Uma pincelada sobre a lealdade

Tirinha: Mauricio de Souza

LEALDADE é conhecer as fraquezas, os reveses, os tombos e as dificuldades do outro e mesmo assim não usar isso na hora da desavença. Pelo contrário, o leal consegue cobrir imperfeições e ajudar o outro a se levantar em diversas ocasiões.

Um alguém leal te defende na sua ausência; se preocupa de verdade com as suas dores; antecipa a cura muitas vezes.

O ser leal é aquele que é fiel a você porque quer ser; visto que mesmo podendo voar pra onde quiser, escolhe pousar ao nosso lado e lá ficar em todas as estações – sempre atento ao amor que possui; zeloso com o próprio coração e com o do outro.

Tão raro topar com gente que tem a lealdade bem desenvolvida na alma; e ainda há tolos que os desperdiçam.

Não seja essa pessoa.

Luiz

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Pedras em forma de bits

Existem basicamente dois tipos de discursos de ódio que circulam nas redes sociais: um se esconde atrás da religião e o outro é ódio pelo ódio escancarado mesmo. Evidente que um não é menos pior nem mais tolerável que o outro. Os dois são igualmente abomináveis, e ambos devem ser combatidos seriamente.

Sobre o primeiro caso (destacando o modus operandi dos religiosos fundamentalistas), usar passagens bíblicas pra colocar os outros no inferno é prática comum (as pessoas homoafetivas costumam ser os alvos prediletos destas sentenças pretensiosas). Agora, admitir que estamos todos danados, condenados, ferrados, é outra história. Até porque TODOS PECARAM E CARECEM DA GRAÇA DE DEUS (está bem ”desenhado” lá na carta do apóstolo Paulo aos Romanos capítulo 3, verso 23).

Todos, no caso, é todos, meu amigo; ninguém tem entrada vip no céu apenas por ser um heterossexual monogâmico, ou porque dá a oferta (ou dízimo) todo fim do mês, ou porque bate o ponto todo fim de semana em um templo religioso, ou porque segue à risca uma determinada doutrina.

A ignorância parte da falta de conhecimento de muitos que justificam seus preconceitos em “passagens bíblicas” passadas de pai para filho em forma de dogmas, de modo que só uma leitura mais minuciosa destes mesmos trechos já é visto como algo pecaminoso. Ou seja, muitos desses versículos repetidos à exaustão por aí nos fóruns mais malcheirosos das redes sociais sequer passam por uma interpretação séria, contextualizada e honesta.

Enfim, num mundo onde tudo está fora do lugar, o que é certo (lê-se amar ao próximo sem precedentes) escandaliza e o que é errado (lê-se apedrejar quem é diferente de mim) se torna o correto. Desse modo, o “Ame o próximo como a si mesmo”, dito por Jesus de forma tão cristalina e direta, é capaz de fazer com que um religioso fundamentalista sinta a necessidade de justificar o porquê de “amar” o outro: “amo, mas…” , e dá-lhe procurar a fimose do mosquito! E sustentam com uma convicção visceral esse discurso hipócrita revestido de piedade tanto no âmbito virtual quanto na vida real. Dá sono.

O que muitos cristãos religiosos ainda não conseguiram entender é que, à luz das próprias escrituras sagradas, todos nós, na condição de pecadores, merecemos herdar o inferno, isso sim! Não fosse, é claro, a Graça de Deus, que está ao alcance de todo mundo; e somente a Graça – esse favor divino imerecido que muitos andam achando (pelo que escrevem nas redes sociais) mais merecedores que outros.

Precisamos mais do que nunca nos opor a estas interpretações equivocadas da Bíblia, que é um livro maravilhoso, desde que lido levando em conta quando e em que contexto histórico foi escrito. Ou: desde que seja lida sobre a ótica de JESUS (que deveria ser a chave interpretativa dos cristãos), o mesmo que acolheu publicanos, prostitutas e pecadores, escandalizou e desafiou o fundamentalismo religioso do seu tempo e foi perseguido e morto por esse mesmo fundamentalismo.

Penso que religião nenhuma pode ser usada como pretexto para desmerecer o outro e para sustentar discriminações, descumprindo, desse modo, o único mandamento: AMAR AO PRÓXIMO.

Assim sendo, é bom e preserva a alma da mediocridade existencial termos mais humildade e compaixão com as relatividades do próximo.

Luiz

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Voltas e voltas

Já paguei 50 centavos (meia passagem) pra andar em ônibus com ar condicionado e televisão sintonizada na MTV em Manaus. Sério! Não é lenda urbana. Foi em 1999, antes da Virada do Milênio.

Aí chegou os anos 2000 e hoje, em novo milênio e em novo século, os usuários do transporte coletivo pagarão uma taxa de 50 centavos a mais em menos de um mês do último aumento – de R$ 3,30 a R$ 3,80.

Os ônibus não têm mais ar condicionado, é verdade, mas tem uma porção de goteiras em dias de chuva e se torna uma sauna ambulante em dias de calor (”pisa, motora, pro vento correr”, alguém sempre grita lá do fundão). Televisão? Só aquela 14 polegadas que o tiozinho carrega debaixo do braço quando precisa levar pro conserto.

Mas nem tudo são dores: tem jujuba e bala de mangarataia por apenas R$ 1. Picolé da massa e chocolate com gosto de sabão em pó, às vezes. E quem senta nos fundos tem uma experiência de montanha-russa quando o motorista desce a ladeira ou passa por um quebra-molas. Uma delícia!

Ah, e de vez em quando entram uns jovens muito enérgicos, portando objetos pontiagudos, que pedem, em altos decibéis, uma pequena contribuição dos passageiros em troca de um show de horror.

Quando não tem essa catarse coletiva, somos obrigados a descer do veículo antes de chegarmos ao nosso destino e, na ocasião, somos incentivados a interagir com outros passageiros até que chegue outro ônibus. Quantas amizades novas, negócios fechados e casamentos não saíram desses sublimes momentos de socialização… Mais eficaz que qualquer rede social.

Vejam só quanto exercício de virtude, divertimento e aprendizado podemos ter em uma só viagem de ônibus em Manaus. E pagaremos só R$ 3,80 por isso daqui pra frente.

Estamos na vanguarda e não sabemos.

Imagem: TV A Crítica/ captura: @Midia_AM

Luiz

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Macabéa somos todos

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Alguns livros merecem uma releitura. Permita-me incluir nessa lista, tão universal e ao mesmo tempo tão subjetiva, uma (re)leitura recente: ”A Hora da Estrela” (1977), meu primeiro contato com a aclamada Clarice Lispector.

Aos iniciantes, esta novela desfia a história da nordestina Macabéa, contada passo a passo por seu narrador-personagem, o escritor Rodrigo S.M. (alter-ego de Clarice), de um modo que os leitores acompanhem o seu processo de criação. À medida que mostra esta alagoana, órfã de pai e mãe, criada por uma tia, desprovida de qualquer encanto, ele conhece um pouco mais sua própria identidade – e, um spoiler!, acontece o mesmo conosco conforme avançamos na leitura.

A descrição do dia a dia de Macabéa no Rio de Janeiro como datilógrafa, seu parco relacionamento com as pessoas ao seu redor e seus inesperados encontros estão sempre acompanhados por convites constantes para vermos em miúdos de que matéria é feita a vida de um ser humano.

Talvez esse seja o ingrediente principal dessa novela: o apelo psicológico extraordinário, ou, a capacidade de remexer o de dentro de quem lê – uma habilidade singular da obra de Clarice Lispector, a propósito. Elemento responsável por Macabéa acabar se tornando uma dessas personagens que são, no final das contas, um reflexo de nós mesmos: sempre absortos numa desesperada busca muda por um sentido existencial.

(Até arrisco dizer que esse era o objetivo da Clarice: mostrar que todo ser humano, embora diferentes entre si, possuem uma essência semelhante – as mesmas perplexidades, as mesmas fomes).

A protagonista mal tinha consciência da sua própria existência; era um ente passivo diante de tudo e de todos; conformada com a vida que tinha; destituída de qualquer pingo de vontade pra contestar o que fosse. As coisas eram como eram e ponto, assim pensava.

Nessa perturbadora bolha de alienação em que habitava, ela até mesmo pensava que era feliz (Ou: sua felicidade poderia se resumir em comer cachorro-quente, beber Coca-Cola e ouvir um programa de rádio que veiculava curiosidades).

Nas palavras do próprio narrador-personagem, Macabéa era um ”cabelo na sopa”.

“Já que sou, o jeito é ser.”

“Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.”

“Maca, porém, jamais disse frases, em primeiro lugar por ser de parca palavra. E acontece que não tinha consciência de si e não reclamava de nada, até pensava que era feliz. Não se tratava de uma idiota mas tinha a felicidade dos idiotas. E também não prestava atenção em si mesma: ela não sabia.”

“Ela se abraçava a si mesma com vontade do doce nada. Era maldita e não sabia. Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar: eu sou, eu sou, eu sou.”

Ao leitor desavisado, nem pense (numa primeira leitura) em apontar o dedo para a datilógrafa alagoana exigindo uma reação, nem te ires com a sua passividade ante a vida. Desarme-se. Ter compaixão dela é, de algum modo, ter de nós mesmos enquanto humanos; afinal, a personagem, como a própria Clarice Lispector admitiu, “era de uma inocência pisada, de uma miséria anônima. Daí Macabéa representar muito a diversidade e o seu processo de discriminação em sua essência”.

Uma personagem de caráter universal, sim, porque lá no fundo da nossa alma ela nos acena, mal nos olhando nos olhos, encolhida em posição fetal. Como se, por meio dela, Clarice sussurrasse em nossos ouvidos: ”Mais humildade, mais humildade, no apagar das luzes nosso destino será o mesmo”.

Resta-nos não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Sim.

Luiz

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Arquivado em prosa na estante

Por mais simplicidade

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Arte: Javier Pérez

Já estamos com os dois pés fincados no novo ano, as boas e as más notícias já brotaram de todos os lados, e as resoluções escritas numa folha de caderno repousam na gaveta. É sempre assim: a vida vai seguindo sem pedir licença. E o bom deste período, entre o ano novo e o carnaval, é o cheiro de novo no ar, é o cotidiano que ainda não engatou a terceira marcha – nem rápido, nem lento, apenas seguindo, dia após dia. Uma oportunidade e tanto para perseguirmos aquela tão desejada e desafiante simplicidade de viver.

A busca por uma vida mais simples bem que poderia ser a maior de nossas resoluções, aliás. Vida simples como menos protocolar, com direito a termos mais dúvidas do que certezas, com mais perguntas inteligentes do que respostas prontas. Mais abraços e, quem sabe, gestos pequenos que engrandecem os nossos dias.

Vida simples é viver com menos necessidade de autoafirmação, em que a gente não precisa ficar provando o tempo todo o nosso valor, pois quem amamos e quem nos ama já sabe o valor que temos. Com mais horários flexíveis e encontros decididos de última hora (que costumam ser bem marcantes); com sorrisos e risos espontâneos, e brilho nos olhos, e piadas, e mais conversas jogadas fora na varanda, na praça ou no sofá. E, principalmente, menos ansiedade diante do amanhã.

Viver uma vida simples pra atrair mais leveza. Jogar fora aquela teimosa mania de tentar convencer as pessoas sobre o nosso ponto de vista o tempo todo (não somos obrigados); aquele desgaste causado por provocações mínimas; o aborrecimento pelos inevitáveis pequenos imprevistos; e a transformação de um banzeiro num tsunami.

Desobrigue-se. Poupe-se. Poupe-nos.

Seria o meu sonho? Deveria ser o nosso.

Luiz

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solidão de reis

todo
mundo
quer
ter a
beleza
da propaganda

mas a vida real não engana:
somos plebe,
nem rainha nem rei.

aceita e ama o que vês
ou à solidão viva entregue.

Luiz

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Arquivado em poesia, agora?!

Reflexo do retrovisor (Um breve ensaio sobre o desprendimento)

retrovisor22

”Pra quem não sabe amar
fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho”

(Cazuza em Blues da Piedade)

A graça de amadurecer é se importar cada vez menos com o que não importa. Sobra menos espaço para as murmurações cotidianas. A paciência para a superficialidade se torna pouca.

Eu sou, como costumam dizer, à moda antiga e, sim, desejo relações estáveis e duradouras; ainda aprecio, no outro, valores, como a amizade e a lealdade; admiro pessoas de princípios sólidos; gente que consegue ser bela de dentro pra fora. Embalagens formosas não bancam interiores paupérrimos.

Acredite, nunca deixe de acreditar, existem boas pessoas por aí entre os bilhões de habitantes desse planetinha azul. E se, por acaso, eu topar com elas, as quero o mais perto possível de mim, porque gente boa me inspira, me faz querer ser cada vez melhor, mais e mais.

Claro que ao longo da nossa jornada vamos ter a infelicidade de um dia amar quem não sabe amar. Não abordo aqui a costumeira falta de reciprocidade, mas de amar aquele indivíduo (dentro de um relacionamento) que tem um conceito muito tacanho sobre o amor a ponto de, por exemplo, colocar as aparências no mesmo patamar, e que, portanto, cultiva em si um ”amor” por nós sem raiz que se assemelha mais a uma folha seca que é levada a qualquer lugar ao sabor do vento.

É nessas horas que devemos lutar para atravessarmos esses encontros desagradáveis de cabeça erguida, sem perder a pureza no coração.

Porque uma das maiores vitórias que obtemos ao longo da vida vem a ser justamente conseguirmos nos libertar das amarras inúteis que nos prendem a pessoas que ainda não compreendem o valor de um relacionamento sincero e recíproco.

A nossa melhor reação nesses casos é se afastar de quem um dia teve todos os nossos sorrisos e nunca valorizou; de quem ouvimos muitos “nãos” e nos proporcionou uma infinidade de frustrações; de quem pouco se relacionou e muito nos cansou a alma – sem contar o afeto pequeno que tanto nos recusou; de quem vive com dúvidas e nunca nos teve como certeza; de quem não aprendeu a remar junto ou agir com compreensão nos momentos mais turbulentos; de quem desaprendeu a sorrir diante de nossa presença; de quem, de uma hora pra outra, se esqueceu de apreciar a nossa companhia e preferiu se refugiar no próprio esquife de vaidades.

A nossa resiliência é a melhor resposta. A melhor forma de, lá na frente, evitar essas almas que teimam em serem ingratas com aqueles que dão tudo de si a elas, e, de quebra, escarram no prato que comem sem dó nem um pingo de consideração. Oxalá um dia aprenderão a reconhecer os próprios equívocos e a valorizarem as essencialidades da vida…

Mas esse poder de incutir arrependimentos em outrem não nos pertence. A nós cabe pisar fundo no acelerador; passar a primeira, a segunda, a terceira, a quarta, até a quinta marcha. E do retrovisor olhar o reflexo daquele que não soube nos amar (e ainda nos feriu) diminuindo, diminuindo, diminuindo, diminuindo cada vez mais, até que o reflexo fique vago, disforme, distorcido, abafado pelos novos asfaltos que percorremos, e inevitavelmente torna-se o que tem que se tornar: apenas uma lição. Uma vaga lembrança.

Luiz

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