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De repente algumas cicatrizes pra contar

Talvez começar uma crônica natalícia comparando a passagem do tempo a uma estrada trilhada não seja lá uma das entradas mais originais. Versar a respeito de cicatrizes enquanto experiências também não, admito.

Ah, tampouco me interessa a originalidade a essa altura! Só quero escrever, e que nessa data, em que completo mais um ano de vida, eu pudesse, de certa forma, dividir um pouco das cicatrizes que acumulei no meu ser ao longo dos anos. Não todas, porque seria um texto longuíssimo. Algumas.

Cicatrizes, todos já devem saber, resultam da travessura, da distração ou das puras vivências. As primeiras são mais comuns no corpo da infância. Tenho algumas. Se falassem contariam boas histórias.

Já as cicatrizes da experiência, pelo contrário, ficam n´alma. Não posso enxergá-las, apenas rememorar. Nem todas doeram tanto assim, é verdade, mas outras, como diz aquela música da Kell Smith (ouçam), foram mais doloridas que um joelho ralado.

Não há melhor época para revisitá-las que um aniversário. Farei isto. Pode vir comigo se quiser.

À vontade:

1 – [ninguém merece mais amor do que nós mesmos podemos nos oferecer. porque a partir disso construímos a nossa autoestima, a nossa força e a nossa determinação]

2 – [amigos são muito importantes. contudo, o primordial não é a quantidade e sim a qualidade deles. a gente reconhece os de verdade quando estão ao nosso lado quando precisamos; se sabemos que podemos contar nossas inseguranças e sonhos sem medo de sermos julgados e se temos a certeza de que ali existe uma conexão verdadeira – e não se subestime: a gente sabe quando há]

3 – [os nossos ciclos de amigos se renovam de tempos em tempos. gente que dividia uma bisnaguinha com requeijão contigo há quatro anos atrás hoje pode não passar de um completo estranho. acontece. as pessoas mudam, tomam caminhos diferentes, e tá tudo bem. no entanto, alguns amigos ficam pra sempre, apesar do tempo e da distância. o meu amigo mais antigo, por exemplo, eu não encontro pessoalmente há uns três anos, mas se eu visse hoje bateríamos um animado papo sobre cinema, seriados de comédia e literatura fantástica. ele posaria de sisudo, mas eu o faria rir feito uma hiena engasgada, porque a gente conhece muito bem os causos um do outro. natural pois nossa amizade completou 20 anos nesse 2017]

4 – [então, na medida em que o tempo passa, a gente percebe que as pessoas, em algumas situações, falham conosco. que até a nossa família também comete erros; que nossos amigos nos deixam na mão, e que nossos parceiros podem não nos oferecer aquilo que precisamos em dado momento. mas aí vem um fato importante: nós também podemos falhar miseravelmente com nossos amigos, familiares e companheiros. saber pedir perdão e perdoar é o segredo da saúde das relações pessoais]

5 – [a nossa vida ganha muito mais força quando a gente se situa como o pilar da nossa própria existência. diga a si mesmo, “eu sou importante, eu mereço ser feliz, eu mereço ser respeitado e eu amo a mim mesmo”. diga em voz alta se necessário, mas certifique-se de que não há ninguém observando. sei lá, você pode não estar preparado para passar um falso atestado de loucura]

6 – [pode até demorar, mas sempre receberemos na medida exata do que oferecemos. nada mais, nada menos do que isso]

7 – [decidir ser feliz é, muitas vezes, um ato de valentia. pois vozes contrárias sempre se levantam. mudar de emprego, viajar sozinho, começar um relacionamento, enfim, de decisões mais cotidianas às mais importantes, e que nos traz um certo contentamento, todas elas necessitam da nossa voz firme pra sair do campos das ideias. às vezes a felicidade é construída com as luzes apagadas]

8 – [confira sempre o troco do pão. e não despreze as moedas. guarde-as numa caixinha ou cofre e verás surpreso as pequenas fortunas que se pode acumular]

9 – [coma um chocotone/panetone antes do dia de natal. ou um ovo de páscoa antes do domingo de páscoa. ou coma a ceia de ano novo antes da meia noite. tem certas regrinhas que nos ensinaram que, peneiradas em boa reflexão, só atrapalham o apetite. isso pode valer a outros aspectos da vida, mas vai ter que descobrir isso sozinho]

10 – [é bom, ás vezes, não se levar tão a sério. atrai uma leveza extraordinária]

11 – [a gente planeja, planeja, planeja, porém nem tudo pode sair conforme o roteiro que bolamos. aprender a lidar com as imprevisibilidades da vida é um aprendizado em movimento. na dúvida ande sempre com um guarda-chuva]

12 – [ah, se a gente pudesse ter um pouco mais de paciência e aguardar o tempo passar mais um pouco para só então manifestar nossas impressões sobre certos acontecimentos. evitaríamos tantas conclusões precipitadas e seríamos muito mais gratos. de qualquer forma, está de bom tamanho xingar em alguns casos. vai que esse nó na garganta se transforma em algo pior… toc-toc-toc!]

13 – [se colássemos cada situação que chamamos de desastre com o rótulo ”isso vai importar daqui a cinco anos?” ficaríamos bem surpresos. hoje acho muita graça das vezes em que fiquei de recuperação em matemática. embora na época quisesse estar morto por causa desse lance de adiar as férias]

14 – [faça as pazes com o passado para não estragar o presente]

15 – [aquele ex-namorado que parecia ser tão legal o tempo pode provar que não passava de um completo imbecil. normal ter um pouco de raiva de si mesmo quando faz esse tipo de descoberta. o ex pode melhorar como pessoa? claro que pode, mas não somos obrigados a esperar ele deixar de ser imbecil, se é que um dia vai deixar de ser. o que não é problema nosso, afinal, tem tanta gente bacana e mais descomplicada por aí]

16 – [não aceite migalhas afetivas. nunca! never! se não for pra arrotar de amor nem caia de boca]

17 – [tomar a iniciativa pode não ser muito confortável, mas, vai por mim, rende boas experiências de vida. é melhor engolir o orgulho que cuspir grandes oportunidades]

18 – [atente bastante às indicações musicais dos amigos. as grandes reviravoltas em nossas playlists vem de um despretensioso comentário do tipo, ”essa semana estava ouvindo um rapper belga e…”, opa!]

19 – [elogie. incentive. encoraje. assim de repente, sem mais nem menos. nunca sabemos em que pé está a realidade interior de alguém. pode ser uma cura]

20 – [aos poucos aquele ensinamento milenar de que o segredo de viver bem está no equilíbrio vai se instalando na alma. tudo em excesso faz mal, até beber água. não espere ter um coma alcoólico pra aprender de uma vez por todas essa valiosa lição de nossos egrégios avós]

21 – [ser muito mais flexível e desprendido de nossos padrões e caixinhas é uma das ousadias mais difíceis de pôr em prática. estar aberto a mudanças parece assustador de início. e é. não há nada mais poderoso do que as nossas próprias crenças ao mesmo tempo que não há nada mais desafiador do que a superação de nossas crenças por vezes limitantes]

22 – [não temos controle. é bom chegar nessa fase da vida mais solto, flexível e livre de tantas “verdades próprias”. é bom chegar aqui lidando tranquilamente com a transitoriedade das coisas, das pessoas e das razões que, quer queira quer não, sempre foram dinâmicas, nós é que teimamos em sermos rígidos]

23 – [ninguém muda ninguém. mas há certos encontros cujas conexões (e disposição) são tão fortes que as pessoas naturalmente se transformam. isso é tão bom]

24 – [sim, aprendi que é possível ser ou estar feliz sozinho e ser ou estar feliz acompanhado. na prática pouco interessa aqueles textos e vídeos motivacionais que querem justificar que todo mundo é obrigado a ter alguém ou que você não precisa de ninguém]

25 – [o hábito de exercícios físicos e uma alimentação equilibrada (sem deixar de comer nada do que eu gosto) começou pra valer há três anos atrás e, pelo visto, levarei como parte da minha vida por muitos anos. só me trouxe satisfação]

26 – [o caminho mais sustentável para se tornar uma pessoa segura com o passar dos anos é enfrentando um pouco dos medos. um de cada vez. aos poucos. eu enfrentei um nesse ano que finda. fiquei completamente sozinho em outro país onde eu mal sabia a língua nativa. o saldo é que vivi experiências maravilhosas, passei alguns apertos e acabei adotando uma nova língua]

27 – [viajar é um dos melhores investimentos da vida. ao invés de ficar acumulando ranços, guarde dinheiro pra sair da sua zona cotidiana. ninguém vai tirar isso de ti]

28 – [faça algo por alguém. um prato. uma limonada. uma carta. um desenho. sei lá. apenas desfrute da ternura que esse gesto traz]

29 – [sexo não é esse diabo todo que pintam por aí. é muito bom e faz bem. faça com os devidos cuidados]

30 – [amar sem medo é do tipo de aprendizado que é construído todos os dias. costumamos ser tão pedantes quando queremos ter convicções sobre o amor que esquecemos de largar os remos e deixar que as ondas nos ensinem que as delícias estão na leveza, e é nas espontaneidades que o amor costuma dar as caras]

… é isso, e que venham muitos mais cicatrizes.

Obrigado!

Luiz 🎂🎂🎂

 

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Arquivado em crônica

Lágrimas e almas de pedra

O único ser que sabe que um dia vai morrer é o homem. A morte já me assustou mais. Hoje, talvez, nem tanto. O que sinto quando tenho que me despedir de alguém é uma enorme tristeza. Lembro logo do verso do poeta Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.” Entendemos desde cedo que a morte faz parte do ciclo da vida, mas quase nunca estamos preparados para recebê-la. O despreparo é multiplicado quando a vida de alguém querido é arrancada por outro. Aí, luto e desejo por justiça coabitam em nossa alma. Um tormento.

Eram 18h do dia 15 de junho. Recebi uma mensagem da minha mãe informando que um amigo de infância havia morrido da forma mais violenta possível. Emudeci. O Herlan tinha 24 anos – uma vida toda pela frente, pensamos logo. É em horas assim que a sensação de impotência nos invade e coloca por terra todas as nossas teorias, as nossas defesas; ficamos nus, sem a ilusão de que podemos controlar a vida, sem aquela nossa fantasia onipotente.

Um turbilhão de lembranças inundou o meu coração naquele fim de tarde melancólico. Da memória brotaram as meninices (período que mais convivi com ele). Brincamos muito juntos na rua de pés descalços. No futebol de travinha ele não era habilidoso (nem eu, confesso), mas era raçudo, tinha pavio curto, sempre acabava batendo boca com alguém (uma graça). Era sempre bom ter a companhia dele nas brincadeiras de fim de tarde.

Enquanto eu tecia essas lembranças, nos portais de notícias o ocorrido já estava publicado; e nos comentários, o julgamento dos ”justos juízes” das redes sociais. Outra tristeza. Não consegui pensar em mais nada. Conheço a família, a mãe, o vi crescer, o chamava de maninho. E lembrei muito naquele dia do último abraço que dei nele. “Olha, se tu aprontar de novo, te dou uns cascudos”, eu disse, dando uns tapinhas de leve no queixo quadrado dele. Ele riu: “vou não, mano, vou não”. E dei um forte abraço nele. O último.

A gente está tão acostumado a ler notícias de vidas perdidas para a violência urbana todos os dias que esquecemos que as pessoas que tem um fim como o do meu amigo tem família, tem mãe, pai, amigos, tem uma história, uma raiz. Andamos tão embrutecidos… E, pela ilusória distância destes casos, as pessoas se permitem ser irônicas, às vezes até mesquinhas, quando deixam seus comentários na internet. Mal elas lembram que somos feitos do mesmo material. Ah, a velha prepotência humana!

Meu amigo não fez escolhas felizes na vida, é verdade, mas antes, acima de qualquer julgamento: havia uma mãe sentindo uma dor indescritível naquele feriado. Isso já seria um motivo e tanto pra ficarmos em silêncio (até porque o luto materno subverte as expectativas naturais do ciclo – embora recorrente, é difícil até hoje de compreender).

O fato é que podia ser na família de qualquer um, podia ser o maninho de qualquer um. A empatia faz bem e custa zero centavos.

Quanto a mim, prefiro levar uma só recordação do meu mano Herlan: ele sempre sorridente, amoroso, um sapeca. Vou sentir falta de andar por aí e ser surpreendido com a voz levemente rouca dele, “e aí, mano?”, seguido de um caloroso abraço.

De tudo fico só com a saudade. É melhor que caminhar vazio.

O Herlan (ali com a mão no queixo) em um dos meus aniversários: descanse em paz, amigo =´)

Luiz

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