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Lágrimas e almas de pedra

O único ser que sabe que um dia vai morrer é o homem. A morte já me assustou mais. Hoje, talvez, nem tanto. O que sinto quando tenho que me despedir de alguém é uma enorme tristeza. Lembro logo do verso do poeta Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.” Entendemos desde cedo que a morte faz parte do ciclo da vida, mas quase nunca estamos preparados para recebê-la. O despreparo é multiplicado quando a vida de alguém querido é arrancada por outro. Aí, luto e desejo por justiça coabitam em nossa alma. Um tormento.

Eram 18h do dia 15 de junho. Recebi uma mensagem da minha mãe informando que um amigo de infância havia morrido da forma mais violenta possível. Emudeci. O Herlan tinha 24 anos – uma vida toda pela frente, pensamos logo. É em horas assim que a sensação de impotência nos invade e coloca por terra todas as nossas teorias, as nossas defesas; ficamos nus, sem a ilusão de que podemos controlar a vida, sem aquela nossa fantasia onipotente.

Um turbilhão de lembranças inundou o meu coração naquele fim de tarde melancólico. Da memória brotaram as meninices (período que mais convivi com ele). Brincamos muito juntos na rua de pés descalços. No futebol de travinha ele não era habilidoso (nem eu, confesso), mas era raçudo, tinha pavio curto, sempre acabava batendo boca com alguém (uma graça). Era sempre bom ter a companhia dele nas brincadeiras de fim de tarde.

Enquanto eu tecia essas lembranças, nos portais de notícias o ocorrido já estava publicado; e nos comentários, o julgamento dos ”justos juízes” das redes sociais. Outra tristeza. Não consegui pensar em mais nada. Conheço a família, a mãe, o vi crescer, o chamava de maninho. E lembrei muito naquele dia do último abraço que dei nele. “Olha, se tu aprontar de novo, te dou uns cascudos”, eu disse, dando uns tapinhas de leve no queixo quadrado dele. Ele riu: “vou não, mano, vou não”. E dei um forte abraço nele. O último.

A gente está tão acostumado a ler notícias de vidas perdidas para a violência urbana todos os dias que esquecemos que as pessoas que tem um fim como o do meu amigo tem família, tem mãe, pai, amigos, tem uma história, uma raiz. Andamos tão embrutecidos… E, pela ilusória distância destes casos, as pessoas se permitem ser irônicas, às vezes até mesquinhas, quando deixam seus comentários na internet. Mal elas lembram que somos feitos do mesmo material. Ah, a velha prepotência humana!

Meu amigo não fez escolhas felizes na vida, é verdade, mas antes, acima de qualquer julgamento: havia uma mãe sentindo uma dor indescritível naquele feriado. Isso já seria um motivo e tanto pra ficarmos em silêncio (até porque o luto materno subverte as expectativas naturais do ciclo – embora recorrente, é difícil até hoje de compreender).

O fato é que podia ser na família de qualquer um, podia ser o maninho de qualquer um. A empatia faz bem e custa zero centavos.

Quanto a mim, prefiro levar uma só recordação do meu mano Herlan: ele sempre sorridente, amoroso, um sapeca. Vou sentir falta de andar por aí e ser surpreendido com a voz levemente rouca dele, “e aí, mano?”, seguido de um caloroso abraço.

De tudo fico só com a saudade. É melhor que caminhar vazio.

O Herlan (ali com a mão no queixo) em um dos meus aniversários: descanse em paz, amigo =´)

Luiz

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Saudade

Não superamos saudade

Sentimos saudade

Saudade é palavra tão nossa

 da nossa língua pétala dolorosa

É tão sua,

tão minha,

dor só minha.

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Arquivado em poesia, agora?!

Nostalgia

Aquele homem acordou bem cedo, antes do galo pensar em cantar, como todos os dias. Espreguiçou-se e foi a passos lentos ver se o jornal do dia já estava sobre a mesa do café. Não estava, e começou a reclamar com a mulher. “Não comprei” – ela disse com firmeza. Consciente de que o seu único passatempo matinal estava eliminado, começou a perambular pela casa. Ele Procurou, sem sucesso, um desafio novo numa pilha de palavras cruzadas já feitas. Foi em vão. Revirou as gavetas, viu álbuns antigos, cartas da juventude e medalhas dos tempos que corria.

A mulher fez pouco caso da retrospectiva pessoal do marido e continuou preparando a mesa do café. “Depois eu como alguma coisa!”, avisou antes que ela perguntasse algo. “Tudo bem!”, respondeu imediatamente sua mulher, espargindo café na xícara,  sem se importar em fazer o desjejum sozinha.

O silêncio tomou conta da casa. Só era possível ouvir a cantoria dos sabiás lá fora. Entediado, ele continuou revirando as gavetas e no meio da papelada achou uma fotografia amarelada e admirou-a com saudade. Em seguida percebeu que embaixo daquela foto tinha um chaveiro velho que exibia a propaganda de uma concessionária falida e que carregava uma chave especial. Ele sorriu, segurou firme o chaveiro e foi o mais rápido que podia à janela.

Com o chaveiro nas mãos, ele ficou uns cinco minutos imóvel, admirando uma enorme lona preta cheia de dobras, preenchidas com folhas secas e pedaços de galhos da velha mangueira, e também com pequenas poças d’água das chuvas de verão. Mais do que uma proteção, aquela lona escondia um tesouro pessoal.

Ostentando um sorriso, agora mais largo no rosto, ele atravessou o jardim decidido. Segurou firme aquela lona e aos poucos foi puxando-a com pressa, como uma criança desembrulhando um presente de aniversário. Formou um grande embolorado daquela lona e afastou de si. Finalmente o tesouro estava descoberto. Examinou de todos os ângulos para ver se faltava algum pedaço, se tinha um novo arranhão, uma nova ferrugem. Depois da cuidadosa análise, voltou a sorrir e contemplou aquela preciosidade tão pequena e tão branca que reluzia nos raios solares daquela manhã – aquele fusca 70, sem a lona, se destacava na garagem.

Com os olhos arregalados, o homem não pensou duas vezes, abriu a porta, entrou e tentou ligar o carro, que não deu sinal de vida. Ansioso, o homem tentou, tentou, até que, finalmente, o motor escarrou. Ele fez uma comemoração discreta – tinha muita criança passando naquele momento para ir ao colégio. Mesmo assim não se livrou da chacota. Um grupo de garotos fardados parou em frente ao portão e começaram a soltar uns risinhos abafados. “Isso é um carro? Parece uma imensa lata de tinta sobre quatro rodas”, disse um dos meninos, arrancando gargalhadas dos demais. O homem não deu a mínima. A euforia que sentia era maior que qualquer galhofa.

Rapidamente ele saiu do carro, a garotada assustou-se e correu, mas esganar os zombadores não era o seu objetivo e sim abrir o portão da garagem. Entrou novamente no fusca, acomodou-se naquele banco maltratado pelo tempo, abriu o porta-treco e tirou um velho ray-ban, colocou-o e saiu, com muito barulho, bem devagarzinho.

E lá se foi o homem e o seu fusca pipocando pelas ruas, despertando a curiosidade e admiração do povo. Assustando uma senhora com uma sombrinha debaixo dos braços, que pulou imediatamente na calçada e encarou, desconfiada, o motorista. Outra senhora, com uma sacola de feira, soltou um grito agudo do susto que levou quando o fusca espocou mais uma vez. Uma mãe que levava o seu filho à escola, tratou logo de mudar o menino de mãos e não parou de olhar; o menino deixou escapar um “Olha só mãe!” Bem alto e foi repreendido logo em seguida. Um homem com roupa de atleta passou pelo fusca, deu um tapinha na porta e disse: “vá com calma!”, riu alto e ultrapassou o fusca.

Feirantes gargalhavam, mendigos davam tchauzinho, moleques faziam questão de apostar corrida com o fusca, outros motoristas buzinavam, ora por cumprimento, ora por xingamento, cães latiam em coral e achavam que estavam expulsando o velho fusca dos seus territórios, mas o homem permaneceu inabalável ante as variadas reações alheias e continuou conduzindo aquela máquina que, tranquilamente,devorava as ruelas.

Não demorou muito e o fusca pipocou três vezes seguidas. “Você está cansando, não é? Então é melhor voltar”, sussurrou o homem. Deu tapinhas no volante, cortou caminho e voltou pra casa.

Estacionou com calma na garagem, tirou os óculos e guardou no seu cantinho de sempre. Depois desembolou a lona preta para cobrir outra vez o seu tesouro. “Quem sabe numa próxima vez”, pensou melancólico por não poder fazer aquilo mais vezes. Mesmo assim, desfilou feliz pelo jardim.

A sua mulher, de avental encardido, estava na porta com as mãos na cintura. “Você inventa cada uma! Ô velho arteiro!” – resmungou com um muxoxo. Ele fez que não ouviu. Ficou rodando o chaveiro no dedo e começou a assobiar alto. Assobiava não para abafar as reclamações da mulher, mas para comemorar sua entrada no seleto grupo dos motoristas octogenários da cidade, que tinham virado notícia no jornal da cidade dias atrás.

Luiz

Manaus, 19 de Abril de 2007

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