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Diário da Venezuela #3: “¡adiós!” nunca, “¡hasta luego!“ é o suficiente

Barco que nos transportou à ilhota de Coche: os caminhos do mar são, curiosamente, doces. Foto: Diógenes Souza

Conversar com um taxista é uma das formas mais baratas de conhecer um lugar a fundo. Eu e meus companheiros de viagem (dois fotógrafos de mão cheia) conhecemos um, muito simpático, extrovertido e falastrão, chamado J.H – filho de um peruano que morou muitos anos no Brasil e, segundo meus amigos, fala um português convincente.

Foi com ele a maioria das nossas corridas de táxi pela Isla Margarita (distante 331 quilômetros de Caracas), e dele recebemos uma “aula magna” sobre a atual realidade política, social e econômica da Venezuela, bem como algumas curiosidades acerca da cultura e dos costumes venezuelanos.

Pele oliva, baixa estatura e enérgico, J.H é o oposto do taxista margaritenho comum – introvertidos em sua maioria, de modo que comunicam apenas o necessário (o preço das corridas, prioritariamente), mesmo quando você puxa assunto.

Em nossas andanças, conhecemos muitos taxistas, bem como vários modelos vintages de carro; alguns caindo aos pedaços, literalmente; outros sem taxímetro nem velocímetro, mas potentes e devoradores de gasolina – o que não é nenhum problema em um país onde, com uma cédula, se enche o tanque de um carro.

Há, na ilha, linhas de micro-ônibus que apanham passageiros em vários pontos (uns abrigos feitos de pedra), mas o táxi é de longe o meio de transporte mais rápido e prático.

O bom é que as corridas são baratas e podem ser negociadas antes do embarque. Os preços mudam pouco, na verdade. Os taxistas cobram, praticamente, o mesmo valor de dia, e um pouco mais caro à noite, quase como um acordo entre cavalheiros para que todos garantam a arepa de cada dia (uma iguaria de massa de pão feito com milho moído ou com farinha de milho pré-cozido, popular e tradicional na Venezuela).

Eu e meus amigos chegamos a uma conclusão: nunca andamos tanto de táxi em nossas vidas. Nessas aventuras, conhecemos alguns lugares de uma ponta a outra da Isla Margarita a bordo de verdadeiros exemplares vintages de táxis. Voltamos no tempo.

De todos os taxistas que conhecemos, apenas um (além do J.H) se destacou por fugir do trivial e entrar em um assunto delicado por lá: a política.

Apoiador entusiasta do atual presidente Nicolás Maduro, o homem, de voz arrastada, rasgou-se em elogios ao ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, disse que os partidos de direita eram prepotentes e que, se dessem dinheiro a ele, mataria todos os direitistas, um a um. Uma ameaça nada convincente partindo de um senhor bonachão de cabelos brancos que, aparentemente, leva uma vida normal naquela ilha que vive apinhada de turistas o ano todo.

Enfim, anda-se tanto de táxi em Isla Margarita que fidelizar com um taxista durante a estadia é um caminho natural. Foi assim que conhecemos J.H, o nosso maior achado, um homem sem diploma, mas um virado por natureza – entende de mecânica de carro e construção civil, mas exerce o ofício de taxista pra ganhar a vida; peruano de nascimento, venezuelano de coração; casado e pai de quatro niños, dois dele e dois da atual esposa, com quem – ele nos confidencia – vive uma relação aberta. Uma modern family à moda latina.

A certa altura da conversa sobre comportamento, meu amigo perguntou qual é a receita para conquistar o coração de uma mulher venezuelana, considerada umas das mais bonitas do mundo (se levarmos em consideração a quantidade de misses mundo que saíram de lá).

“Mulheres venezuelanas apreciam homens extrovertidos”, diz J.H em tom professoral, “os tímidos não têm vez”.

Hábitos como sair pra dançar e paquerar, por exemplo, não são tabus na Venezuela. Nas noites caribenhas, os jovens venezuelanos costumam se esbaldar ao som da salsa, da rumba e do reggaeton, embora o rap, o hip-hop e o pop norte-americano sejam muito presentes na playlist dos adolescentes.

Havia muito mais casas noturnas na ilha há alguns anos atrás, mas a maioria foi fechada pelo governo como uma forma de coibir a prostituição e o tráfico de drogas. Na prática, houve uma diminuição considerável (o que explica, em parte, a vida noturna sonolenta de Margarita), mas os lugares destinados a encontros fortuitos ainda existem, embora funcionem de uma forma discretíssima.

Mesmo com todas essas, digamos assim, liberalidades, o Catolicismo tem forte influência no país, e é fácil perceber a religiosidade do povo venezuelano, pois os santos da igreja romana estão por todas as partes: nas lojas, nos supermercados, nas ruas, nos jornais locais. Dentre todos, a Virgem do Vale, padroeira da ilha, reina absoluta na devoção dos fiéis margaritenhos. E apesar de encontrarmos igrejas evangélicas com certa facilidade (principalmente da linha doutrinária pentecostal), os católicos são maioria absoluta.

Os feriados católicos são respeitados à risca, mas eles também têm um carnaval próprio, quando as mulheres desfilam nas ruas em trajes pequenos. Fora desse momento, vestes curtas só na praia, e é muito estranho aos olhos dos venezuelanos o hábito dos turistas brasileiros irem ao shopping com roupas praianas.

É interessante notar um certo patriotismo no ar, principalmente por parte dos adultos – camisas e bonés com as cores da bandeira nacional são itens comuns do vestuário. Comum também é o uso de uniformes de equipes locais de beisebol (uma paixão nacional) e a camisa dos “vinotintos”, como é carinhosamente chamada a seleção venezuelana de futebol, esporte que aos poucos vem conquistando corações por lá.

O esporte, aliás, é uma das poucas atividades que unem um país polarizado politicamente. A insatisfação com o atual governo é grande, mas a oposição nas ruas é discreta.

Enquanto manifestações explodem nas ruas de Caracas, no caminho que trilhamos até Isla Margarita o que mais vimos foram resquícios das últimas eleições presidenciais nos muros, e uma constatação até previsível: encontramos muito mais propagandas do atual presidente em todos os cantos. Em todo o nosso roteiro, vimos apenas uma propaganda do opositor mais conhecido, Henrique Capriles, cujo rosto estava discretamente desenhado na mureta de uma residência na ilhota de Coche.

“Apesar de todas as dificuldades, sou feliz por viver aqui”, conta J.H, destacando como aspecto positivo o fato de que, na Venezuela, a carga tributária é de 16%, uma das mais baixas da América Latina. Além do mais, água, energia, gasolina e moradia (aluguel) são consideravelmente em conta. Isso, porém, não descarta os planos de J.H um dia se mudar para outro país que lhe ofereça mais oportunidades para realizar os seus sonhos, entre eles, se formar engenheiro. “Penso em me mudar para a Colômbia, ou quem sabe para o Brasil”, nos conta.

Na nossa última corrida (com direito a selfie), ao nos despedirmos de J.H, nos despedimos, de uma forma simbólica, daquela ilha paradisíaca, habitada por um povo batalhador, sofredor, feliz. Qual o brasileiro. Somos hermanos e não sabemos. Ou insistimos em não saber.

E, assim, deixamos esse paraíso sul-americano com a alma salpicada de saudades, de encantos e de paixões, como as escamas vermelhas que o sol poente estampa no mar caribenho.

Na bagagem trouxemos apenas uma certeza:“¡adiós!” jamais. Um ¡hasta luego! basta.

¡Hasta luego, Isla Margarita! Foto: Diógenes Souza

Luiz

Essa reportagem também foi publicada no jornal A Crítica, caderno Bem Viver (página BV11), no dia 14 de fevereiro de 2016; e no Portal A Crítica (AQUI)

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Diário da Venezuela #2: fragmentos daquela que já foi a “Meca” do free shop

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As águas tranquilas de Playa La Punta, em Isla Coche, nem de longe lembram que a Venezuela está mergulhada numa profunda crise econômica, política e social. Foto: Diógenes Souza

Dizem que o sol (símbolo da beleza, da prosperidade e do otimismo) brilha mais de 300 dias por ano na Isla Margarita, ilha venezuelana localizada no Mar do Caribe (distante 331 quilômetros de Caracas). Isso, combinado com as suas belas praias, é um motivo de orgulho aos habitantes do lugar, ao mesmo tempo em que é a mola propulsora da economia local.

A ilha caribenha se destaca não só por suas atrações naturais, como também pelo fato de ser uma área livre de impostos, apresentando preços mais baixos do que os encontrados no continente sul-americano. Por isso, o comércio é bastante movimentado, mas nem de longe lembra aquela que já foi o “paraíso das compras”, a “Meca” dos desejos capitalistas da classe média brasileira. A causa é bem conhecida de outras gerações do nosso país: inflação galopante.

Por conta disso, a maioria dos produtos, incluindo os itens mais vendidos (roupas, eletrodomésticos, queijos, chocolates e bebidas), não são tabelados e mudam de valor quase que diariamente.

Nos supermercados (ou nos bodegóns), sobra espaço nas prateleiras e faltam produtos básicos, como açúcar, frango (ou como chamam por lá, pollo, ingrediente abundante na culinária venezuelana) ou até mesmo rolos de papel higiênico – a recomendação para que turistas levem os seus na mala deve ser levada muito a sério.

Claro, gastando um pouco de sola de sapato, é possível encontrar produtos de grife mais em conta que no Brasil. Mesmo assim, os preços de alguns itens, principalmente nos shoppings, se colocarmos na ponta do lápis, são os mesmos ou diferem poucos centavos dos preços praticados no comércio brasileiro (em parte pela desvalorização do real nos últimos meses).

Se o desejo consumista do visitante for mesmo insaciável, é preciso garimpar (e muito) no centro de Porlamar (cidade mais povoada da Isla Margarita, situada na região sudeste), ou no centro comercial de Juan Griego (pequena cidade ao norte da ilha), e ter muita paciência para driblar as toneladas de produtos piratas.

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Bolívares comprados no câmbio paralelo: nesse montante há mais que o triplo do salário mínimo de um trabalhador venezuelano, mas a fortuna é ilusória, pois o dragão da inflação devora muitas dessas cédulas na compra de um simples produto.

Antes, vale uma explicação: a taxa de câmbio na Venezuela é controlada pelo governo. Em outras palavras, a taxa oficial funciona assim: 1 dólar vale 2,1 bolívares fuertes. Porém ninguém usa essa taxa. Os venezuelanos possuem um limite para a compra de dólares ou de euros e, por isso, os compram no mercado paralelo.

Nas ruas, nas lojas dos centros comerciais ou com os cambistas na fronteira Brasil-Venezuela e afins, é possível trocar 1 real por até 155 bolívares (dependendo da cotação, que sobe e desce ao sabor da hiperinflação que tem castigado a Venezuela nos últimos tempos).

Para se ter uma ideia, um trabalhador médio venezuelano ganha um salário mínimo de aproximadamente 9.649 bolívares. É possível ganhar quase o dobro em um minuto trocando uma nota de 100 reais no “câmbio paralelo”.

Cambiar por fora é ilegal e pode resultar em cadeia, mas essa é uma daquelas leis que na prática viram letra morta. Prova disso é que em Pacaraima, município brasileiro localizado no estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela, é rotineiro cambistas se oferecerem para comprar reais de turistas brasileiros em plena luz do dia, debaixo do nariz dos guardas venezuelanos (armados até os dentes).

Trocar um punhado de reais por bolívares pode realizar aquele sonho de enriquecimento repentino, mas tudo não passa de uma doce ilusão. Dos bolos quase intermináveis de cédulas, que exigem uma sacola ou uma mochila extra, um bom bocado delas se vai na compra de um simples produto. Sem contar que, na ilha, os preços são diferenciados para turistas e cidadãos margaritenhos (para maior controle, os vendedores sempre pedem a permissão de entrada no país, dada na fronteira, ou a carteira de identidade antes de emitir nota fiscal). E consumir algo por menos de 1.000 bolívares é como achar agulha no palheiro.

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Mesmo em crise econômica feroz, ainda é possível comer com um rei nababo em Isla Margarita pagando muito pouco. Foto: Karen Vasconcelos

A crise econômica é palpável. Ao atravessar a fronteira da Venezuela, o que mais se vê são filas quase intermináveis em frente aos supermercados para comprar alimentos e produtos básicos. “Se eu quiser comprar frango para a minha família, tenho que dormir na fila do supermercado”, conta J.H, um simpático taxista que eu conheci na ilha. Ele explicou que, por conta do racionamento da cesta básica e de produtos de higiene e limpeza, é feito um rodízio para a compra desses produtos em determinados dias da semana, de acordo com o último número da identidade.

As filas parecem assustadoras à atual geração de brasileiros, mas é familiar para quem viveu nos anos 1980, quando José Sarney era presidente e o Brasil voltava aos poucos à democracia em meio a uma inflação selvagem.

A Isla Margarita não está isenta da turbulência inflacionária. Até os turistas são submetidos a um limite de compra por itens nos supermercados (não é permitido comprar mais de 10). Assim, de alguma forma, os visitantes acabam sentindo na pele o estilo de vida venezuelano.

Uma emulação, claro, pois muitos dos lazeres que os visitantes desfrutam são inacessíveis à maioria da população – quase não se vê um venezuelano curtindo a Isla Coche, por exemplo, uma ilhota com diversas atrações, distante uma hora de barco de Margarita, e destino quase obrigatório.

Se a ilha não é mais o “paraíso das muambas” de outrora, ainda continua sendo um lugar em que se come bem sem que isso pese no bolso. Nos restaurantes mais finos, pode-se apreciar um prato sem passar dos 5 mil bolívares. E aos que não querem se lançar em aventuras culinárias (tem muita fritura e temperos fortes na comida local, capazes de causar um estranhamento em estômagos estrangeiros), há muitos fast-foods internacionais nos shoppings.

No geral, nos diversos restaurantes localizados nas praias, nas ruas ou nos shoppings, é possível comer como um rei nababo pagando muito pouco. Uma experiência deslumbrante e, ao mesmo tempo, um azar todo nosso que entramos numa profunda depressão “pós-prato” ao voltarmos de viagem.

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Menino brinca na beira da Playa La Punta, em Isla Coche, uma ilhota dominada por turistas: muitas de suas atrações são praticamente inacessíveis ao venezuelano comum. Foto: Diógenes Souza

Luiz

Essa reportagem também foi publicada no jornal A Crítica, caderno Bem Viver (página BV11), no dia 14 de fevereiro de 2016; e no Portal A Crítica (AQUI)

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