão as caras (foto: divulgação)

Buenos Aires não dorme, sofre de uma insônia febril. O relógio bate meia-noite, e enquanto na maioria das cidades brasileiras, muitos já estão refugiados em seus lares (em parte por causa da violência urbana), na capital portenha é a hora que as pessoas saem de casa para jantar, reunir e beber com os amigos, jogar conversa fora. E não me refiro somente aos jovens e adultos solteiros. Famílias inteiras (sim, papais, mamães e crianças), senhoras e senhores (vestidos com elegância) passeiam tranquilamente, e quando são casais, de mãos bem dadas, como eternos namorados. A noite portenha é pra quem ama.

É quase uma unanimidade a opinião de que a noite argentina é uma das mais divertidas e completas de toda a América do Sul. Nela podemos encontrar muitos bares onde, todos os dias, diversas bandas se apresentam. Há ainda numerosas danceterias supermodernas, com música eletrônica e DJs locais e internacionais, sem contar as opções típicas abrangendo a arte nacional, o tango e o folclore da região.

Resumindo: Tem diversão pra todos os gostos e bolsos.

Foi numa dessas andanças noturnas que eu conheci dois simpáticos jovens, Juan* e Pablo*. Dois gays assumidos, bem resolvidos e no alto de seus 22 e 24 anos, respectivamente, independentes financeiramente. Juan me convidou para ir em seu pequeno e confortável apartamento no chique bairro da Recoleta. Recebeu-me com uma taça de vinho e um caloroso abraço. Enquanto ele se arrumava (e muito) para a noitada, Pablo selecionava no notebook uma playlist com o melhor do reggaeton, os hits que sacodem os boliches portenhos (como as baladas são chamadas na Argentina).

Aproveito o clima de descontração para perguntar a Juan sobre como é ser gay em Buenos Aires. ”Aqui as pessoas são respeitosas”, disse. ”Há discriminação, claro, como em todo lugar do mundo; um olhar torto aqui e acolá, mas ninguém agride ninguém por ser quem é”, Pablo complementa.

Ele aproveita o gancho pra me perguntar se o assassinato da travesti Dandara dos Santos, em Fortaleza, é um boato de internet. Respondo que não, é pura verdade. Houve um silêncio congelante na sala. Nem consigo descrever a expressão de assombro que estampou o rosto dos dois. ”Que triste”, Juan comenta com certo esforço, antes de tomar um gole de vinho. ”E o coração?”, pergunto a Juan, pra tentar amenizar o clima. ”Ah, sou muito jovem pra sofrer por amor”, ele responde com uma gargalhada.

Confesso: senti uma profunda vergonha de ter que dizer a eles que a violência contra LGBTs no Brasil ainda é uma realidade cotidiana. Até porque não há guetos na Argentina, tipo um bairro, uma rua ou um point. As pessoas da comunidade LGBT estão por toda a cidade.

Segundo Pablo De Luca, presidente da Câmara de Comercio Gay Lésbica da Argentina, em uma entrevista à CNN em espanhol, entre as vantagens da cidade está o fato de que lá não se fala mais de “tolerância”. “A tolerância implica em uma situação em que alguém está acima do outro. E aqui estamos falando de pessoas que são iguais. É uma sociedade muito respeitosa e isso é perceptível”, disse.

Eu e o imponente Obelisco, cravado no coração de uma das maiores avenidas do mundo, a Nove de Julho, numa meia noite qualquer: o vai e vem de gente não para (foto: acervo pessoal)

Pude comprovar o que ele disse com os meus próprios olhos. Embora os portenhos sejam mais reservados em demonstrar afeto em público, testemunhei duas garotas andando abraçadas, despreocupadas, em um shopping da Recoleta. E na sempre movimentada Avenida Nove de Julho também cheguei a ver dois jovens rapazes andando de mãos dadas, à noite. Aproveitei pra observar a reação das pessoas que passavam por eles. Resultado: Nenhum olhar contrariado, nenhum cochicho, nada. Os transeuntes seguiram os seus caminhos sem se importar com a cena. Se tinha alguém espantado com aquela harmonia toda esse alguém era eu.

Enquanto no Brasil ainda não saímos do ”bê-á-bá” em discussões que envolvem direitos das minorias sexuais, a Argentina é um país que reconhece amplamente os direitos dos LGBTs. Entre as leis aprovadas estão o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, em 2010; a adoção de bebês por casais do mesmo sexo; a mudança de gênero em documentos de identidade, entre outras conquistas.

Enfim, o relógio já marcava quase duas horas da manhã, o que significava que a noite iria ”começar”. Juan e Pablo terminam, finalmente, de se arrumar: os cabelos impecavelmente armados, calça skinny com rasgos milimétricos, maquiagem discreta e um perfume doce no ar. E seguimos à avenida principal para tomar um táxi (com praticamente um policial em cada esquina, é uma caminhada bem segura).

O ”boliche” para qual fomos é situado no jovial bairro de Palermo, onde, eles me dizem, a bebida é liberada e turistas brasileiros ganham um generoso desconto. Nada mal.

A noite é longa, colorida, dançante. Na balada, héteros e gays, juntos, se esbaldam ao som do reggaeton, do pop, da salsa e até mesmo do funk carioca. Lá pelas tantas, um argentino me aborda: ”és brasileiro?”. Diante de minha afirmativa, ele me diz, com uma reverência, ”vocês, brasileiros, são lindos!”, e se afasta de mim erguendo uma taça de chandon. Retribuo a gentileza.

Todos dançam até o amanhecer. A regra é cumprida à risca.

*Nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados.

Grafite em San Martín, cidade situada na área metropolitana de Buenos Aires: respeito pelas diferenças é um assunto que se encontra em outro patamar na Argentina (Foto: Jorge Santos)

Luiz

Buenos Aires/ Março de 2017

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Diário Portenho #1: Onde há fumaça… há um cigarro em chamas

Fachada de um túmulo no cemitério da Recoleta: Os argentinos até se esforçam pra levar uma vida saudável, mas alguns vícios permanecem intactos, entre eles o cigarro (Foto: Jorge Santos)

Assim como em algumas cidades brasileiras, Buenos Aires, pelo menos em tese, não era pra ser exatamente uma cidade “amiga do cigarro”. Isto é, pelo menos no papel está proibido fumar em hospitais, escolas e em áreas fechadas como cinemas, teatros, bancos, restaurantes, boates, bares e em espaços onde há aglomeração de gente.

A lei está vigente desde 2012, mas (como é comum no Brasil) não há controle e é deveras comum ver os portenhos fumando em qualquer lugar. E quando digo qualquer lugar é qualquer lugar mesmo – por exemplo, você para no semáforo de uma movimentada avenida atrás de uma senhorinha muito elegante e, de repente, eclode por cima dela uma inebriante nuvem de fumaça que envolve quase todos os transeuntes que estão por perto (isto quando outro cidadão não resolve contribuir com o tamanho da fumaça). Os não-fumantes nem tampam mais o nariz de tão comum que é cenas como essa.

Ao receber um parente ou amigo estrangeiro, é normal que um argentino organize um ‘asado’ (churrasco) para agradar o visitante (foto: Jorge Santos)

O fato é que os argentinos são excepcionalmente tolerantes com o cigarro. Acostumados a reclamar (verbo que está no sangue dos hermanos), o cigarro não parece fazer parte da imensurável lista de queixas argentinas. É muito comum ver fumantes soltando baforadas nas filas dos ônibus ou andando pelas calçadas do centro, despreocupados e sem receber qualquer olhar de censura. As restrições aos fumantes, assim, é solenemente ignorada por todos.

Aliás, engraçado as noções de argentinos e brasileiros acerca do que faz ou não faz mal.

Enquanto os brasileiros consomem sal à vontade (excessivamente, eu diria) sem a interferência de ninguém, em 2011 os restaurantes de Buenos Aires se comprometeram com o Ministério da Saúde local a retirar os saleiros de suas mesas como uma forma de desestimular o consumo e combater os altos índices de hipertensão arterial no país.

No entanto, as famosas carnes argentinas, por exemplo, não seriam nada sem os cortes que deixam a gordura derreter dentro delas. É impossível separá-la, como em uma picanha. Até porque o churrasco sai da vaca direto para a “parrilla” (um purismo à argentina). Para eles, é praticamente um sacrilégio temperar uma carne de boa qualidade com sal grosso ou assá-la demais, como fazem os brasileiros. A noção de bem passado pra eles é o mal passado pra nós. O que não deixa de ser, a meu ver, um choque cultural delicioso, dessas experiências gastronômicas obrigatórias para quem passa por lá.

Voltando ao fumo, vamos falar de um outro cigarro…

O de maconha (ou a marijuana, como chamam), talvez um item tão fácil de achar quanto um sorvete de dulce de leche, uma das especialidades argentinas. Não à toa, já que o país tem uma política amigável sobre o assunto. Ou seja, jovens e adultos usam de forma recreativa em suas privacidades sem serem incomodados por ninguém.

E, pelo menos aparentemente, a questão do uso pessoal da cannabis não parece despertar um debate tão acalorado como acontece no Brasil. Fuma quem quer e ninguém tem nada a ver com isso, num pragmatismo portenho que se estende a outras pautas comportamentais (explano mais no próximo texto). Contudo, embora seja comum ver pessoas fumando nas ruas e nos parques, não se engane: por lei, continua sendo ilegal comprar, vender, plantar e fumar em locais públicos.

Pelo menos, por aqui, o debate avançou e se desenrolou em 2009. Naquele ano, a Suprema Corte Argentina descriminalizou o uso de maconha em pequenas quantidades, em situação sem ostentação, comércio ou risco para terceiros, abrindo caminho para uma mudança na política de combate às drogas no país a fim de centrar o foco nos traficantes e não nos usuários, e, dessa forma, diminuir os gastos estatais com milhares de casos menores.

A alta corte julgou inconstitucional abrir processos em casos envolvendo o consumo privado da substância ancorada na proteção da intimidade e da autonomia pessoal (previsto no artigo 19 da Constituição). “Todo adulto é livre para tomar decisões sobre o estilo de vida sem a intervenção do Estado”, dizia o documento judicial.

Óbvio que como, dentro de uma democracia, é mais fácil achar vida em outro planeta que consenso sobre um determinado assunto, a decisão gerou críticas e protestos calorosos de familiares de usuários de drogas e nichos conservadores, como autoridades ligadas à Igreja Católica – um setor que desde o fim da Ditadura Militar não tem tanto prestígio assim no país. Contudo, mesmo com os esperados protestos, a decisão da corte foi facilmente tragada (sem trocadilho) pela cultura local.

No final das contas, assim caminha a sociedade argentina: cada um na sua – com ou sem cigarro entre os dedos.

Calçadão de bares e restaurantes no badalado bairro de Palermo: nenhum saleiro à vista (Foto: Jorge Santos)

Luiz

Buenos Aires/Março de 2017

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Uma pincelada sobre a lealdade

Tirinha: Mauricio de Souza

LEALDADE é conhecer as fraquezas, os reveses, os tombos e as dificuldades do outro e mesmo assim não usar isso na hora da desavença. Pelo contrário, o leal consegue cobrir imperfeições e ajudar o outro a se levantar em diversas ocasiões.

Um alguém leal te defende na sua ausência; se preocupa de verdade com as suas dores; antecipa a cura muitas vezes.

O ser leal é aquele que é fiel a você porque quer ser; visto que mesmo podendo voar pra onde quiser, escolhe pousar ao nosso lado e lá ficar em todas as estações – sempre atento ao amor que possui; zeloso com o próprio coração e com o do outro.

Tão raro topar com gente que tem a lealdade bem desenvolvida na alma; e ainda há tolos que os desperdiçam.

Não seja essa pessoa.

Luiz

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Pedras em forma de bits

Existem basicamente dois tipos de discursos de ódio que circulam nas redes sociais: um se esconde atrás da religião e o outro é ódio pelo ódio escancarado mesmo. Evidente que um não é menos pior nem mais tolerável que o outro. Os dois são igualmente abomináveis, e ambos devem ser combatidos seriamente.

Sobre o primeiro caso (destacando o modus operandi dos religiosos fundamentalistas), usar passagens bíblicas pra colocar os outros no inferno é prática comum (as pessoas homoafetivas costumam ser os alvos prediletos destas sentenças pretensiosas). Agora, admitir que estamos todos danados, condenados, ferrados, é outra história. Até porque TODOS PECARAM E CARECEM DA GRAÇA DE DEUS (está bem ”desenhado” lá na carta do apóstolo Paulo aos Romanos capítulo 3, verso 23).

Todos, no caso, é todos, meu amigo; ninguém tem entrada vip no céu apenas por ser um heterossexual monogâmico, ou porque dá a oferta (ou dízimo) todo fim do mês, ou porque bate o ponto todo fim de semana em um templo religioso, ou porque segue à risca uma determinada doutrina.

A ignorância parte da falta de conhecimento de muitos que justificam seus preconceitos em “passagens bíblicas” passadas de pai para filho em forma de dogmas, de modo que só uma leitura mais minuciosa destes mesmos trechos já é visto como algo pecaminoso. Ou seja, muitos desses versículos repetidos à exaustão por aí nos fóruns mais malcheirosos das redes sociais sequer passam por uma interpretação séria, contextualizada e honesta.

Enfim, num mundo onde tudo está fora do lugar, o que é certo (lê-se amar ao próximo sem precedentes) escandaliza e o que é errado (lê-se apedrejar quem é diferente de mim) se torna o correto. Desse modo, o “Ame o próximo como a si mesmo”, dito por Jesus de forma tão cristalina e direta, é capaz de fazer com que um religioso fundamentalista sinta a necessidade de justificar o porquê de “amar” o outro: “amo, mas…” , e dá-lhe procurar a fimose do mosquito! E sustentam com uma convicção visceral esse discurso hipócrita revestido de piedade tanto no âmbito virtual quanto na vida real. Dá sono.

O que muitos cristãos religiosos ainda não conseguiram entender é que, à luz das próprias escrituras sagradas, todos nós, na condição de pecadores, merecemos herdar o inferno, isso sim! Não fosse, é claro, a Graça de Deus, que está ao alcance de todo mundo; e somente a Graça – esse favor divino imerecido que muitos andam achando (pelo que escrevem nas redes sociais) mais merecedores que outros.

Precisamos mais do que nunca nos opor a estas interpretações equivocadas da Bíblia, que é um livro maravilhoso, desde que lido levando em conta quando e em que contexto histórico foi escrito. Ou: desde que seja lida sobre a ótica de JESUS (que deveria ser a chave interpretativa dos cristãos), o mesmo que acolheu publicanos, prostitutas e pecadores, escandalizou e desafiou o fundamentalismo religioso do seu tempo e foi perseguido e morto por esse mesmo fundamentalismo.

Penso que religião nenhuma pode ser usada como pretexto para desmerecer o outro e para sustentar discriminações, descumprindo, desse modo, o único mandamento: AMAR AO PRÓXIMO.

Assim sendo, é bom e preserva a alma da mediocridade existencial termos mais humildade e compaixão com as relatividades do próximo.

Luiz

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Voltas e voltas

Já paguei 50 centavos (meia passagem) pra andar em ônibus com ar condicionado e televisão sintonizada na MTV em Manaus. Sério! Não é lenda urbana. Foi em 1999, antes da Virada do Milênio.

Aí chegou os anos 2000 e hoje, em novo milênio e em novo século, os usuários do transporte coletivo pagarão uma taxa de 50 centavos a mais em menos de um mês do último aumento – de R$ 3,30 a R$ 3,80.

Os ônibus não têm mais ar condicionado, é verdade, mas tem uma porção de goteiras em dias de chuva e se torna uma sauna ambulante em dias de calor (”pisa, motora, pro vento correr”, alguém sempre grita lá do fundão). Televisão? Só aquela 14 polegadas que o tiozinho carrega debaixo do braço quando precisa levar pro conserto.

Mas nem tudo são dores: tem jujuba e bala de mangarataia por apenas R$ 1. Picolé da massa e chocolate com gosto de sabão em pó, às vezes. E quem senta nos fundos tem uma experiência de montanha-russa quando o motorista desce a ladeira ou passa por um quebra-molas. Uma delícia!

Ah, e de vez em quando entram uns jovens muito enérgicos, portando objetos pontiagudos, que pedem, em altos decibéis, uma pequena contribuição dos passageiros em troca de um show de horror.

Quando não tem essa catarse coletiva, somos obrigados a descer do veículo antes de chegarmos ao nosso destino e, na ocasião, somos incentivados a interagir com outros passageiros até que chegue outro ônibus. Quantas amizades novas, negócios fechados e casamentos não saíram desses sublimes momentos de socialização… Mais eficaz que qualquer rede social.

Vejam só quanto exercício de virtude, divertimento e aprendizado podemos ter em uma só viagem de ônibus em Manaus. E pagaremos só R$ 3,80 por isso daqui pra frente.

Estamos na vanguarda e não sabemos.

Imagem: TV A Crítica/ captura: @Midia_AM

Luiz

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