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Em Parintins a gente vê o que é amor

Os bois Caprichoso e Garantido, ”donos” da festa, na arena do Bumbódromo, onde duelam todos os anos: a Amazônia pode ser mágica. E é (foto:Portal A Crítica)

Parintins é uma ilha. Uma cidade de interior com ares de cidade grande, cercada de águas por todos os lados. É o segundo município mais populoso do Amazonas, região norte do Brasil. Fica distante 365 km da capital do estado, Manaus. É lá que, todos os anos, desde 1965, no último fim de semana de junho, acontece o Festival Folclórico de Parintins, o maior espetáculo a céu aberto do mundo, onde os bois Caprichoso (das cores azul e branco) e Garantido (vermelho e branco) travam um duelo anual de artes, cores, sons e danças. Informações bem familiares para quem é amazonense, mas pra quem é de outros cantos do Brasil e do mundo, é um universo completamente novo que se descortina em azul e em vermelho.

Das muitas coisas que aprendemos quando viajamos a Parintins, uma delas prega o respeito total pelo adversário (embora as provocações deem a tônica do espetáculo, principalmente nos versos do amo-do-boi e nas toadas de desafio). No Bumbódromo, onde acontece a disputa, quando um boi se apresenta, a galera do outro boi (como são chamadas as torcidas) fica em reverente silêncio – caso contrário perdem pontos. E justamente por ser um item julgado, é parte essencial das apresentações (ou, um show à parte).

”Já conheci outras manifestações culturais brasileiras, mas isso aqui é simplesmente impressionante”, me disse Anna, uma simpática polonesa, de português impecável, enquanto aguardava a apresentação do Caprichoso.

Não tem jeito. Embora quem vá pela primeira vez ensaie uma neutralidade, o amor pelo azul ou pelo vermelho é contagiante. Se o contato com os torcedores apaixonados não balança, o rufar dos tambores da Marujada de Guerra (os ritmistas do Caprichoso ) ou da Batucada (do Garantido) arrebatam os indecisos. Não há quem resista ao som caloroso das toadas – as músicas que embalam as apresentações, contam lendas, curiosidades regionais e sacodem as arquibancadas. É simplesmente uma ópera ao ar livre no coração da Amazônia.

Outra regra de ouro do Festival: o torcedor do Garantido não pronuncia o nome do Caprichoso; nem o torcedor do Caprichoso pronuncia o nome do Garantido. O nome completo do boi adversário é apenas ”boi contrário”. Mas aquele fanatismo de outrora, quando as pessoas, contam os mais antigos, iam às vias de fato por causa do seu boi, ficou para trás. Ficou a rivalidade sadia e a divisão territorial. A cidade é realmente dividida em duas cores, tendo a Catedral de Parintins, dedicada a Nossa Senhora do Carmo, o ponto de referência e harmonia.

Mesmo assim, no lado azul, onde fiquei hospedado, há casas onde a família inteira torce para o Garantido. Da mesma forma, é possível encontrar torcedores azuis do outro lado da ilha, reduto do Garantido. Tudo misturado. Em paz. Conviver bem com o diferente é possível. Mais uma importante lição parintinense.

Aliás, pra quem vai a Parintins com ”espírito de mochileiro”,  é uma alternativa aconselhável se juntar com amigos e alugar um quartinho na casa de um morador local – uma renda extra a quem hospeda; uma experiência riquíssima ao visitante. E ter contato direto com o parintinense é se apaixonar de vez por aquela ilha de tantos encantos. A hospitalidade e a simpatia chegam a ser ”folclóricas”. O enlace é imediato: encostou em um canto, puxou conversa, já vira amigo.

Os três dias de festa não poderiam ter sido mais felizes. Já seria especial por um motivo muito simples: eu estava lá. Senti, vibrei, vivi aquele espetáculo em todas as suas nuances. Um sonho de criança. Embora a cultura do boi-bumbá tenha feito parte da minha infância, só agora, adulto, consegui ver o Festival com os meus próprios olhos pela primeira vez. A primeira de outras vezes, assim espero.

É preciso ir a Parintins pra perceber que aquela epifania que dobra o número de habitantes em um só fim de semana é muito mais que uma festa, muito mais que dois bois de pano, que duas cores. É puro amor brotando de todos os lados. Das toadas tocadas em cada canto da cidade, das belezas naturais ao alcance das mãos, do afetuoso abraço de alguém que conhecemos ao ”tem café, mano, toma um pouco” dito por aquele que nos recebe em sua casa. Na ilha todos são (e viram) parentes. Todos são parte essencial de uma grande confraternização que impulsiona a economia local.

E falando em amor, acho justo destacar que na minha primeira ida à Ilha Encantada, o boi-bumbá Caprichoso se sagrou o campeão da 52° edição, vencendo todas as três noites, em rara harmonia entre opinião dos jurados e do público. No dia seguinte ao último dia de Festival –  quase uma ”segunda-feira de cinzas” – numa cidade que já retomava aos poucos a sua tranquilidade habitual, testemunhei o lado azul de Parintins pulsar de felicidade.

Ter visto pessoalmente o boi que ainda na infância me arrebatou ser campeão coroou essa viagem, que, de quebra, me ressignificou por inteiro. Pois é, sou pé quente.

Na arquibancada do boi-bumbá Caprichoso antes de uma das apresentações: em Parintins não existe essa de imparcialidade. Ou é azul ou é vermelho (foto: arquivo pessoal).

Parintins – Amazonas/ Junho de 2017

Luiz

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