Arquivo da tag: política

Manual do bom político vazio

Quanto menos um político tiver o que propor de relevante mais falará de moral, família, deus, pátria. Conceitos amplos que mobilizam afetos, atiçam paixões, hipertrofia ódios ocultos nos recônditos da alma de algumas pessoas.

Esses tais ‘messias de gravata’ falam de políticas públicas, ajustes econômicos, reformas política e tributária, urbanismo, saúde pública, educação, investimentos em ciência e tecnologia? Não! Podem reparar! O assunto é só deus, família, pátria, moral.

A estratégia é clara: em muleta discursiva que mantém esses distintos em alta não se mexe.

Se por acaso, em uma realidade paralela, baleias despertassem o interesse das massas, adivinha, eles só falariam de baleias.

Simples assim.

Luiz

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em mesa redonda

Roda viva dos medalhões

Tudo começou com o Gilberto, o pai-de-todos, que criou o Amazonino, o-que-já-foi-tudo, que criou o Eduardo, que se voltou contra o seu criador em dado momento, e se juntou ao Serafim, que havia perdido a prefeitura para o Alfredo, outra cria do Amazonino, que na eleição seguinte também derrotou o Eduardo, que voltou aos braços de Amazonino no outro pleito e teve Omar como vice, que também foi vice de Alfredo, que rompeu com ele e se juntou ao antigo adversário Serafim, e os dois perderam pro Omar, vice-de-todos-eles, que jogou no palco o Melo, que foi peitado por Marcelo, que levantou a voz para todos os outros, mas acabou se juntando a Eduardo, que tinha Rebecca como vice quando perdeu pro Melo, que saiu de cena e deu lugar ao David, que está com a Rebecca, que agora tem como adversário o antigo aliado, Eduardo, que está contra o seu criador Amazonino, o nosso Dom Sebastião.

Ficou tonto?
Pois é.
Em círculos caminha a política amazonense.

Luiz

1 comentário

Arquivado em mesa redonda

Diário Portenho #3: A cidade e as memórias nos passos do tango

Buenos Aires parou para a Marcha dos 41 anos do Golpe Militar na Argentina. A Avenida 9 de Julho foi tomada por bandeiras, artes, discursos (Foto: Luiz G. Melo)

O protesto na Argentina é um espetáculo. Quase uma atração turística à parte. Seja pelo vigor com a qual eles reclamam pelos seus direitos (o que não deixa de ser admirável) ou pela confusão que sempre se arma entre os próprios manifestantes. A paixão com que os portenhos discutem, como discutem e a quantidade de polêmicas que surgem das questões mais sérias, ou das mais casuais, é realmente intrigante. Aqui, futebol, religião e política se discute, sim, em qualquer lugar e a qualquer hora.

Tive a sorte de testemunhar pelo menos duas grandes manifestações em Buenos Aires. Uma delas foi encabeçada por professores que cobravam por uma educação de qualidade e uma maior valorização do ensino artístico nas escolas (nessa tinha até um simpático grupo de crianças marchando e tocando flauta doce, enquanto adultos carregavam cartazes).

A mais suntuosa delas, no entanto, foi no dia 24 de março (feriado local), aniversário de 41 anos do Golpe Militar – o Día Nacional de la Memoria por la Verdad y la Justicia. A cidade, literalmente, parou. A Avenida 9 de Julho foi completamente tomada por uma multidão empunhando cartazes, bandeiras, sem contar a infinidade de discursos estridentes ao microfone e as mais variadas intervenções artísticas.

Organizações de defesa dos direitos humanos, associações civis, partidos políticos e sindicatos realizaram cerimônias para recordar os 30 mil civis assassinados pela (considerada) ditadura mais sanguinária da América do Sul, e exigir que a Justiça acelere os processos contra os autores de crimes contra a humanidade.

Caminhando um pouco, acabei assistindo à apresentação de um imenso grupo de percussão à Olodum. Um toque bem brasileiro em pleno feriado argentino. Assista um trecho:

Em cada esquina, para matar a fome da multidão, havia uma barraquinha de choripán (nada mais do que a mistura das palavras chorizo, linguiça, com pán, pão, um sanduíche bem tradicional na Argentina). O cheiro era inebriante, e devorar um debaixo do sol escaldante de fim de verão é quase um pecado gastronômico.

Buenos Aires respira tango por todos os poros – esquinas, praças, bares. Impossível não ter contato. ARTE: Jair Loaiza Duque (Mercedes Giachetti Galería de Arte – San Telmo)

Como um bom feriado argentino, não só as ruas, mas também os restaurantes, bares e cafés estavam completamente lotados. Consegui almoçar em um simpático restaurante no centro com certa tranquilidade. Quer dizer, nem tanto, pois nas mesas ao meu redor as pessoas assistiam à cobertura da marcha enquanto comentavam energicamente os problemas do país.

Apurei os ouvidos pra tentar pescar alguns comentários da mesa ao lado, onde um senhor de barba grisalha, com um certo ar aristocrático, conversava com um jovem a respeito das polêmicas medidas de austeridade do presidente Maurício Macri. Um assunto que, para um típico argentino, rende café, almoço e jantar.

Não por acaso, pois Macri, durante a campanha eleitoral, pregava a retomada da economia e o crescimento de 1% em 2016, mas teve de se contentar com a queda de 1%. Enquanto isso, entre as mudanças radicais que ele promoveu, estão a abrupta desvalorização do peso argentino e os cortes nos subsídios implantados durante os governos de Néstor e Cristina Kirchner.

Ou seja, promoveu um verdadeiro tarifaço: aumento nas contas do gás, de energia e de água. O combustível também aumentou; e nem o preço do transporte público (um dos mais baratos do continente) escapou do reajuste. Fatores que contribuíram, e muito, para a queda da popularidade de Macri nos últimos meses.

O resultado até agora são as mais variadas categorias de trabalhadores ameaçando e concretizando greves por todo o país, e o argentino médio fazendo malabarismos nos supermercados – como bons dançarinos de tango com seus hipnotizantes movimentos de pernas.

Nem os turistas escapam da inflação. A Buenos Aires atrativa aos bolsos brasileiros ficou para trás – mesmo com o real ainda valorizado. Colocando na ponta do lápis, a maioria dos itens de vestuário, calçados e perfumes, por exemplo, saem o mesmo preço e, às vezes, até mais caro que no Brasil.

Nada de sacolões, portanto, mas, com um bom planejamento (incluindo estar antenado quanto às atrações gratuitas na cidade, que são muitas) dá pra usufruir e muito desse pedaço charmoso da América do Sul, e levar de lá algo que dinheiro nenhum nesse mundo pode comprar: memórias.

Afinal de contas, somos habitados por memórias. E de memórias Buenos Aires entende muito bem. Memórias de uma Evita Perón, que repousa no cemitério da Recoleta, ironicamente cercada por uma aristocracia que a detestava, e, vejam só, ainda hoje vive no imaginário coletivo argentino. Memórias imortalizadas em tangos carregados de pasión. Memórias que ficam e ninguém pode arrancar. Memória de quem sai da Argentina já sentindo saudade de uma terra estrangeira.

Em um dos parques do aristocrático bairro da Recoleta: Te extraño, Argentina! (Foto: Jorge Santos)

Luiz

Buenos Aires/ Março de 2017

Deixe um comentário

Arquivado em reportagem

Votei

Foto: autoria desconhecidaVotei domingo de manhã bem cedo (pela primeira vez; não pela feira e sim por motivos profissionais: cobrir eleição e tal, desafios do ofício). E num local novo: uma escola pública recém-reformada, a mesma onde estudei durante muitos anos. Mamãe foi minha companheira de seção e de fila. Melhor companhia de espera. Nem notei que tudo andou depressa.

Após as burocracias pré-voto, fui à urna e pronto: Votei. Consciência tranquila, coração grato. Na volta pra casa, senti uma pontada de felicidade ao poder ir, livremente, escolher os meus representantes municipais. Foi repentino, porém bom.

Bem… Dizem que a gente só dá valor às coisas quando a gente as perde. Já eu vou nadar contra a corrente. Por quê? Porque a democracia pode não ser perfeita, e o povo muitas vezes é um elefante preso por um barbante, mas vou defendê-la mesmo assim. Do meu jeito.

Agora que os resultados das urnas já saíram vamos acompanhar, cobrar. A política é um exercício contínuo, caros.

Adendo

O que mais tenho visto por aí são pessoas cheias de certezas, e polarizadas politicamente, e isso é muito ruim – desapontador. Quando eleitores, políticos e militantes perdem a capacidade de questionarem a si mesmos e a seus candidatos e partidos, temos aí espaço para o crescimento do fundamentalismo e da fé cega numa pessoa ou numa sigla.

Meu mais sincero desejo aos convictos em estágio inicial: mais pulgas atrás das orelhas, um “desconfiômetro” calibrado, fartura de tolerância, bom e velho respeito sem medidas.

Tem no mercado. É só pedir.

Luiz

Deixe um comentário

Arquivado em crônica

Bilhete aberto ao Brasil

mao-bandeira-do-brasil-imagens-para-facebookSe após esse longo processo de impeachment da (agora) ex-presidente Dilma Rousseff você está sorrindo, batendo palmas, vomitando impropérios pelos dedos a quem pensa diferente de você, mas com as panelas muito bem guardadas, e a camisa verde e amarela no armário, cercada de bolinhas de naftalina, tem algo errado com a tua indignação.
 
Ou: se a tua luta é contra a corrupção, de fato; se a tua luta é pela construção de um país justo para todos, de fato, em que, por exemplo, um político não estar envolvido em escândalos de corrupção não faz mais que sua obrigação; estamos só no começo.
 
Olhe bem para quem está à frente do Brasil nesse exato momento. Se queima no teu peito aquela chama de “é, ainda temos muito o que fazer pro Brasil melhorar”, bom sinal.
 
Agora se o que prevalece em ti é o regozijo pela saída de um partido político do poder, a ponto de ter levado, nos últimos meses, o lema “o inimigo do meu inimigo é o meu amigo” às últimas consequências, ou só brincou de Guerra Fria nas redes sociais, ou mesmo foi conivente com esse carnaval de hipocrisia e demagogia parlamentar que vimos, sinto, tua ”preocupação com o futuro do país” é tão substancial quanto uma bolinha de isopor.
 
Amo o meu país. Mas ele precisa de uma reforma urgente. Não apenas política, mas cultural. E a mudança passa por nós, caros. E de nós aos nossos representantes.
 
Avante!
 
Luiz

Deixe um comentário

Arquivado em mesa redonda

Vazio referencial, oficina dos diabos

Ilustração: Cau Gomes | Agência A TARDE

Ilustração: Cau Gomes | Agência A TARDE

O conturbado processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff mais a varredura da operação Lava Jato aumentou ainda mais a habitual descrença dos brasileiros com os políticos e a política (partidária). E a atual falta de referência (no sentido ético) e rumo (sem contar a economia capenga) tem feito muita gente boa depositar o seu fiapo de fé em figuras públicas, que até pouco tempo atrás seriam, no mínimo, ignoradas ou tratadas como sempre foram pela opinião pública: caricaturas de si mesmo. A meu ver, isso é o que tem de mais nocivo nessa crise política que atravessamos.

Crise e messianismo tacanho andam de mãos dadas. E episódios dramáticos já nasceram dessa união em outros tempos. A História nos dá essa lição: foi num momento de crise que a Alemanha pós-Primeira Guerra abriu caminho para a ascensão de Adolf Hitler. A comparação com esse relevante acontecimento da primeira metade do século XX pode soar exagerada a alguns, eu sei, mas prefiro pecar pelo excesso de zelo para, dessa forma, não compactuar com a repetição de um erro sequer daquela sociedade alemã em nosso país.

No Brasil de hoje, em que o debate público se resume a gritaria fanática, xingamentos e posicionamentos extremados, e do vazio referencial proporcionado pelas pedaladas morais dos atuais detentores do poder, temos visto a elevação de velhos políticos profissionais que posam de “luz no fim do túnel”, embora eles não sobrevivam a uma reflexão mais acurada – os mesmos têm aproveitado muito bem a popularidade meteórica (graças, em grande parte, às mídias sociais); e, por meio de um discurso estridente, permeado de demagogia, estão na crista da onda da compreensível fome e sede de justiça de uma parcela significativa de brasileiros à flor da pele.

O saldo desse fenômeno: uma horda de meninos e meninas que nasceram em um Brasil redemocratizado convertendo-se em discípulos desses pretensos “salvadores da pátria”, e, assim, reproduzindo, difundindo e defendendo ideias e modelos governamentais mofentos com um fervor que eu nunca vi ou ouvi nem de nenhum idoso com quem já tive a oportunidade de conviver (inclusive de gente que viveu o fim da Era Vargas e a Ditadura Militar inteira).

Diante da idolatria a esses “gurus mitológicos” dos nossos dias, em que impera um fanatismo que nega o espaço do outro, fico na dúvida se continuo simplesmente não levando a sério ou se sinto uma angústia profunda pela minha geração.

Perante este impasse, resta-me torcer (e fazer a minha parte, claro) para que o Brasil volte logo aos trilhos da razão, pois é nesses momentos de descrenças generalizadas que os diabos fazem a festa.

Luiz

1 comentário

Arquivado em mesa redonda

O valor exemplar da ética

Gestalt (imagem da internt)Ética é que nem reciclagem de lixo, fala-se muito a respeito, mas a prática revela algumas lacunas.

A noção de ética não é algo que eu imprimo em alguém apenas falando sobre ela. Em qualquer ambiente em que nós estamos inseridos, seja na família, na escola, no clube, na sociedade de uma maneira geral, a ética não é apenas uma teoria, é uma prática.

Não há atalhos. Uma formação sólida no campo da ética acontece quando um indivíduo lida com exemplos (ou bons exemplos, como queira). A prática da honestidade, como devolver aquele troco errado do pão, é apreendida quando passa pelo modelo. A ética, caro leitor, não é apenas um tema de conversa, uma pauta de programas de auditório ou das notícias vindas de Brasília. Urge indicá-la, mostrá-la.

E se ela é exemplar, é na escola e na família que o exercício da ética, dos adultos às crianças, se faz extremamente necessário, pois a ética não está relacionada apenas ao campo da política, como muita gente pensa, está relacionada também à minha convivência com o outro, em qualquer ambiente.

A ética só é implantada quando há coerência. Nesse caso, o “faça o que digo, mas não faça o que faço” não serve nem pra “piada do pavê”.

Luiz

Deixe um comentário

Arquivado em mesa redonda