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Diário Portenho #1: Onde há fumaça… há um cigarro em chamas

Fachada de um túmulo no cemitério da Recoleta: Os argentinos até se esforçam pra levar uma vida saudável, mas alguns vícios permanecem intactos, entre eles o cigarro (Foto: Jorge Santos)

Assim como em algumas cidades brasileiras, Buenos Aires, pelo menos em tese, não era pra ser exatamente uma cidade “amiga do cigarro”. Isto é, pelo menos no papel está proibido fumar em hospitais, escolas e em áreas fechadas como cinemas, teatros, bancos, restaurantes, boates, bares e em espaços onde há aglomeração de gente.

A lei está vigente desde 2012, mas (como é comum no Brasil) não há controle e é deveras comum ver os portenhos fumando em qualquer lugar. E quando digo qualquer lugar é qualquer lugar mesmo – por exemplo, você para no semáforo de uma movimentada avenida atrás de uma senhorinha muito elegante e, de repente, eclode por cima dela uma inebriante nuvem de fumaça que envolve quase todos os transeuntes que estão por perto (isto quando outro cidadão não resolve contribuir com o tamanho da fumaça). Os não-fumantes nem tampam mais o nariz de tão comum que é cenas como essa.

Ao receber um parente ou amigo estrangeiro, é normal que um argentino organize um ‘asado’ (churrasco) para agradar o visitante (foto: Jorge Santos)

O fato é que os argentinos são excepcionalmente tolerantes com o cigarro. Acostumados a reclamar (verbo que está no sangue dos hermanos), o cigarro não parece fazer parte da imensurável lista de queixas argentinas. É muito comum ver fumantes soltando baforadas nas filas dos ônibus ou andando pelas calçadas do centro, despreocupados e sem receber qualquer olhar de censura. As restrições aos fumantes, assim, é solenemente ignorada por todos.

Aliás, engraçado as noções de argentinos e brasileiros acerca do que faz ou não faz mal.

Enquanto os brasileiros consomem sal à vontade (excessivamente, eu diria) sem a interferência de ninguém, em 2011 os restaurantes de Buenos Aires se comprometeram com o Ministério da Saúde local a retirar os saleiros de suas mesas como uma forma de desestimular o consumo e combater os altos índices de hipertensão arterial no país.

No entanto, as famosas carnes argentinas, por exemplo, não seriam nada sem os cortes que deixam a gordura derreter dentro delas. É impossível separá-la, como em uma picanha. Até porque o churrasco sai da vaca direto para a “parrilla” (um purismo à argentina). Para eles, é praticamente um sacrilégio temperar uma carne de boa qualidade com sal grosso ou assá-la demais, como fazem os brasileiros. A noção de bem passado pra eles é o mal passado pra nós. O que não deixa de ser, a meu ver, um choque cultural delicioso, dessas experiências gastronômicas obrigatórias para quem passa por lá.

Voltando ao fumo, vamos falar de um outro cigarro…

O de maconha (ou a marijuana, como chamam), talvez um item tão fácil de achar quanto um sorvete de dulce de leche, uma das especialidades argentinas. Não à toa, já que o país tem uma política amigável sobre o assunto. Ou seja, jovens e adultos usam de forma recreativa em suas privacidades sem serem incomodados por ninguém.

E, pelo menos aparentemente, a questão do uso pessoal da cannabis não parece despertar um debate tão acalorado como acontece no Brasil. Fuma quem quer e ninguém tem nada a ver com isso, num pragmatismo portenho que se estende a outras pautas comportamentais (explano mais no próximo texto). Contudo, embora seja comum ver pessoas fumando nas ruas e nos parques, não se engane: por lei, continua sendo ilegal comprar, vender, plantar e fumar em locais públicos.

Pelo menos, por aqui, o debate avançou e se desenrolou em 2009. Naquele ano, a Suprema Corte Argentina descriminalizou o uso de maconha em pequenas quantidades, em situação sem ostentação, comércio ou risco para terceiros, abrindo caminho para uma mudança na política de combate às drogas no país a fim de centrar o foco nos traficantes e não nos usuários, e, dessa forma, diminuir os gastos estatais com milhares de casos menores.

A alta corte julgou inconstitucional abrir processos em casos envolvendo o consumo privado da substância ancorada na proteção da intimidade e da autonomia pessoal (previsto no artigo 19 da Constituição). “Todo adulto é livre para tomar decisões sobre o estilo de vida sem a intervenção do Estado”, dizia o documento judicial.

Óbvio que como, dentro de uma democracia, é mais fácil achar vida em outro planeta que consenso sobre um determinado assunto, a decisão gerou críticas e protestos calorosos de familiares de usuários de drogas e nichos conservadores, como autoridades ligadas à Igreja Católica – um setor que desde o fim da Ditadura Militar não tem tanto prestígio assim no país. Contudo, mesmo com os esperados protestos, a decisão da corte foi facilmente tragada (sem trocadilho) pela cultura local.

No final das contas, assim caminha a sociedade argentina: cada um na sua – com ou sem cigarro entre os dedos.

Calçadão de bares e restaurantes no badalado bairro de Palermo: nenhum saleiro à vista (Foto: Jorge Santos)

Luiz

Buenos Aires/Março de 2017

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