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Diário Portenho #2: Dormir cedo em Buenos Aires é um pecado capital

”Boliche” no badalado bairro de Palermo. A regra é clara: a festa só termina quando os primeiros raios solares dão as caras (foto: divulgação)

Buenos Aires não dorme, sofre de uma insônia febril. O relógio bate meia-noite, e enquanto na maioria das cidades brasileiras, muitos já estão refugiados em seus lares (em parte por causa da violência urbana), na capital portenha é a hora que as pessoas saem de casa para jantar, reunir e beber com os amigos, jogar conversa fora. E não me refiro somente aos jovens e adultos solteiros. Famílias inteiras (sim, papais, mamães e crianças), senhoras e senhores (vestidos com elegância) passeiam tranquilamente, e quando são casais, de mãos bem dadas, como eternos namorados. A noite portenha é pra quem ama.

É quase uma unanimidade a opinião de que a noite argentina é uma das mais divertidas e completas de toda a América do Sul. Nela podemos encontrar muitos bares onde, todos os dias, diversas bandas se apresentam. Há ainda numerosas danceterias supermodernas, com música eletrônica e DJs locais e internacionais, sem contar as opções típicas abrangendo a arte nacional, o tango e o folclore da região.

Resumindo: Tem diversão pra todos os gostos e bolsos.

Foi numa dessas andanças noturnas que eu conheci dois simpáticos jovens, Juan* e Pablo*. Dois gays assumidos, bem resolvidos e no alto de seus 22 e 24 anos, respectivamente, independentes financeiramente. Juan me convidou para ir em seu pequeno e confortável apartamento no chique bairro da Recoleta. Recebeu-me com uma taça de vinho e um caloroso abraço. Enquanto ele se arrumava (e muito) para a noitada, Pablo selecionava no notebook uma playlist com o melhor do reggaeton, os hits que sacodem os boliches portenhos (como as baladas são chamadas na Argentina).

Aproveito o clima de descontração para perguntar a Juan sobre como é ser gay em Buenos Aires. ”Aqui as pessoas são respeitosas”, disse. ”Há discriminação, claro, como em todo lugar do mundo; um olhar torto aqui e acolá, mas ninguém agride ninguém por ser quem é”, Pablo complementa.

Ele aproveita o gancho pra me perguntar se o assassinato da travesti Dandara dos Santos, em Fortaleza, é um boato de internet. Respondo que não, é pura verdade. Houve um silêncio congelante na sala. Nem consigo descrever a expressão de assombro que estampou o rosto dos dois. ”Que triste”, Juan comenta com certo esforço, antes de tomar um gole de vinho. ”E o coração?”, pergunto a Juan, pra tentar amenizar o clima. ”Ah, sou muito jovem pra sofrer por amor”, ele responde com uma gargalhada.

Confesso: senti uma profunda vergonha de ter que dizer a eles que a violência contra LGBTs no Brasil ainda é uma realidade cotidiana. Até porque não há guetos na Argentina, tipo um bairro, uma rua ou um point. As pessoas da comunidade LGBT estão por toda a cidade.

Segundo Pablo De Luca, presidente da Câmara de Comercio Gay Lésbica da Argentina, em uma entrevista à CNN em espanhol, entre as vantagens da cidade está o fato de que lá não se fala mais de “tolerância”. “A tolerância implica em uma situação em que alguém está acima do outro. E aqui estamos falando de pessoas que são iguais. É uma sociedade muito respeitosa e isso é perceptível”, disse.

Eu e o imponente Obelisco, cravado no coração de uma das maiores avenidas do mundo, a Nove de Julho, numa meia noite qualquer: o vai e vem de gente não para (foto: acervo pessoal)

Pude comprovar o que ele disse com os meus próprios olhos. Embora os portenhos sejam mais reservados em demonstrar afeto em público, testemunhei duas garotas andando abraçadas, despreocupadas, em um shopping da Recoleta. E na sempre movimentada Avenida Nove de Julho também cheguei a ver dois jovens rapazes andando de mãos dadas, à noite. Aproveitei pra observar a reação das pessoas que passavam por eles. Resultado: Nenhum olhar contrariado, nenhum cochicho, nada. Os transeuntes seguiram os seus caminhos sem se importar com a cena. Se tinha alguém espantado com aquela harmonia toda esse alguém era eu.

Enquanto no Brasil ainda não saímos do ”bê-á-bá” em discussões que envolvem direitos das minorias sexuais, a Argentina é um país que reconhece amplamente os direitos dos LGBTs. Entre as leis aprovadas estão o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, em 2010; a adoção de bebês por casais do mesmo sexo; a mudança de gênero em documentos de identidade, entre outras conquistas.

Enfim, o relógio já marcava quase duas horas da manhã, o que significava que a noite iria ”começar”. Juan e Pablo terminam, finalmente, de se arrumar: os cabelos impecavelmente armados, calça skinny com rasgos milimétricos, maquiagem discreta e um perfume doce no ar. E seguimos à avenida principal para tomar um táxi (com praticamente um policial em cada esquina, é uma caminhada bem segura).

O ”boliche” para qual fomos é situado no jovial bairro de Palermo, onde, eles me dizem, a bebida é liberada e turistas brasileiros ganham um generoso desconto. Nada mal.

A noite é longa, colorida, dançante. Na balada, héteros e gays, juntos, se esbaldam ao som do reggaeton, do pop, da salsa e até mesmo do funk carioca. Lá pelas tantas, um argentino me aborda: ”és brasileiro?”. Diante de minha afirmativa, ele me diz, com uma reverência, ”vocês, brasileiros, são lindos!”, e se afasta de mim erguendo uma taça de chandon. Retribuo a gentileza.

Todos dançam até o amanhecer. A regra é cumprida à risca.

*Nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados.

Grafite em San Martín, cidade situada na área metropolitana de Buenos Aires: respeito pelas diferenças é um assunto que se encontra em outro patamar na Argentina (Foto: Jorge Santos)

Luiz

Buenos Aires/ Março de 2017

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