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Roda viva dos medalhões

Tudo começou com o Gilberto, o pai-de-todos, que criou o Amazonino, o-que-já-foi-tudo, que criou o Eduardo, que se voltou contra o seu criador em dado momento, e se juntou ao Serafim, que havia perdido a prefeitura para o Alfredo, outra cria do Amazonino, que na eleição seguinte também derrotou o Eduardo, que voltou aos braços de Amazonino no outro pleito e teve Omar como vice, que também foi vice de Alfredo, que rompeu com ele e se juntou ao antigo adversário Serafim, e os dois perderam pro Omar, vice-de-todos-eles, que jogou no palco o Melo, que foi peitado por Marcelo, que levantou a voz para todos os outros, mas acabou se juntando a Eduardo, que tinha Rebecca como vice quando perdeu pro Melo, que saiu de cena e deu lugar ao David, que está com a Rebecca, que agora tem como adversário o antigo aliado, Eduardo, que está contra o seu criador Amazonino, o nosso Dom Sebastião.

Ficou tonto?
Pois é.
Em círculos caminha a política amazonense.

Luiz

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Arquivado em mesa redonda

Em Parintins a gente vê o que é amor

Os bois Caprichoso e Garantido, ”donos” da festa, na arena do Bumbódromo, onde duelam todos os anos: a Amazônia pode ser mágica. E é (foto:Portal A Crítica)

Parintins é uma ilha. Uma cidade de interior com ares de cidade grande, cercada de águas por todos os lados. É o segundo município mais populoso do Amazonas, região norte do Brasil. Fica distante 365 km da capital do estado, Manaus. É lá que, todos os anos, desde 1965, no último fim de semana de junho, acontece o Festival Folclórico de Parintins, o maior espetáculo a céu aberto do mundo, onde os bois Caprichoso (das cores azul e branco) e Garantido (vermelho e branco) travam um duelo anual de artes, cores, sons e danças. Informações bem familiares para quem é amazonense, mas pra quem é de outros cantos do Brasil e do mundo, é um universo completamente novo que se descortina em azul e em vermelho.

Das muitas coisas que aprendemos quando viajamos a Parintins, uma delas prega o respeito total pelo adversário (embora as provocações deem a tônica do espetáculo, principalmente nos versos do amo-do-boi e nas toadas de desafio). No Bumbódromo, onde acontece a disputa, quando um boi se apresenta, a galera do outro boi (como são chamadas as torcidas) fica em reverente silêncio – caso contrário perdem pontos. E justamente por ser um item julgado, é parte essencial das apresentações (ou, um show à parte).

”Já conheci outras manifestações culturais brasileiras, mas isso aqui é simplesmente impressionante”, me disse Anna, uma simpática polonesa, de português impecável, enquanto aguardava a apresentação do Caprichoso.

Não tem jeito. Embora quem vá pela primeira vez ensaie uma neutralidade, o amor pelo azul ou pelo vermelho é contagiante. Se o contato com os torcedores apaixonados não balança, o rufar dos tambores da Marujada de Guerra (os ritmistas do Caprichoso ) ou da Batucada (do Garantido) arrebatam os indecisos. Não há quem resista ao som caloroso das toadas – as músicas que embalam as apresentações, contam lendas, curiosidades regionais e sacodem as arquibancadas. É simplesmente uma ópera ao ar livre no coração da Amazônia.

Outra regra de ouro do Festival: o torcedor do Garantido não pronuncia o nome do Caprichoso; nem o torcedor do Caprichoso pronuncia o nome do Garantido. O nome completo do boi adversário é apenas ”boi contrário”. Mas aquele fanatismo de outrora, quando as pessoas, contam os mais antigos, iam às vias de fato por causa do seu boi, ficou para trás. Ficou a rivalidade sadia e a divisão territorial. A cidade é realmente dividida em duas cores, tendo a Catedral de Parintins, dedicada a Nossa Senhora do Carmo, o ponto de referência e harmonia.

Mesmo assim, no lado azul, onde fiquei hospedado, há casas onde a família inteira torce para o Garantido. Da mesma forma, é possível encontrar torcedores azuis do outro lado da ilha, reduto do Garantido. Tudo misturado. Em paz. Conviver bem com o diferente é possível. Mais uma importante lição parintinense.

Aliás, pra quem vai a Parintins com ”espírito de mochileiro”,  é uma alternativa aconselhável se juntar com amigos e alugar um quartinho na casa de um morador local – uma renda extra a quem hospeda; uma experiência riquíssima ao visitante. E ter contato direto com o parintinense é se apaixonar de vez por aquela ilha de tantos encantos. A hospitalidade e a simpatia chegam a ser ”folclóricas”. O enlace é imediato: encostou em um canto, puxou conversa, já vira amigo.

Os três dias de festa não poderiam ter sido mais felizes. Já seria especial por um motivo muito simples: eu estava lá. Senti, vibrei, vivi aquele espetáculo em todas as suas nuances. Um sonho de criança. Embora a cultura do boi-bumbá tenha feito parte da minha infância, só agora, adulto, consegui ver o Festival com os meus próprios olhos pela primeira vez. A primeira de outras vezes, assim espero.

É preciso ir a Parintins pra perceber que aquela epifania que dobra o número de habitantes em um só fim de semana é muito mais que uma festa, muito mais que dois bois de pano, que duas cores. É puro amor brotando de todos os lados. Das toadas tocadas em cada canto da cidade, das belezas naturais ao alcance das mãos, do afetuoso abraço de alguém que conhecemos ao ”tem café, mano, toma um pouco” dito por aquele que nos recebe em sua casa. Na ilha todos são (e viram) parentes. Todos são parte essencial de uma grande confraternização que impulsiona a economia local.

E falando em amor, acho justo destacar que na minha primeira ida à Ilha Encantada, o boi-bumbá Caprichoso se sagrou o campeão da 52° edição, vencendo todas as três noites, em rara harmonia entre opinião dos jurados e do público. No dia seguinte ao último dia de Festival –  quase uma ”segunda-feira de cinzas” – numa cidade que já retomava aos poucos a sua tranquilidade habitual, testemunhei o lado azul de Parintins pulsar de felicidade.

Ter visto pessoalmente o boi que ainda na infância me arrebatou ser campeão coroou essa viagem, que, de quebra, me ressignificou por inteiro. Pois é, sou pé quente.

Na arquibancada do boi-bumbá Caprichoso antes de uma das apresentações: em Parintins não existe essa de imparcialidade. Ou é azul ou é vermelho (foto: arquivo pessoal).

Parintins – Amazonas/ Junho de 2017

Luiz

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Arquivado em crônica, reportagem

Parte do acervo da TV Cultura (AM) será recuperado

A importância da conservação de um acervo consiste em manter viva a memória histórica de determinados fatos. Um projeto, coordenado pelo professor doutor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Otoni Moreira de Mesquita quer organizar, higienizar e digitalizar 320 fitas do acervo audiovisual da TV Cultura do Amazonas. As fitas do acervo (a serem recuperadas) contêm registros e gravações de programas televisivos dos mais variados gêneros que foram ao ar entre os anos 1970 e 1990.

O projeto, chamado “Higienizar, digitalizar e catalogar o acervo da TV Cultura do Amazonas – 1970 a 1990”, conta com um apoio da Fundação de Amparo á Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) de R$ 298.760 mil, que serão investidos ao longo de 12 meses.

Mesquita falou um pouco a respeito da recuperação e digitalização do acervo audiovisual da TV Cultura do Amazonas.

Quem será o público-alvo que irá se beneficiar desses arquivos recuperados?

Otoni Moreira de Mesquita – Acreditamos que o produto resultante atenderá a um público bem amplo, pois além dos pesquisadores de várias áreas das ciências humanas, sobretudo História, Comunicação, Antropologia, Artes e outras, atenderá aos profissionais de jornalismo, aos documentaristas e à população em geral, além de especialistas em outras áreas eventualmente abordadas pelas matérias e documentários. Para aqueles que viveram no período correspondente às gravações, terão uma rara oportunidade de reavivar a memória, não apenas como um sentimento de nostalgia, mas como reconhecimento e valorização de nossos traços culturais. Enquanto que para as novas gerações, o conteúdo destas gravações pode ser uma oportunidade ímpar de conhecer um pouco mais das manifestações locais que podem servir de referências e inspirações para as futuras produções das mais diferentes áreas. Em última instância, a recuperação deste material deverá estimular investigações que até então não ocorreram e poderão contribuir para a discussão em torno de nossa identidade cultural.

Devido ao estado de conservação em que se encontram, os conteúdos gravados permanecem ilegíveis. Quanto tempo demora para recuperar uma fita dessas?

O.M.M. – Não podemos precisar ainda; somente uma empresa especializada diante de cada uma das fitas poderia determinar com exatidão o tempo de recuperação. Mas o certo é que não é uma coisa muito rápida como gravar um CD ou baixar um dado da internet, pois o processo de transcrição de dados contidos em uma fita de vídeo corresponde ao mesmo tempo do registro da gravação que ela contém.

Já é possível prever quais serão as maiores dificuldades na recuperação dessas fitas? Há alguma fita em estado crítico?

O.M.M. – Em função do estado avançado de deterioração do referido acervo, é previsível que parte das fitas selecionadas para serem recuperadas venha demandar um pouco mais de tempo ou exigir um processo mais caro para sua desinfecção. Em função disso, o cronograma de limpeza foi dilatado e utilizou-se como base um cálculo mais aproximado e mais elevado para o serviço de recuperação. Acreditamos que as colônias de fungos instaladas nas fitas não sejam um grande problema a ser resolvido por uma empresa especializada. Contudo, nosso maior temor é que os conteúdos de algumas fitas não correspondam às indicações contidas em suas capas. Há menções a períodos de crise financeira na emissora, em que o único recurso era a reutilização indiscriminada das fitas gravadas. Assim, é possível que significativos registros tenham sido perdidos sob gravações de fatos corriqueiros.

As fitas a serem recuperadas contêm registros e gravações de programas televisivos dos mais variados gêneros. Há um gênero televisivo predominante nesse arquivo – por exemplo, telejornais?

O.M.M. – A identificação prévia não é completamente precisa, pois muitas fitas não se encontram identificadas e não há instrumentos que permitam ler os seus conteúdos. Mas a lista indica uma grande diversidade de programas. Porém, ressalta-se a produção de programas educativos, tanto para crianças quanto para adultos. Há uma grande quantidade de programas musicais apresentando valores locais, além de outras produções, que ressaltam os valores da cultura amazônica. Além de alguns documentários e muitas matérias jornalísticas com uma diversidade de temas e programas de entrevistas, destacando o debate com políticos locais.

Na sua visão, qual é a importância de se recuperar essas fitas?

O.M.M. – É inquestionável o valor histórico contido nesse material, antes mesmo de sua recuperação. São documentos sonoros e visuais (memória visual), carregados de informações e indícios a serem interpretados, pois ainda que se trate de uma história relativamente recente, parte dela já se diluiu na memória daqueles que a vivenciaram. Portanto, sua recuperação deve ser interpretada como uma significativa contribuição para a memória e a identidade cultural local. Para os pesquisadores, se trata de um material raro, sobretudo, se considerarmos a grande lacuna existente quanto aos estudos referentes ao período. Pois, devemos ressaltar, que entre os anos 1970 e 1990, ocorreram drásticas transformações em todos os segmentos da sociedade amazonense. Esse processo de atualização foi muito rápido e pouco pensado, provocando a exclusão de elementos culturais que deixaram um grande vácuo ou perderam completamente o sentido, perante os novos espaços e ritmos que a cidade configurou.

Quais são as suas expectativas quanto aos benefícios que a recuperação dessas fitas trará para a ‘memória cultural’ do Estado do Amazonas?

O.M.M. – Minhas expectativas quanto à recuperação desse material é bastante otimista, pois entendo que, ao torná-lo legível novamente, passamos a ter uma nova oportunidade de reler e interpretar nossa história recente. De qualquer forma, é uma maneira de recuperar parte da memória e fixar valores, refletindo um pouco mais sobre a identidade local e regional. Mesmo que haja o conflito entre um passado devidamente editado e um presente caótico e difícil de lidar perante as transformações que geraram a nova sociedade que se instalou e se desenvolveu no lugar. Do ponto de vista do futuro, penso que o material poderá contribuir com uma visão mais rica e representativa de uma população que era tão menor e tão expressiva em seus movimentos culturais. Portanto, poderá revelar algumas surpresas para as novas gerações e para aqueles que chegaram mais recentemente. Como matéria-prima para as futuras construções, penso que essas fontes a serem reveladas poderão gerar uma diversidade de trabalhos, documentários etc. Ainda que se trate de uma história relativamente recente, acreditamos que o material a ser revelado é bastante significativo para a memória de vários segmentos culturais e mesmo políticos. A música e o teatro locais são temas frequentemente abordados, com imagens raras, assim como entrevistas e documentários, cujas leituras certamente possibilitarão melhor compreensão de nossa realidade cultural.

Entrevista originalmente publicada no Observatório da Imprensa.

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